Entrevista

Conversa da Semana com Ciro Bezerra

A pacata cidade de Itaú, no Alto Oeste potiguar, vivia a sua tranquila rotina até o início do mês de maio, apesar de a pandemia da Covid-19 já assolar grande parte dos municípios potiguares. Até que num dia, de 30 pessoas nada menos que 11 testaram positivo. Para barrar a proliferação da doença, foi necessário, de imediato, tomar uma atitude enérgica. O prefeito da cidade, Ciro Bezerra (DEM) não titubeou e no dia 12 de maio decretou bloqueio total na cidade. Nesta Conversa da Semana, Ciro Bezerra conta como foi a decisão de estabelecer o lockdown, revela qual foi o impacto na vida e na economia do município, além de discorrer sobre a crise da Covid-19 como um todo. Bezerra fala ainda sobre eleições, políticas e gestão. Empresário e bacharel em ciências Contábeis pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN ), Ciro Bezerra está em seu segundo mandato à frente da Prefeitura de Itaú.

Por Márcio Alexandre

PORTAL DO RN – Itaú foi uma das poucas cidades do RN – pioneira inclusive -, na decretação do lockdown. O que foi determinante para essa decisão?

CIRO BEZERRA – O município de Itaú, nos meses de março e abril, não tinha nenhum caso de Covid-19 e quando entramos no mês de maio surgiram os primeiros casos. Após uma testagem, em um único dia, de 30  pessoas, 11 testaram positivo e essas pessoas tiveram contatos com várias outras, gerando assim uma preocupação por parte da gestão. Tendo em vista que o nosso município é um município pequeno, usamos os mesmos estabelecimentos comuns, a tendência era de gerar uma grande contaminação. Então, o comitê gestor e eu nos reunimos e chegamos à conclusão que o lockdown era necessário para fazermos o bloqueio desses casos.

PRN – Quais foram as principais dificuldades ao se decretar o bloqueio total?

CB – A BR-405, umas das principais rodovias federais da região, corta o nosso município e isso dificultou o fechamento, uma vez que temos muitos acessos à cidade, contudo deixamos apenas um acesso por bairro com barreiras controlando assim a circulação de veículos e pessoas. Quanto ao comércio local, tivemos total apoio, inclusive da população.

Já estamos há mais de cem dias com a economia definhando, os casos aumentando, o número de mortes é alarmante, e apesar disso não há um fechamento total coordenado do país.

PRN – Apesar de Itaú ser um município de pequeno porte, o senhor foi muito elogiado pela decisão de adotar o lockdown. Você acha que municípios de maior porte e até o Estado deveriam ter recorrido logo à medida?

CB – Acredito que o Brasil perdeu o “time” do combate preventivo do novo coronavírus. Já estamos há mais de cem dias com a economia definhando, os casos aumentando, o número de mortes é alarmante, e apesar disso não há um fechamento total coordenado do país. Acredito que se tivéssemos fechado o país, ou seja, todos os Estados e municípios, por quinze ou vinte dias, teríamos interrompido o ciclo do vírus no Brasil. Enquanto uns municípios e Estados fecham e outros não, o ciclo nunca acabará enquanto o isolamento social não atingir 70% da população.

PRN – Quais os impactos do bloqueio total para a vida econômica e social da cidade?

CB – O decreto iniciou no dia 12 de maio e se estendeu até o dia 31 do mesmo mês, porém, a partir do dia 25 começamos a flexibilizar e reabrir o comércio que não são considerados essenciais. Fomos estratégicos quanto ao período, uma vez que os primeiros quinze dias de validade do decreto não há tanta circulação de dinheiro na cidade, pois no período na há pagamento de salários, não afetando assim a economia local.

PRN – Itaú fez sua parte, barrou o avanço da doença, mas nem todos os municípios do seu entorno fizeram seu dever de casa. Como lidar com essa situação?

CB – Sou a favor de termos uma ação coordenada a nível federal ou estadual para o fechamento simultâneo das cidades. Entendo que cada município tem particularidades e os gestores com suas equipes que são conhecedores da realidade local entenderam que não é o momento de realizar esse fechamento. Quanto ao município de Itaú, continuamos com as barreiras, agora controlando a entrada de veículos de cidades circunvizinhas, permitindo o acesso apenas para atividades essenciais.

