Crônica

NOSSA BATALHA DE ITARARÉ

A Batalha de Itararé está inserida no folclore brasileiro como a famosa batalha que não houve. Embora se diga que no curso da chamada Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder, houve sim, várias batalhas na região entre São Paulo e Paraná e apenas o confronto final, sobre o qual havia grande expectativa, na referida Itararé, foi evitado por meio de negociações.

Em outro cenário e outras proporções, que não causariam o menor prurido à república, ocorreu em Mossoró episódio, verdadeira batalha, que pela falta de repercussão e registro é como não tivesse acontecido.

Em 1963, o clima esquentou além do limite habitual na disputa pelos cargos de diretoria no chamado Sindicato dos Salineiros. Após algumas eleições em que a diretoria era a mesma, apenas alternando os cargos, um grupo de oposição, antevendo possível nova derrota, resolveu romper com a ortodoxia da disputa, ocupou a sede do sindicato e impediu a entrada de diretores ainda em mandato. Com um detalhe: para a operação preparou-se com um pequeno, mas significativo arsenal.

Não se vai entrar no mérito da questão. Não é o caso nem há espaço para tal. Apenas se reporta o fato e o fato é que do outro lado, os ânimos não estavam menos agitados, nem faltavam, também, apetrechos de guerra. No meio da tarde ensolarada, Joel Martins do Nascimento, o Joel Paulista, principal líder da situação, discursava fazendo de palanque um banco largo existente na frente da bodega de Manoel Brito, na esquina da Venceslau Braz com Prudente de Morais, quando o primeiro tiro se ouviu, atingindo a parede do prédio, no ângulo entre as duas ruas, próximo a uma luminária.

O que se seguiu foram cenas de filme, gente se entrincheirando por todos os lados do prédio do sindicato, saltando de carro em movimento ao mesmo tempo que levava a mão ao coldre, estampidos cruzando o sítio em uma batalha surreal, porque não planejada com as devidas estratégias, a qual, se começara de modo confuso, mais confuso ainda era imaginar como terminaria. A Prudente de Morais, onde se situava o prédio do sindicato, entre a Venceslau Braz e Mal. Hermes, era uma rua de piso de areia. Muita areia e um bocado de pedras, que também serviram de munição.

Após quase uma hora, a refrega chega ao fim com resultados tão inusitados quanto o próprio fato em si. Apenas uma pessoa (do grupo da rua) ferida na perna e o completo apagamento do incidente na história mossoroense. Não se sabe se a própria polícia, que chegou bem depois, registrou a ocorrência. Uma nossa Itararé com uma particularidade: não é conhecida como batalha que não houve. Mas, desconhecida como se nunca tivesse havido.

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