Oração às novas imortais Maria Freire e Izaíra Thalita

SYMARA TÂMARA – Cadeira 03

1ª oradora da AFLAM


Boa tarde, à presidente da AFLAM Drª Taniamá Barreto, em nome de quem saúdo as demais autoridades e as demais confreiras.

Boa tarde a todos e todas presentes nesta sala de reuniões on line.

Quando me foi atribuída a missão de orar em homenagem às nossas novas imortais, atividade que, além da incumbência formal do cargo que me fora confiado, no âmago das minhas emoções a mim muito me honra, uma vez que vejo com muita nobreza poder falar de mulheres que, para mim, são referência; me pus então a refletir sobre o conceito de imortalidade.

Mas vejam, em todas as eras da humanidade, este foi um questionamento que, a partir do aperfeiçoamento da capacidade de raciocínio da espécie Homo sapiens sapiens, mais tem povoado o imaginário coletivo das civilizações. Muito se tem buscado acepções para o referido fenômeno, quer pelo ponto de vista da razão, quer pelo da espiritualidade.

E transferida nos foi pela nossa ancestralidade a ideia de que esta não nos é a única existência dada, mais ainda, a forma pela qual passamos por esta, independente de quantas ainda tivermos, não convém discussões sobre esta ou aquela doutrina mais correta com relação ao conceito em questão, nos foi dado o livre arbítrio de decidir se passamos pela existência como poeira ao vento ou rastro de estrela, que propaga seu brilho além da vida e da morte.

A bem da verdade, as civilizações ocidentais adotaram a ideia de que uma de suas manifestações mais contundentes para a transferência de saberes é a cultura. As artes, de maneira geral, são a materialização da subjetividade humana, produto final para a construção de todos os saberes. Assim nos chega este conceito em plena pós-modernidade, e enquanto mulheres, que conforme o poeta francês Sully Prudhomme, temos um coração que é todo poesia, nossos cromossomos, além de nosso código genético, vieram, um a um, prenhes da capacidade de perpetuar, com a sensibilidade que nos é peculiar, a cultura, a arte, a metáfora viva da nossa existência, que traz seu verdadeiro sentido naquilo que sentimos e fazemos sentir, sejam sentimentos, sejam sensações.

Para sistematizar e tornar assim acessível nossa gama de fazeres artístico-científico-intelectuais, unimo-nos, institucionalizamo-nos e intitulamo-nos Academia Feminina de Letras e Artes Mossoroense – AFLAM, agregando valores femininos, dando voz e espaço para que mulheres que fazem jus às habilidades de que são detentoras e em respeito e com o propósito de perpetuação dos valores e significados artísticos de outras tantas mulheres que assinaram seus nomes no livro da história desta cidade, deste estado, deste país, como figuras humanas que acreditam na evolução da espécie humana, que muito além das teorias científico-evolucionistas, mostram-nos que a evolução começa pelas ideias, pela cultura.

A AFLAM, em seus treze anos treze anos de existência, apresenta neste momento duas de suas confreiras, que trazem todos os atributos supracitados, acima de tudo, trazem em suas respectivas bagagens a força e a resistência da mulher nordestina, que desabrocha altiva como flor de planta xerófita. Temos Maria Freire, no alto de sua maturidade artística e humana, que com as cores de sua arte pincela nossa academia, trazendo cor à nossa egrégora artística. Temos ainda Izaíra Thalita, escritora, jornalista, que há muito dedica sua vida à escrita da crônica informativa, o que a tem levando a outras searas do conhecimento, como o exercício da docência, formando novos jornalistas e profissionais da informação. Ambas, de tão diferentes, trazem algo de simultâneo: o amor e a vontade de mudar o mundo: uma com as cores do respeito, do exercício da fé, da igualdade entre os que, aos olhos de Deus e da Carta Magna brasileira, já são, de fato, iguais; a outra, com a fidedignidade da informação correta e formativa, aliado também à escrita literária, através da qual manifesta sua subjetividade, sua forma de ver o mundo.

No início eu falava sobre imortalidade, e pelas cláusulas do estatuto que rege esta instituição, que segue os moldes da academia francesa, transfigurando da nossa memória afetiva e ressignificando para a atual realidade mulheres que marcaram nossa cultura, nossa história, que tornamos a nossa própria obra como imortal. Podemos então entender que imortalidade seja manter viva a memória dessas mulheres, assim como tornar aquilo que produzimos, ao longo da nossa momentânea existência neste plano, o rastro de estrela, embora da inevitável desfazenda, quando do chamado de Deus, para outras esferas além-vida terrena, a materialização da nossa intelectualidade, seja de forma científica ou artística, é também a personificação e perpetuação da nossa essência.

A música que cantamos ou compomos, a poesia que escrevemos, os personagens que interpretamos, as artes plásticas, as ciência e informações que produzimos são a tradução verbal e semiótica do que acreditamos ser o melhor que podemos deixar para este mundo – pois temos a consciência de que nossa verdadeira missão é passar pela existência como rastro de estrela, cujo brilho nos seguirá pela eternidade, porque enquanto detentoras de espírito que acredita na evolução da humanidade através da cultura, seguiremos trazendo à luz da verdadeira evolução as atuais e próximas gerações. O ser humano é, em síntese, tudo que deixa de mensagem para o mundo. Izaíra Thalita e Maria Freire são esta mensagem.


Symara Tâmara – Artista potiguar nascida em Natal, mas sempre residente em Mossoró, que permeia pelos campos da música, da literatura, da educação e da pesquisa. Tem formação acadêmica e mestrado em Letras pela UERN, membro da AFLAM e ALAMP.
           Na literatura, É autora do livro de poemas O zênite da inspiração (2000), Antônio Francisco: tradição e modernidade – uma poética da memória (2015), e nesse momento está preparando três publicações, uma de poesia (Infinita tarde finda), e duas de pesquisa na área de literatura: Antônio Francisco vai à escola – um relato de experiência com a obra antoniana em sala de aula e Reflexões e fluxos sobre literatura, com previsão de lançamento ainda para 2021 através da lei Aldir Blanc do RN e do município de Mossoró.
          ­Na música, vem trabalhando desde 2001, cantando na noite e em bandas de rock e de baile de Mossoró, se destacando em projetos musicais dentro dos maiores eventos da cidade e do estado.
Notícias semelhantes
Comentários
Loading...
Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support