Entrevista

Conversa da Semana com Genivan Vale

O ex-vereador Genivan Vale tem uma história política de forte identificação com o Partido Democrático Trabalhista (PDT). Apesar disso, deixou recentemente a sigla. Ele explica, nessa Conversa da Semana, os motivos que o levaram a sair do partido e o que o fez optar pelo Solidariedade. Bioquímico, Genivan analisa a situação da pandemia do coronavírus, e aponta porque a luta tem sido difícil em solo potiguar, e apresenta sugestões para melhorar o sistema de saúde, do Estado e da cidade. Um dos mais sensatos políticos de Mossoró, ele faz avaliação da atual legislatura da Câmara Municipal local, bem como da gestão da prefeita Rosalba Ciarlini.

Por Márcio Alexandre

PORTAL DO RN – Como profissional da área médica, qual tem sido sua avaliação sobre essa pandemia do coronavírus?

GENIVAN VALE – Como profissional da saúde vejo com bastante preocupação, pois estamos vendo mortes e, infelizmente,  teremos muito mais. Isto é lamentável e doloroso.  É preciso uma união de todos, independente de credos e cores partidárias. É triste vermos pessoas se digladiando em nome de populistas. Precisamos nos unir em torno dos que estão na linha de frente do combate ao COVID19, que são os guerreiros servidores da saúde, desde o ASG até o médico. Tenho vários amigos profissionais da saúde, que nos relataram o medo, pavor de terem que estar na linha de frente nos hospitais, em especial, nos públicos, onde somos sabedores da carência de infraestrutura adequada. Não poderia deixar de relatar a preocupação com a falta de leitos de UTI e de respiradores.  Temos um estádio de futebol igual aos dos países desenvolvidos. Qual a vantagem disso? Precisamos ter infraestrutura hospitalar igual aos países do primeiro mundo. Isto sim, é importante. Não podemos mais aceitar essa separação entre uma elite do serviço público (Judiciário e Legislativo) e a grande massa de brasileiros. Exemplifico: ministros, senadores e deputados federais tem planos de saúde pagos pelos cidadãos brasileiros e quando precisam de atendimentos, vão para os grandes e melhores hospitais privados, enquanto isso a grande maioria dos brasileiros vai  sofrer nos hospitais públicos. Recentemente, vimos o primeiro ministro inglês Boris Johnson sendo internado para se tratar da Covid-19 no hospital Saint Thomas.  Este é um hospital público, e estamos falando do primeiro ministro da 7ª economia mundial.  É preciso acabarmos com esses privilégios aqui. Precisamos exigir que a cúpula dos três poderes usem os serviços públicos.  Com isto, diminuiremos gastos numa ponta, e ao mesmo tempo, sobrará mais recursos para investimentos na saúde pública.  Além disso, ao passar a usar os serviços que o povo usa, os políticos, em especial, com certeza, passarão a cobrar melhores serviços e infraestrutura na saúde.

PRN – E as ações da prefeitura e do Governo do Estado, a seu ver, estão sendo as mais acertadas?

GV – Acredito que é preciso uma reflexão sobre os investimentos no combate à Covid-19.  O que estamos sabendo é que irão usar o Arena da Dunas, feito com milhões de reais dos norte-riograndenses, para fazer o hospital de campanha. Podemos achar que a rapidez exige tal medida, porém não podemos deixar de alertar, que após o fim da pandemia, esse  hospital será desmontado e não mais servirá à sociedade. Então assistiremos mais recursos sendo gastos e, igualmente, ao estádio de futebol, não sendo útil à grande massa dos potiguares. Temos leitos de UTI´s vagos e até fechados.  Pessoalmente, via twitter, pedimos à governadora Fátima Bezerra para repensar esses investimentos no hospital de campanha.  Torço que a nossa governadora reabra hospitais fechados e acelere reformas em hospitais que estão com obras paradas ou precisando de reformas e ampliações. Estas obras ficarão para servir à sociedade na pós-pandemia, diferentemente, do hospital de campanha.

É inadmissível que uma cidade do porte de Mossoró, com 3 cursos de Medicina, não tenha um hospital escola, um hospital municipal.

PRN – E em relação a Mossoró?

GV – Com relação a Mossoró, mais uma vez dependemos muito do velho e bom hospital Tarcísio Maia. Pagaremos o preço de preferirmos oba oba, festas e etc, a um hospital municipal. É inadmissível que uma cidade do porte de Mossoró, com 3 cursos de Medicina, não tenha um hospital escola, um hospital municipal. Temos 3 UPAS e nos vangloriamos delas.  São importantes, mas a resolutividade é baixa, portanto, precisamos levar o tema de um hospital escola, de um hospital municipal para as ruas. Precisamos mostrar à sociedade a importância destes equipamentos para todos nós. O hospital escola deve ser uma luta da bancada estadual e  federal. Já o hospital municipal é uma luta local, em especial, da Câmara Municipal, mas especialmente, de todos nós mossoroenses.

Torço que a prefeita Rosalba use todos os recursos do Mossoró Cidade Junina no combate ao coronavirus.

