Crônica

O BURACO DO TATU

Foi provavelmente em 1960 (um ano a mais ou a menos) que o cidadão Antonio Mota, aproveitando um terreno vazio de construções, na Av. Alberto Maranhão e comunicando-se com a Av. Rio Branco, próximo à Estação Ferroviária, levanta ali, à sombra de uma árvore alta, um barraco de madeira onde implantaria um pequeno comércio informal que de tão pequeno já seria exagero chamar de bodega. Durante algum tempo o barraco era único naquele local, mas aos poucos outras pessoas foram vendo a possibilidade de seguir o precursor Mota e foram ocupando o espaço, montando uma banca, um quiosque ou qualquer estrutura simples que podia ser erguida com alguma tábuas e pregos e muita disposição, no intuito de oferecer algum produto acessível a um mercado popular e sem grandes exigências.

O crescimento do aglomerado, improvisado e caótico, foi tão rápido quanto sua assimilação, por toda a cidade, como uma feira permanente de comidas prontas (café da manhã, almoço, merendas), verduras, carnes, peixes e uma variedade de artigos que podia ser um fogareiro de lata, uma coleira para cachorro, um armador de ferro para redes ou qualquer outro, por improvável que fosse.

O “Buraco do Tatu”, nome que Mota, aproveitando um sucesso de Luiz Gonzaga, muito tocado nos rádios de então, deu ao seu, por assim dizer, estabelecimento pioneiro, passa a identificar agora todo aquele peculiar e denso complexo comercial cuja expansão só era limitada pela linha do trem que vinha de Porto Franco.

Com o crescimento da cidade e a valorização comercial da área onde estava situado, aquele tipo de comércio passou a incomodar a administração municipal, pressionada por parte da opinião pública que o via como uma anomalia urbana incompatível com uma cidade que se desenvolve, e um risco sanitário indiscutível, que não deveriam continuar ali.

A assunto passou a ser tema de campanhas políticas e promessas de candidatos, mas a solução passava pelo problema social inerente a questões desse tipo até que uma saída foi encontrada com a remoção e suposta adequação daquele comércio em outras áreas. Parte das atividades migrou para um centro comercial, um pouco mais adiante, em direção norte, na Av. Rio Branco, planejado, em tese mais organizado e dotado de alguns equipamentos sanitários. Como se resolveram as negociações com todos os que lá trabalhavam é algo que não sabemos. O certo é que naquele lugar nada mais lembra, nem de longe, o famoso “Buraco do Tatu”.

 

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