NA CLARIDADE DO CINEMA

Antecedendo o escurinho do cinema, havia aquele passar de tempo, então vivido apenas como simples espera, da qual fazia parte uma leve ansiedade expressa em ocasionais olhares ao relógio. Entretanto, olhada agora, na perspectiva do tempo que às coisas do mundo sensível dá ou muda o sentido, tal espera pode ser percebida como parte de uma experiência emocional que se iniciava antes, no desejo de ir naquela noite ao cinema, e continuava na passagem pela bilheteria, na entrada na sala de exibição.

Sob luzes de tom ameno das sessões noturnas, pairava uma quase solenidade no ar. No falar baixo, na sobriedade da música de fundo, som de grandes orquestras, melodias conhecidas, entre as quais temas musicais de filmes clássicos, na solicitude do movimento para dar passagem a alguém que se dirigia a poltronas vizinhas, na quase empatia entre as pessoas ali.

Os olhos passeando com discrição pelo ambiente percebiam pessoas nunca vistas ou identificavam outras conhecidas, não necessariamente conhecidas no sentido da convivência e amizade, porém, fosse essa última hipótese o caso, experimentando uma alegria a mais, como que um bônus naquela noite de cinema. A curiosidade ou o preconceito iam avaliando o nível da beleza e elegância de uns e de outros enquanto vendedores circulavam com seus tabuleiros, suspensos à altura do abdome por faixas passadas atrás do pescoço, e com a pinça de uma das mãos seguravam caixas de chicletes e as agitavam ritmicamente à semelhança de maracas, modo de obter a atenção e o interesse do possível cliente.

A pipoca era item sempre disponível, mas não “obrigatório”, disputando a preferência em pé de igualdade com a variedade de balas, gomas de mascar drops. E era vendida em saquinhos, menos pantagruélicos e mais elegantes.

Quando, por fim, a tela se iluminava por traz da cortina que, então, começava a se abrir, o apagar das luzes, os sons de gongos ou de músicas características para cada casa de cinema abriam as projeções, começando pelos chamados jornais cinematográficos, (edição de fatos da semana) e trailers de filmes a serem exibidos nos próximos dias e semanas.

Nesse momento iniciava-se a imersão na fantasia do cinema. Para jovens casais, instante mágico na emoção em um simples tocar de rostos, maior na imaginação do que nos atos, brevidade destinada à eternização na memória. Para todos, entretanto, experiência individual e ao mesmo tempo compartilhada entre a plateia. O estado psicológico de todos os expectadores entrava em um novo módulo. Sem se aperceber que o que há pouco era espera também fazia parte dessa fantasia.

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