Crônica

OS SERESTEIROS

Seresteiro. Que compõe ou participa de serestas. Seresta no Brasil é o mesmo que serenata, Não há por aqui serenateiro. Os dicionários registram serenatista, mas você, como eu, provavelmente nunca ouviu essa palavra. Diz-se também sereneiro, alusão evidente ao sereno da noite, palco ilimitado do seresteiro, que ao quebrar com cantos simples e melodiosos seus misteriosos silêncios, suscitavam lembranças de amores ausentes ou impossíveis ou davam alma a amores presentes, sem saber até quando.

Como qualquer cidade do Brasil, Mossoró conheceu muitos seresteiros. Walter Wanderley nos fala de Viriatinho e Dorian Jorge Freire de Zé Alinhado. Eram tempos mais distantes. Dos anos 50 e 60 do século XX vários são os nomes na memória coletiva dos bairros e regiões da cidade. Em apanhado rápido podem ser citados Zé Ferreira no Bom Jardim, Zilô e Chaguinha nas Barrocas, Cocota na região do centro, João Pires nos Pereiros, Arnou Miguel no Santo Antonio.

A lista seria bem grande se estivéssemos em uma roda com moradores também do Alto de São Manoel, Alto da Conceição e as outras áreas da cidade. Não só os cantores e violonistas participavam das serenatas. Outros, mesmo sem dotes artísticos para expressar diretamente suas paixões, integravam o cortejo para sinalizar à amada que aquela canção, interpretada ali na voz de um amigo, era uma mensagem encomendada por ele para homenageá-la. A seresta era, às vezes, o prolongamento de uma noitada iniciada em bares na noite anterior.

Um violão era suficiente para dar retaguarda melódica a uma voz, geralmente masculina. Pelo Brasil havia muitas mulheres seresteiras, mas, tratando-se de nossa realidade, era mais fácil encontrar vozes femininas nas serestas de programas de rádio ou daquelas “amplificadoras” de bairros de que falamos. Aqui nos referimos aos seresteiros que caminhavam pelas madrugadas, sob vigilância e inspiração da lua e das estrelas e na companhia de gatos e cachorros vadios, estes últimos por vezes não tão amistosos.

Nem sempre eram bem recebidos. Ao cantar sob as janelas ou junto aos portões das musas sabiam que podiam ser alvo da impaciência alguém. Mas, a receptividade e o apreço dos que se sentiam homenageados ao receber a serenata em frente a suas casas deixavam a conta na coluna do saldo.

Noite alta, céu risonho. A lua, as estrelas, o sereno da noite não têm mais seus seresteiros. Nas ruas, nas madrugadas, não é mais o som de seus violões que nos acorda. Quem sabe, até mesmo os gatos e cachorros vadios estão sentindo a sua falta?

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