Entrevista

Conversa da Semana com Fabiano Maximino

A pandemia da Covid-19 tem se constituído em grande desafio para a humanidade. A facilidade com que o novo coronavírus – causador da doença – causa a contaminação fez com que a rotina das pessoas, em todo o mundo fosse alterado. Uma maneira eficaz para evitar a proliferação é o isolamento social. A outra é apropriação de informações que contribuam para a adoção de medidas preventivas. Nesse sentido, o Portal do RN traz, neste sábado, uma Conversa da Semana com o médico infectologista Fernando Rodrigues Maximino. Graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Teresópolis, ele fez Residência Médica em Infectologia pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista. Fernando Maximino é docente da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e compõem o quadro efetivo do Hospital Regional Tarcísio Maia (HRTM). Nessa entrevista, ele aborda vários aspectos relacionados à pandemia da Covid-19. Confira:

Por Márcio Alexandre

PORTAL DO RN – De maneira geral, como o senhor classificaria o nível de  contaminação pelo novo coronavírus?

FABIANO MAXIMINO – A contaminação pelo coronavírus é muito facilitada. Eu consideraria que as pessoas precisariam ter um nível de atenção muito grande com o nível de contaminação porque ele é capaz de contaminar as mobílias, os objetos que a gente utiliza dia a dia, as superfícies e ainda é capaz de permanecer nessa superfície por muito tempo. Além do potencial mais importante ainda de ser passado de pessoa para pessoa num simples bate-papo se a pessoa estiver a menos de 1,5 metro de distância. E obviamente muito mais ainda pelo fato de tossir, espirar ou falar num tom mais alto.

Assim se faz necessário que as pessoas façam de suas casas um local seguro sem criadouros para o mosquito. 

PRN – A pandemia do coronavírus pode levar às pessoas a esquecer cuidados com a contaminação por doenças comuns nesse período, como dengue e chikungunya. Como fazer para evitar esse cenário?

FM – Estamos vivendo uma circunstância em que estão ocorrendo várias epidemias ao mesmo tempo, entre elas as de dengue e de chicungunya. Com o aumento das chuvas há a possibilidade de represamento das águas e de contaminação das pessoas a partir da picada do Aedes aegypti e aí a transmissão se faz de maneira sustentada pra dengue e chicungunya num cenário de pandemia para o coronavírus. Assim se faz necessário que as pessoas façam de suas casas um local seguro sem criadouros para o mosquito.

PRN – Quais condições sanitárias e climáticas podem favorecer essa contaminação?

FM – As condições sanitárias que favoreceriam a maior contaminação seriam as de aglomeração. Então locais que favoreçam a aglomeração de pessoas e a proximidade entre elas poderiam sim trazer essas circunstâncias de contaminação de maneira mais facilitada. Quanto às condições climáticas, observava-se e pensava-se que aqui por ser uma região muito mais quente, haveria uma diminuição e o vírus se comportaria de uma maneira diferente numa região mais quente. Mas a gente tem visto outros países também quentes e aqui vem sendo assim, mesmo em localidades mais quentes a transmissão é bastante sustentada. Vide o exemplo aqui dos irmãos do Ceará, Pernambuco e mesmo do Amazonas.

PRN – E como as condições sociais podem influenciar?

FM – Da questão social, infelizmente é muio mais fácil quando a pessoa tem uma condição social mais difícil ocorrer a transmissão porque a gente sabe que existem famílias que moram numa casa onde existem dois cômodos e um dos cômodos dormem 5, 6 pessoas. Isso obviamente facilita bastante a contaminação de um para o outro.

O principais risco de uma subnotificação seriam o não adequado manejo dos pacientes positivos na fase de contaminação de outras pessoas, na fase de transmissão maior do vírus.

PRN – Do ponto de vista da infectologia, quais os principais riscos e problemas da subnotificação?

FM – O principais risco de uma subnotificação seriam o não adequado manejo dos pacientes positivos na fase de contaminação de outras pessoas, na fase de transmissão maior do vírus. A despeito do que ocorreu em países onde havia um quantitativo de testes apreciáveis e esses países poderiam testar as pessoas e se houvesse positividade desses testes elas poderiam ficar isoladas em casa. Isso contribuía decisivamente para dar chance a que o sistema de saúde absorvesse os doentes mais graves. Quando a gente não tem a disponibilidade maior destes testes, acaba que o vírus de maneira mais sustentada se transmite e aí a gente pode ter uma circunstância, se houver um afrouxamento das medidas de isolamento de maneira libertária, sem nenhum controle, se houver um afrouxamento totalitário desas medidas de isolamento, a possibilidade é que ocorra uma dificuldade do sistema de saúde em absorver os doentes.

PRN – Sob o aspecto da contaminação, porque o coronavírus atinge e/ou avança seus efeitos de maneira mais rápida e violenta em determinados grupos de pessoas, como cardiopatas, por exemplo?

FM – O vírus ataca algumas pessoas de algumas circunstâncias clínicas como o cardiopatas, diabéticos, obesos, pessoas que tem algum grau de imunossupressão porque ele se vale de mecanismos intracelulares em que uma imensa maioria desses pacientes tem uma dificuldade de processar uma resposta imune adequada e rápida, e aí essa circunstância pode, nesses pacientes, se tornar bem mais grave.