PRN – As ações de isolamento social, a seu ver em surtido efeito?

GV – Com relação as demais ações, acredito que é preciso mais fiscalização para evitar aglomerações, pois como não temos vacinas para a Covid-19, o melhor a fazer é o isolamento social e, infelizmente, temos visto muita gente achando que está de férias. Vemos em condomínios de praias nas classes mais abastadas, pessoas se aglomerando em piscinas.  Nas classes populares, assistimos aglomerações em bares, mercadinhos e calcadas. Nos supermercados também precisamos de mais ações de fiscalização. É preciso a prefeitura colocar a Guarda Municipal e outros servidores para tentar evitar tais situações. Torço que a prefeita Rosalba use todos os recursos do Mossoró Cidade Junina  no  combate  ao  coronavirus. Tenho visto muitas reclamações de falta de EPI´s para os servidores das UPA´s, porém a nossa maior preocupação é com o baixo numero de testagem na população. O Estado repassa pouquíssimos testes para fazer a testagem na população. Com isso há um funil muito apertado para se passar, e poder ter acesso ao teste. Isso é grave, pois teremos muitos casos que o poder público não irá detectar, e por conseguinte, não irá notificar, portanto teremos muita subnotificação.  Isto é péssimo para as ações governamentais, já que os dados não são seguros para as tomadas de decisões. Não é demais, lembrar que os pacientes  positivos, porém não notificados e não atendidos nos hospitais e UPAS irão ser vetores de contaminação para muitos outros cidadãos, e isso é preocupante. Não podemos deixar de frisar, que assim como a dengue e a zika, na Covid-19 as ações individuais são mais importantes que as ações governamentais. Precisamos deixar de querer que o agente público, seja ele federal, estadual e municipal, resolvam nossos problemas, quando eles dependem mais de nós que daqueles.

PRN – Você também é empresário. Qual a sua avaliação sobre esse debate vida x economia?

GV – Acredito muito na politica de desenvolvimento nacional, com forte apoio as compras governamentais à indústria nacional, como meio de garantir a soberania nacional. Para nós, isto ficou mais claro nesta  pandemia da Covid-19, que escancarou a dependência de itens tais como EPI´s e respiradores, da indústria estrangeira, principalmente, da indústria chinesa.  Não poderíamos esquecer o professor Darci Ribeiro e sua luta pela mais importante e urgente revolução, que é a educacional.  Precisamos colocar sentando nos mesmos bancos escolares  o filho do gari e o filho do médico, o filho do pedreiro e o filho do engenheiro. A revolução na educação deve ser uma politica de Estado, no caso especifico, na União. Não podemos deixar a escola básica à mercê de populistas e irresponsáveis pelos rincões do interior do Brasil.

O pleito local de 2020, e a forma como o PDT a nível estadual está sendo conduzida nos levaram a sair.

PRN – Você tem uma forte identificação com o PDT, mas acabou de deixar o partido. Quais as razões dessa saída?

GV – As duas causas que citei anteriormente nos atraíam e nos seguravam no PDT, porém o pleito local de 2020, e a forma como o PDT a nível estadual está sendo conduzida nos levaram a sair.

PRN – E porque o Solidariedade?

GV – O convite do deputado Alysson Bezerra, do amigo e ex-vereador Jadson e do presidente estadual do Solidariedade Lawrence Amorim,  nos fizeram abraçar o Solidariedade. Estou sentindo o sangue correr novamente nas veias.  Isso é bom.  Significa que voltamos acreditar em um grupo político, em uma causa. Esta é a explicação pela opção recente. Temos visto e acompanhado a forma do Solidariedade atuar, com a preocupação de formar novos líderes, através da sua Escola de Líderes. Empolga-nos ver a atuação do deputado Kelps Lima, de sua luta para a modernização da gestão pública. Tudo isso, somado a uma conversa, com nosso colega e amigo ex-vereador Tomaz Neto, foram um somatório para aceitarmos participar desse momento de coalizão de forças no Solidariedade.

PRN – A mudança de partido é um processo que vai culminar numa candidatura a vereador ou até mesmo a prefeito?

GV – Entendemos que já demos nossa contribuição ao parlamento municipal.  Podíamos ter feito mais, porém não nos arrependemos de nada.  Mesmo não tendo tido êxito no último pleito, agradecemos imensamente a todos que confiaram em nosso nome, e a todos que nos encontram pelas ruas de nossa Mossoró e usam palavras de estímulos. Que dizem que estamos fazendo falta na Câmara. Isto é gratificante.  Por estes,  faríamos tudo novamente, se preciso fosse.  Com relação à candidatura a prefeito, não falta incentivo do partido e vejo o mesmo interesse de pré-candidatos a vereadores e militantes, para que o deputado Allyson seja um nome à disputa. Nós que estamos chegando agora observamos seu vigor, vocação e intenso trabalho. Acho que é um nome capaz de polarizar e surpreender nas urnas. Mas claro que essa é uma decisão a ser tratada adiante, também ouvindo outros partidos, conversando com outras referências da oposição e alargando o diálogo para a sociedade.  O deputado Alysson Bezerra é uma pessoa que veio de baixo, nascido na zona rural, Sítio Chafariz, filho de agricultor e de uma dona de casa. Vence e está vencendo pela obstinação, pelo estudo, pela educação, sempre estudando em escola pública.  Capacitou-se, formando-se em Engenharia Civil, tornou-se mestre em Solo e Água na Ufersa, ainda com passagem pelo Instituto Federal (IFRN) e transformou-se em servidor público federal da própria Ufersa através de concurso. Não é um aventureiro nem despreparado. Tem agregado em torno de si muitos segmentos e nomes valorosos de vários setores da atividade humana em Mossoró. Qualifica o próprio partido com inteligência e pessoas novas e experimentadas, que podem oferecer muito à gestão pública, sem repetir erros comuns às forças tradicionais.

