Crônica

FALTAR LUZ ERA COMUM

Até 1963 a energia elétrica em Mossoró dependia de usina termelétrica da Comensa (Companhia Melhoramentos de Mossoró S/A). A usina situava-se na Av. Jerônimo Rosado, próximo ao rio. A sede da Comensa era na esquina da Santos Dumont com Idalino Oliveira.

A rede de distribuição, muito restrita, cobria o centro da cidade e os bairros mais próximos. Mesmo a cidade sendo pequena, os bairros mais periféricos de então tinham de se virar com a luz de candeeiros, lamparinas e lampiões e nem podiam pensar em aparelhos eletrodomésticos. Estes, aliás, de difícil acesso mesmo para a maioria da população onde a energia era disponível. Nesse caso havia uma exceção: algumas casas tinham rádio alimentado por bateria comum de automóvel. Talvez fosse desnecessário dizer que até pelo menos 1960, esses aparelhos dependiam essencialmente da rede elétrica.

Diferentemente de cidades menores na região próxima, onde o fornecimento de energia era suspenso às dez da noite, em Mossoró esse serviço era contínuo, 24 horas, mas a sua suspensão eventual, ou seja, o faltar luz, não era incomum. E quando faltava na hora da novela a chateação era geral. Não tinha como recuperar o capítulo em outro momento. O jeito era imaginar como Jerônimo teria se safado de alguma enrascada, pois que ele se safaria todo mundo já tinha certeza. A lamparina, e a reserva de querosene, era equipamento sobressalente em qualquer parte da cidade.

Os postes ficavam no meio da rua e não junto ao meio-fio como seria depois. Eram de madeira, mais baixos que o padrão atual e sustentavam lâmpadas de baixa luminosidade, luz bruxuleante como seria escrito nos romances clássicos. Mesmo assim, eram locais de reunião de pessoas, principalmente jovens, lugar de namoros e pontos de serenata quando as ruas, noite alta, céu risonho, eram entregues aos notívagos, com seus violões e modinhas que a todos deleitavam.

A energia de Paulo Afonso mudou o material, a altura e a posição dos postes; aumentou a potência das luminárias; regularizou o fornecimento de energia; permitiu a expansão da rede, não só para a cidade de então, mas para a que viria, muitas vezes maior e incorporando uma miríade de equipamentos elétricos impensáveis à época. Assim como naqueles idos anos 60, a matriz energética que possibilitou essa revolução, dependente de grandes reservatórios hídricos, mostra-se agora um modelo esgotado.

Rio de Janeiro, cidade que nos seduz, de dia falta água, de noite falta luz, dizia a marchinha de carnaval de 1954. Em Mossoró, a água vinha nas pipas dos carroceiros. A luz podia faltar a qualquer hora, de dia ou de noite.

 

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