Nos anos 1960 a Vila do Tibau integrava o município de Grossos. Oficialmente, sua população era de nativos, a maioria pescadores e suas famílias, mas, na prática, essa população incluía famílias mossoroenses que tinham lá suas casas, ocupadas nos fins de semana e em temporadas em boa parte do ano. A densidade populacional era pequena, as casas tinham generosos quintais e espaços para os lados e à frente. A maioria das famílias vivia no trecho entre a Praia das Manoelas e a Pedra do Chapéu.
Grandes extensões de morros de areia amarelo-avermelhada dominavam a paisagem completada por coqueiros. À direita de quem chega, vindo de Mossoró, esses morros se elevavam em forma de grandes ondulações de areia solta, alisada pelo vento, ou de paredões pouco densos, de modo que, aos poucos, chuva e vento iam transformando suas paredes em mais areia. Ao se aproximarem da praia os morros alternavam-se em areias de cores diversas, o que distinguiu e ajudou a propagar Tibau regionalmente e mesmo nacionalmente. Até onde sabemos essas areias nunca foram estudadas para se conhecer o que conteriam e que lhe conferia essas características.
Não havia energia elétrica, ruas calçadas. Pequenas mercearias ou bodegas e uma única padaria supriam o básico, as primeiras necessidades. As famílias mossoroenses se abasteciam na cidade e já chegavam à praia com o que necessitavam em suas despensas, conforme o tempo de permanência planejado. Se esse período era mais longo, voltavam a recorrer ao comércio de Mossoró. Nesse momento, ajudava o único telefone da vila, na casa de Dona Josefina, utilizado mediante pagamento de pequena taxa.
Do comércio local, alguns se distinguiam. Na rua principal a mercearia de Seu Luiz Basílio era uma referência. As peixadas de Dona Belisa e do Chorão destoavam do que se concebe como um comércio formal, pois eram servidas na própria residência. Luiz Basílio, filhos e irmãos, eram proprietários de barcos de pesca. E quando esses barcos, saído para o mar pela madrugada, chegavam à praia no meio da tarde, ali mesmo parte do peixe era separada e direcionada a fregueses fiéis.
Na noite silenciosa pontuada por murmúrios distantes de ondas, lampiões, candeeiros e lamparinas submetem-se pacificamente à luz da lua sobre o mar e sobre a areia da praia. Da janela lateral da sala de uma casa, em parte alta a quinhentos metros do mar, lembram-se os versos da canção que se ouvia, na voz do português/brasileiro Francisco José: “sei lá quantas vezes matei o desejo e fico lá fora com a alma a sangrar. Levando na ideia os lábios que invejo e aquela janela virada pro mar”.
