Crônica

O RIO MOSSORÓ

Outro dia falei sobre as cheias do Rio Mossoró. Hoje quero me referir ao rio em si, que está aí, mas não é mais o mesmo.

Em 2007, li no blog do agora saudoso Nilo Santos que o padre Sátiro Cavalcanti abordara em homilia o problema da poluição do Rio Mossoró. Criticara ações de marketing e, objetivamente, incluíra até o bispo no rol de responsáveis pelo problema. A propósito, o meio ambiente era tema da Campanha da Fraternidade naquele ano.

Havia um antigo ditado popular que aconselhava aos insatisfeitos (com qualquer coisa) queixarem-se ao bispo. Ora, se até o bispo era culpado a quem, agora, iríamos nos queixar? Claro, essa era apenas uma maneira de falar da questão, mas ali alguém falava, com autoridade, de algo que deveria ser propósito de todos que nasceram ou vivem nessa cidade.

A poesia é necessária (além de inevitável). O que chamam agora de rio não é aquele de águas mornas ao amanhecer, quando o silêncio da madrugada era quebrado pelo falatório alegre das lavadeiras contrastando com o silêncio das tardes; de mistérios sugeridos em suas curvas emolduradas de verde, à medida que o lento despedir do sol as cobria de sombras.

Mas, a poesia não é suficiente. O rio requer ações práticas. Limpar, dragar, mas isso também é insuficiente quando se continua a jogar em seu leito dejetos, águas servidas e resíduos industriais sem tratamento; resolver o problema de ocupação residencial de suas margens com programas de acesso à moradia, planejados com inteligência e base na realidade. Na zona urbana de Mossoró, há paredões de casas onde antes o acesso ao rio era público. O problema provavelmente se repete nas demais cidades ao longo de seu curso. Indispensável a reconstituição da mata ciliar de suas margens; estudos técnicos para definir o que se pode explorar de atividade agrícola em sua bacia sem comprometer sua vitalidade; pesquisas sobre elementos da cadeia biológica própria desse ambiente.

A missão é de todos. Governos em todos os níveis e sociedade. É mesmo oportunidade para o exercício do direito de cada um, mas também da obrigação de ser responsável. Concorda-se que setores organizados e esclarecidos tenham mais obrigações (afinal, a quem mais é dado…). Não é uma tarefa simples. Mas, voltando à poesia, abraçar o rio, é lembrar de quando se fazia isso em plena intimidade com ele, nadando em suas águas limpas que acolhiam e devolviam ainda maiores as alegrias de toda a gente.

Continuaremos na próxima. O tema é bom.

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