PRN – Essa sua apresentação do deputado Alyson é uma prévia de uma disputa próxima pela prefeitura de Mossoró?

GV – Olha, a eleição municipal de 2020 será estimulante, pois teremos um pleito que colocará a médica, maior eleitora de Mossoró, esposa do maior ás politico vivo e atuante do Rio Grande do Norte, Carlos Augusto Rosado, representante da mais importante família politica da cidade de Mossoró, e que está no poder desde a primeira metade do século passado, Rosalba Ciarlini Rosado, contra alguém vindo da zona rural, simples, que venceu todos os obstáculos impostos pela vida, que todos nós, oriundos das periferias e zona rural, sabemos como são grandes e difíceis de serem transpostos. Por tudo isso, estamos estimulados e confiantes que assim como Flávio Dino derrotou os poderosos Sarney no Maranhão, e um servidor público (um gari) derrotou o poderoso deputado Nelter Queiroz em Jucurutu, o jovem Alysson Bezerra possa conseguir êxito no pleito de 2020 em Mossoró, mudando a chave, escrevendo outra história. Eu vejo assim.

O que mais nos incomodava, e percebo que continua da mesma forma, é o servilismo daquela Casa ao Palácio da Resistência.

PRN – Como você analisa a atual legislatura da Câmara Municipal de Mossoró?

GV – Como sempre dizemos: o retrato mais perfeito da sociedade, é a classe política.  Portanto, mesmo que muitos não aceitem, façam cara feia, biquinho, nossa Câmara Municipal é nosso mais fidedigno retrato. Somos aquilo lá, coletivamente. Entendemos que ano a ano, temos visto um declínio no nível dos debates. Porém precisamos continuar a acreditar na democracia, na escolha popular, pois como dizia Winston Churchill, a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais.  O que mais nos incomodava, e percebo que continua da mesma forma, é o servilismo daquela Casa ao Palácio da Resistência.  É desrespeitoso como passam por cima do regimento interno para satisfazer o chefe do Executivo.  Não me refiro a atual legislatura somente. Desde que acompanho os trabalhos daquela Casa, assisto cenas tristes para agradar ou atender ao Palácio da Resistência.  Foi assim, quando estivemos lá.  Era assim antes, e continua. Espero que isso mude. Que não ocorra chantagens por parte do Legislativo (bancada governista) , e que a oposição não faça oposição por oposição,  e que não haja rolo compressor por parte do Executivo.

O Carlismo/Rosalbismo é extremamente centralizador, isto dificulta, sobremaneira, a gestão da prefeita Rosalba Ciarlini Rosado.

PRN – E a atual gestão da prefeita Rosalba Ciarlini?

GV – A gestão atual consegue ser um pouco, mais muito pouco, melhor que a anterior de Francisco José Júnior. E olhe que tem grandes quadros nas secretarias. Temos bons e competentes secretários, porém com pastas e cofres esvaziados. Não conseguem colocar suas ideias em prática. O Carlismo/Rosalbismo é extremamente centralizador, isto dificulta, sobremaneira, a gestão da prefeita Rosalba Ciarlini Rosado. Estamos assistindo uma gestão sem capacidade de limpar a cidade. Sem condições de tapar os milhares de buracos das vias urbanas. Sem conseguir atender condignamente aos moradores da zona rural. Enfim, fica para nós mossoroenses a impressão que a prefeita somente sabe administrar com muito dinheiro, como era na época dos milhões e milhões dos royalties, ou que a mesma perdeu o gosto por administrar. Não é mais aquela jovem médica que em gestões anteriores avançou bastante na área de saúde e infraestrutura. Está muito aquém do que prometeu na campanha. Esperamos que consiga entregar mais aos mossoroenses.

PRN – Sua mensagem final aos nossos leitores.

GV – Como mensagem final, queríamos agradecer a gentileza de todos que fazem o Portal do RN por nos permitir entrar em contato com seus milhares de leitores, em especial , a você Márcio Alexandre, pela gentileza de sempre. Esperamos que após essa pandemia, possamos sair maiores e melhores. Sou otimista. Um abraço carinhoso a todos os mossoroenses. Fiquem em paz e, principalmente, COM MUITA SAÚDE. VAMOS JUNTOS VENCER ESSE VÍRUS. CUIDEM-SE POR VOCÊS, POR MIM, POR TODOS NÓS.

 

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