PRN – Muito tem se falado sobre o pico da epidemia e, no caso do Brasil, ainda não se tem muito claro se isso aconteceu ou quando acontecerá. O que o senhor pensa a esse respeito?

FM – Como o Brasil é um país continental, muito provavelmente ele não se comportará de maneira uniforme, visto que a epidemia pode ter ocorrido de maneira também pouco uniforme em cada Estado, então as circunstâncias são de observação. Fica difícil traçar um método matemático para dizer quando será. O que se sabe é que a gente tem um limite do sistema de saúde público e privado, e dentro dessas circunstâncias de limite desses sistemas é importantíssimo que haja um retorno gradual da atividade econômica para que a gente possa resolver de uma maneira sustentada esse problema. Acredito eu que daqui a alguns meses.

Cabe, então, a partir do aprendizado com essa pandemia, que os próximos governos, municipal, estadual federal, possam ver a saúde de maneira diferente, de maneira mais ampla.

PRN – A estrutura médico-hospitalar pública, no Brasil, notadamente, não estava preparado para uma pandemia como essas. Os governos sempre negligenciam na questão da prevenção ou nunca será possível se antever a problemas dessa magnitude?

FM – A gente sabe que estrutura hospitalar brasileira é uma estrutura construída há muitos anos já e obviamente que com o crescimento populacional deveria ter crescido na mesma proporção locais para que pudessem ser abarcadas todas as necessidades dessa população. E esse crescimento talvez não tenha se dado na mesma velocidade do crescimento da população. Cabe, então, a partir do aprendizado com essa pandemia, que os próximos governos, municipal, estadual federal, possam ver a saúde de maneira diferente, de maneira mais ampla, e de uma maneira para o futuro pra que possamos sair dessa circunstância difícil aprendendo algo e melhorando a assistência de saúde para as populações futuras.

PRN – Aliás, a pouca presença de médicos infectologistas na rede pública de saúde pode sinalizar para essa pouca preocupação com a profilaxia?

FM – Não diria que há pouca presença de infectologistas na rede pública de saúde. Pelo contrário, a grande maioria dos infectologistas trabalha na rede pública. A profilaxia das doenças infectocontagiosas passa muio pelo poder público. O papel do infectologista nesse contexto é de dar um caminho correto no sentido das doenças que possam ser prevenidas e colocar as circunstâncias para preveni-las. Esse ato de prevenção ele passa por educação da população, por estruturação do serviço público de saúde, por melhores salários que possam atrair os médicos para o interior. O que a gente ver é uma grande fixação dos médicos nas regiões litorâneas e nas capitais, justamente porque não há atrativos para que esses médicos fixem-se no interior.

PRN – Por que o serviço público tem tão poucos infectologistas?  

FM – A gente sabe que a escolha da especialidade médica é algo muito amplo, ela vai desde a vontade daquele médico que terminou a sua graduação em se aperfeiçoar em uma área até as condições que o poder público e o poder privado dão para o desempenho dessas funções. Caberia então, se o poder público quisesse aumentar uma ou outra especialidade, dar condições de trabalho para que esses profissionais possam atuar e melhorar obviamente a remuneração de profissionais de determinadas áreas, de determinadas especialidades as quais possam ser julgadas como de maior importância para a ´população, não só infectologia, mas diversas outras especialidades que desempenham papel fundamental dentro de um contexto de cidades maiores, cidades maiores que 100 mil habitantes, cidades maiores que 50 mil habitantes, já passam a ter a necessidade de médicos especialistas. Então, talvez criando um sistema de especialidades médicas bem estruturado, bem remunerado, com carreira médica estruturada, a gente conseguiria fixar esses especialistas no interior  porque a imensa maioria deles hoje está ou nas capitais ou nas áreas litorâneas.

Concordo que essa pandemia certamente alterará algo no psicológico das pessoas.

PRN – Do ponto de vista do efeito social, psicológico e até mesmo de risco de contaminação, mesmo quando essa pandemia passar, as pessoas precisarão mudar alguns hábitos e costumes?

FM – Concordo que essa pandemia certamente alterará algo no psicológico das pessoas. Vai ser necessário um grande trabalho dos profissionais da Psicologia, dos profissionais da Psiquiatria com um grande número de pessoas. A gente ver que existe uma tensão muito grande, a gente ver que existe uma alteração importante na maneira como as pessoas veem o problema. Então vai ser um trabalho bastante importante tanto no transcurso da pandemia como no pós-pandemia para que a gente possa reverter e aprender com esses problemas. Quanto à modificação dos hábitos, acho isso muito difícil, porque isso tange muito à educação do povo, à maneira como o povo é, e o povo brasileiro é um povo caloroso, um povo que adora estar junto, adora abraçar, adora beijar, adora compartilhar as coisas e isso é cultural em nós brasileiros. Acredito que a gente precise melhorar a ciência para que ela possa nos ajudar a manter o nosso modus operante de vida.

 

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