Entrevista

Conversa da Semana com Assis Neto

O Banco do Brasil vem sofrendo, do governo brasileiro, um dos piores ataques em toda a sua história. Na tentativa de privatizar a instituição, o governo vem fazendo um grande enxugamento, demitindo funcionários e fechando agências. Além disso, também tem transferido parte de seus ativos para a iniciativa privada. Nessa Conversa da Semana, Assis Neto, da direção do Sindicato dos Bancários de Mossoró e Região, fala sobre esse cenário e de como essas medidas impactam para os trabalhadores e para a população.

Por Márcio Alexandre

PORTAL DO RN – Nos fale sobre esse projeto de reestruturação que a presidência do Banco do Brasil quer colocar em prática.

ASSIS NETO – Já está colocando. O projeto previa 5.000 demissões por PDV´s – Plano de Demissão Voluntária e já conseguiu 5.533 Brasil afora. Além disso, o Banco pretende fechar 361 unidades entre agências, postos de atendimento e escritórios de negócio. Pra fechar com “chave de ouro”, extinguiu a função de caixa executivo e pretende descomissionar vários bancários.

PRN – Quais os reflexos disso para os bancários?

AN – Os bancários que ficarem sofrerão uma sobrecarga grande no atendimento, que já não era bom, pois este não contará com tantos funcionários para dar conta do recado, uma vez que as vagas não serão repostas; e ao país, em vista do relevante papel desempenhado pelo Banco do Brasil, como banco público. Vale salientar que muitos bancários já sofrem de transtornos psicológicos e emocionais em função das metas abusivas cobradas pelo banco. Além disso, ressaltamos o péssimo momento escolhido para a adoção das medidas anunciadas – em plena pandemia da Covid-19, a pior crise sanitária das últimas décadas, em que milhares de trabalhadores estão desempregados e inúmeras empresas encerraram suas atividades.

PRN – Para a população, haveria consequências?

AN – Sim! O fechamento de agências e postos de atendimento em várias cidades do país fará com que a população sofra, pois em muitos lugares as agências do BB desempenham papel fundamental na circulação de dinheiro, bem como na execução de serviços bancários básicos.

PRN – A reestruturação prevê fechamento da agência Santa Luzia, em Mossoró. Isso já é questão certa, ou é possível uma reversão?

AN – Já é dado como certo. Porém, as confederações e sindicatos tentam negociar o não fechamento destas agências, inclusive através de ações judiciais.

PRN – Há alguma outra medida do governo federal que tenha impactado na vida e profissão dos bancários?

AN – Os bancos públicos sofrem sucessivos ataques do governo atual. No ano passado, só pra citar um caso escandaloso, questionamos o valor de uma operação de venda de ativos em que uma carteira avaliada contabilmente em R$ 2,9 bilhões foi cedida ao BTG Pactual – banco fundado pelo ministro Paulo Guedes – pelo valor de R$ 371 milhões. Além de prejudicial para o BB, causou estranheza pois foi a primeira vez que a instituição cedeu uma carteira a um grupo de fora do conglomerado. Outro exemplo: na semana passada, uma alteração realizada no estatuto do Banco do Brasil permite agora que diretores da instituição continuem trabalhando mesmo depois de se aposentarem. A medida garante que eles turbinem sua remuneração, além da aposentadoria, no valor de R$ 52,1 mil, esses funcionários vão manter ainda o antigo salário – também de R$ 52,1 mil. Na prática, ao fim do mês, cada um receberá, pelo menos, R$ 104,2 mil – sem contar com outros benefícios. Ou seja, enquanto a direção do banco demite, corta gratificações e fecha agências em nome, segundo ela, da boa governança, ao mesmo tempo usa de artifícios e artimanhas para manterem-se na ativa e ainda elevarem seus salários a níveis inimagináveis para o cidadão comum.

PRN – Essa reestruturação objetiva a privatização do banco. Mesmo assim, não se percebe uma sociedade muito passiva para algo que será tão impactante para o país?

AN – Exato! Me parece que a população, que será a principal atingida, ainda não tomou conta da seriedade da situação. Em alguns segmentos, fazem de conta que não têm nada a ver ou que não serão atingidos. É sempre bom lembrar o papel fundamental dos bancos estatais na execução de políticas públicas, especialmente em lugares onde nenhum outro banco chega, além do seu viés de regulador de mercado, sempre puxando para baixo juros, taxas e tarifas. Isso na mão somente da iniciativa privada será um desastre para o país.

PRN – Com todo esse cenário, como está a negociação com os bancos para as demandas da categoria esse ano?

AN – Além das questões salariais, continuaremos, como sempre, demandando o preenchimento de mais vagas nas agências, o não fechamento de unidades bancárias, a denúncia ao assédio moral, sendo contra as metas abusivas e a favor de um atendimento humanizado.

PRN – Pelo que se percebe, o ano será de muita resistência. Como está a disposição da categoria para esses embates?

AN – Ainda não temos um termômetro preciso, já que nossa campanha ainda será em agosto. Mas, em virtude da pandemia, entendo que o foco na luta presencial resta prejudicado. A nova realidade dos bancários em home office e outros tantos dedicando-se ao atendimento virtual, provavelmente, será um problema na questão da mobilização.

PRN – Suas considerações finais.

AN – Como representante da categoria bancária em Mossoró e Região Oeste, conclamo, em nome da diretoria do Sindicato, não somente os bancários, mas também toda a sociedade para lutarmos juntos pela manutenção dos bancos públicos e para que cessem os ataques aos funcionários e instituições financeiras que fomentam o desenvolvimento do país. Posicione-se nas redes sociais, fale com seus amigos, amigas, representantes políticos, utilize os serviços de ouvidoria dos próprios bancos, faça barulho, mas não deixe que mais estes patrimônios do povo brasileiro sejam entregues à iniciativa privada, pois você também será prejudicado, caso isto ocorra.

 

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