Crônica

PRAÇA 15 DE NOVEMBRO

O rebuliço, o transitar tumultuado de veículos, de bicicleta a caminhão, aos poucos submetem a memória da tranquilidade de um cenário antigo, anterior à existência do centro comercial da Cobal. Poucos transeuntes, relativo silêncio, aqui e acolá interrompido por pregões de vendedores de frutas, tapiocas, cocadas.

Ou pelo som da rabeca de Pedro, que nesse dia é Pedro da Rabeca e no outro é Pedro das Vassouras, quando passa vendendo varas, por ele extraídas da caatinga e dele recebido o acabamento para servir de cabo às indefectíveis vassouras de palha de carnaúba das casas mossoroenses.

Encontro entre o centro e o bairro Paredões. Caminho para outros bairros, norte e oeste da cidade. Território dos grandes circos. Endereço de antigas famílias. Piso de areia de vespertinas peladas. A praça 15 de Novembro na verdade não era uma praça, em sentido estrito, mas um largo, com um agrupamento mais denso de casas no limite oeste, sítios e umas poucas residências a leste, guarnecendo o rio, e irradiando-se nas diversas direções pelas ruas e avenidas Mario Negócio, Dix-sept Rosado, Trinta de Setembro, Almeida Castro, Mal. Deodoro, Mal. Floriano, Pedro II e 13 de Maio.

Os circos famosos (Garcia, Nerino, Tihany) emprestavam um ar alegre às suas noites desde as fachadas iluminadas e coloridas, enquanto, limitado pela lona, seus espaços submetiam-se a uma mutação que antecedia e anunciava o deslumbre dos trapezistas, mágicos, bailarinas e até as emoções de um teatro ao mesmo tempo popular e reflexivo. Na ausência dos circos as noites eram quase bucólicas, pontilhadas pelas luzes das residências e pelas 3 lâmpadas sinalizadoras vermelhas da torre da Rádio Tapuyo, ao fundo.

Hoje, o local também encaminha ao lado leste da cidade, após a abertura da av. Leste/Oeste, o que não ocorria na época. Já não se distinguem também suas antigas construções. Como a casa de sobrado no limite da av. Dix-sept Rosado, estilo arquitetônico não bem definido, mas de ar clássico, toda branca e com um certo charme, especialmente sob as luzes à noite.

Ou como, no outro extremo, dividindo as ruas que homenageiam os dois primeiros presidentes republicanos, outro sobrado, estilo mais simples, mas bem marcante em sua geometria proporcionada pelo traçado das ruas que iam suavemente estreitando a área do prédio em sentido póstero-anterior, o que lhe rendia o apelido de “ferro de engomar” e o tornava referência para quem demandava àquelas paragens. Agora, quando a noite silencia os ruídos do comércio frenético, prestando-se atenção, talvez se possa ainda imaginar um rufar de tambores e uma voz a exclamar com eloquência: “Senhoras e Senhores!!! Respeitável público!!!”

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