Crônica

FUTEBOL PELO RÁDIO

“Abrem-se as cortinas do espetáculo, torcida brasileira!” Assim, o locutor Fiori Gigliotti iniciava sua narração. Hoje a televisão mostra o lance, como se usa denominar na linguagem do esporte determinada sequência do jogo, e repete a imagem no ponto que quer destacar. A tecnologia permite ver a posição do jogador por uma nesga da manga da camisa. O próprio narrador ou locutor de futebol às vezes sequer está no estádio e, se está, e narrando pelo rádio, não dispensa o auxílio da imagem eletrônica para se certificar.

Mas, houve um tempo em que ele, o narrador, só dependia do seu “golpe de vista” para se convencer e tentar convencer o ouvinte sobre quem fez o gol, se estava impedido, se a bola ultrapassou alguma linha e assim por diante. E aqui entra o mais interessante do futebol pelo rádio. O torcedor não está vendo o jogo. Muitas vezes está a quilômetros de distância, mas vai se convencer ou não da conclusão do locutor, repórter ou comentarista, na dependência do que ela representa para o interesse de seu time.

Os campeonatos carioca e paulista, principalmente o primeiro, sempre emularam torcedores, Brasil afora. Em Mossoró era comum, nas tardes de domingo, que residências e outros locais fossem tomados desses aficionados para “ouvir o jogo”, pelo rádio, na voz de Waldir Amaral, Jorge Cury e, mais para trás, Antonio Cordeiro, Raul Longas e o polêmico Ari Barroso. Eram tempos de futebol descrito em expressões herdadas do inglês, como a própria modalidade esportiva, mas a comodidade ou dificuldade para lidar com língua estranha levava alguns a adaptar esses nomes. O centro-avante era center forward, logo aportuguesado para “centefó”, o zagueiro era back, e virava beque, o quarto zagueiro ou center-half, seria mais facilmente chamado de “centerralfi”, o juiz, o referee, reduzido a “refi”.

Tudo evoluía para a discussão sobre o que se ouvia. Não ver o jogo até ajudava a convicção de quem não admitia o “fau” (foul) marcado contra seu time ou que o seu jogador que fez o gol estivesse na “ofisaite” (offside), o popular impedimento. O “refi” é que era ladrão! Nem precisa dizer que a certeza era diametralmente oposta no torcedor do outro clube porque em jogo estava, em primeiro lugar, o prestígio e a colocação no campeonato da respectiva equipe e, ocasionalmente, o resultado de uma aposta (geralmente pequenos valores, bebida ou cigarro) que reforçava mais o repertório de gozação com o perdedor do que propriamente o caixa do ganhador.

Ao que não se chegava nunca mesmo era a algum consenso. Nem era esse o objetivo. E tudo continuaria no próximo domingo à tarde.

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