OPINIÃO

As Quatro Vozes de Uma Mulher

POR: TANIAMÁ BARRETO

Há dias em que acordo sendo muitas.

Antes mesmo que a manhã estenda sua claridade pelas frestas da janela, já me chamam por nomes diversos. Uns me procuram professora. Outros me querem pesquisadora. Há quem necessite da enfermeira. E, quando o mundo silencia por um instante, desperta também a poetisa. Por trás de todas, vive a mulher — centro e origem de cada uma dessas vozes.

A professora fala para abrir caminhos. Sua voz precisa alcançar os distraídos, encorajar os inseguros, provocar os acomodados. Ela conhece a força transformadora da palavra dita no tempo certo. Semeia perguntas e colhe futuros.

A pesquisadora fala com a disciplina da dúvida. Sua voz prefere o laboratório das ideias, a vigília dos livros, o rigor das evidências. Não se satisfaz com respostas fáceis. Busca causas, relações, sentidos ocultos. Enquanto muitos encerram o dia, ela ainda conversa com hipóteses e possibilidades.

A enfermeira, por sua vez, possui uma voz que se traduz em gesto. É a voz da escuta sensível, da mão firme, do olhar atento que identifica a dor antes do pedido de socorro. Conhece a anatomia do corpo, mas também os abismos da alma. Onde há sofrimento, ela se faz presença.

E então surge a poetisa.

Sua voz não obedece a relógios nem protocolos. Nasce quando a emoção transborda, quando a memória pede morada, quando a vida precisa ser traduzida em beleza. A poetisa recolhe lágrimas e as devolve em versos. Transforma cicatrizes em metáforas, saudades em música, esperanças em permanência. Quando todos falam de fatos, ela recorda os sentimentos.

A professora ensina o mundo.

A pesquisadora o investiga.

A enfermeira o cura.

A poetisa o humaniza.

E a mulher?

A mulher reúne todas essas marés dentro do mesmo peito.

É ela quem atravessa jornadas exaustivas, preconceitos persistentes, cobranças silenciosas e ainda encontra forças para florescer. É ela quem organiza agendas, consola dores, produz conhecimento e, apesar do cansaço, ainda escreve beleza nas margens do cotidiano.

Por vezes pensam que essas vozes competem entre si.

Engano.

São instrumentos diferentes de uma mesma orquestra. A professora oferece a palavra. A pesquisadora oferece a verdade possível. A enfermeira oferece o cuidado. A poetisa oferece a eternidade.

Ao final do dia, quando os títulos descansam sobre a cadeira e a casa mergulha em silêncio, ela se vê diante do espelho.

Sem crachá.

Sem jaleco.

Sem livros.

Sem aplausos.

Mas plena.

Porque algumas mulheres não acumulam funções.

Elas carregam universos, abrindo portas, inaugurando templos, com a chama eterna da palavra, da memória e da cultura.


Taniamá Vieira da Silva Barreto – Consultora em Políticas Públicas, Professora Titular e Professora Emérita da UERN, Doutora e Mestra em Enfermagem pela UFRJ, Especialista em Tecnologia Educacional na Área de Saúde pela UFRJ, Especialista em Administração Hospitalar pela FSCH. Escritora, Pesquisadora, Poetisa e Palestrante, integrando as seguintes insituições: AFLAM, ACJUS, ALAM, AMOL, SBEC, ICOP, ASCRIM, ALAMP e CONINTER.

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