DO QUE SE TRATA

A dinâmica histórica das cidades compreende transformações, naturais ou nem tanto, e algumas delas são sentidas como perdas, evitáveis ou inevitáveis, objetivas ou apenas percebidas no universo sentimental que plasma o espírito das urbes. Quando um cenário de pandemia paralisa atividades, interrompe projetos, compromete estruturas de negócios globalmente, obviamente que tal realidade não é classificável dentro desse quadro de eventos de certo modo comuns, por não lhes ser comparável. Entretanto, há momentos em que as reflexões se insinuam de modo mais insistente, reforçadas pelo caráter crítico das circunstâncias, remetendo a coisas que eram e já não são, porque findaram, foram interrompidas ou se modificaram antes, em conjunturas menos extraordinárias, e isso teve algum significado na vida local. E o local, a aldeia, enfim, é universal na visão insuspeita de Liev Tostói (1828-1910), de Fernando Pessoa (1888-1935) ou no testemunho de Câmara Cascudo (1898-1986).

Perdas ou transformações podem dar lugar a coisas melhores ou piores, ou simplesmente deixar o vazio, isso, naturalmente, quando falamos daquilo que tem ou tinha um valor, prático ou afetivo, porque, do contrário, a perda é, na verdade, lucro. No plano particular cada um dimensiona a ausência de algo ou alguém de acordo com o que significava para si sua anterior existência mesmo que essa percepção só ocorra após a perda, o que geralmente se associa a um sentimento mais profundo, pois remete à estranha sensação de imaginar o que poderia ter sido e já não pode ser. Quando, entretanto, o assunto são as cidades, suas instituições, tangíveis ou imateriais, a alma coletiva, feita desses mesmos sentimentos individuais, tende a certo consenso no olhar para algumas delas, se já não existem ou foram muito modificadas.

É sobre essa cena da aldeia potiguar, tornada atemporal na mente de seus habitantes, que pretendemos fazer algumas divagações. Se elas de nada servirem, talvez possam ao menos sublimar o sentimento de pertencimento à terra que sugerem. Na próxima postagem traremos nosso primeiro enfoque sobre “Coisas que se foram antes”. Nesse primeiro momento narramos aquilo que pretendemos nesse espaço.

 

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