PRN – De maneira geral, a pandemia da Covid-19 impactou negativamente a economia dos município. Como essa crise afetou as finanças municipais locais?

CB – O nosso município vive, praticamente, das transferências constitucionais, FPM e ICMS, e como a economia do nosso pais está em declínio, provocado pela pandemia, consequentemente esses repasses tem diminuindo, comprometendo o planejamento financeiro e fiscal do município. Muito embora estejamos recebendo uma compensação por parte da União, essa medida é insuficiente para sanar as perdas e para piorar, a própria atividade econômica do município tem desaquecido e provocando uma queda acentuada na arrecadação tributária do município, pondo em xeque ainda mais as finanças do município.

Estamos adotando é a restruturação dos serviços, diminuindo assim as despesas operacionais, que são as despesas que mantém a atividade administrativa e os serviços oferecidos à população.

PRN – O que foi feito para equilibrar as contas?

CB – A medida e estratégia que estamos adotando é a restruturação dos serviços, diminuindo assim as despesas operacionais, que são as despesas que mantém a atividade administrativa e os serviços oferecidos à população, sendo que estamos otimizando os serviços oferecidos à população para não perder qualidade e atender a demanda. Outra medida é a não oneração na folha de pessoal, não convocando novos concursados e não contratando serviços temporários, com isso estamos conseguindo reequilibrar as finanças do município.

PRN – Para o senhor, é possível se realizar eleições esse ano?

CB – Com os devidos cuidados, o povo brasileiro fazendo valer o distanciamento social, os entes federados sendo mais duros, nesse momento, com as medidas de isolamento para controlar a curva da contaminação, feito isso e com o coronavírus totalmente controlado no país, sim é possível.

A expectativa é a melhor possível, a nossa gestão é aprovada por mais de 85% da população.

PRN – Qual a sua expectativa em relação às eleições municipais caso eles venham a ocorrer?

CB – A expectativa é a melhor possível, a nossa gestão é aprovada por mais de 85% da população, os dados recentes apontam que o pré-candidato do DEM, que é o partido que sou filiado, tem a simpatia da população. Caso haja eleição esse ano, e tudo caminha para isso, a expectativa é de uma continuidade de uma gestão transformadora que sempre priorizou o bem comum.

PRN – O que o senhor acha da proposta de unificação das eleições, com prorrogação dos atuais mandatos?

CB – Acho que os congressistas devem repensar essa forma de eleição de dois em dois anos, o nosso país não suporta mais. Se não foi modificado nos últimos anos que seja nos próximos. A unificação é fundamental para diminuição dos gastos públicos.

O governo Fátima, sabemos da dificuldade que enfrenta com um Estado sucateado e totalmente quebrado, mas ela mesmo, com toda essa dificuldade, tem caminhado com projetos e promovido diálogos com todos os municípios.

PRN – Como gestor, gostara que o senhor fizesse análise das atuais gestões do presidente Bolsonaro e da governadora Fátima.

CB – Como gestor posso afirmar que o governo Bolsonaro, como era um bordão da sua campanha “mais Brasil menos Brasília”, fez um esforço para caminhar com esse projeto, porém, fomos apanhado de surpresa com essa pandemia, e isso dificultou o processo de redistribuição do bolo tributário, todavia, com essa pandemia, o governo federal tem assumido compromissos e cumprindo com todos os municípios, facilitando assim a difícil tarefa de gerenciar um município nesses tempos. Já o governo Fátima, sabemos da dificuldade que enfrenta com um Estado sucateado e totalmente quebrado, mas ela mesmo, com toda essa dificuldade, tem caminhado com projetos e promovido diálogos com todos os municípios e promovendo parcerias para superar as dificuldades do dia-a-dia.

PRN – Sua mensagem final.

CB – Em primeiro lugar quero agradecer a Deus e em segundo agradecer ao Portal do RN a oportunidade de falar um pouca da nossa gestão e do nosso município. A todos os leitores, deixo meu abraço e esperança que esse momento difícil que estamos passando vai ser superado e que servirá de aprendizado para todos nós, e que o mundo e as pessoas, sobretudo aquelas que de alguma forma foram afetadas pelo novo coronavírus, precisam da nossa solidariedade, do nosso afeto. Obrigado e vamos todos juntos nessa corrente de união com a certeza de que tudo passará.

 

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