O engenheiro civil Allyson Bezerra é uma grata surpresa no cenário político norte-riograndense. Candidato pela primeira vez em 2018, alcançou o feito de se eleger deputado estadual pelo Solidariedade sem contar com as grandes estruturas, sobretudo financeiras, imprescindíveis na maioria das vezes ao sucesso nas urnas. O jovem parlamentar é o personagem desse sábado da Conversa da Semana. Servidor concursado da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA), Allyson conta nessa entrevista o que foi primordial para o seu êxito eleitoral, analisa a situação da política brasileira, revela os planos do seu partido e seu propósito pessoal para as próximas eleições, critica o corte de verbas das universidades públicas federais feito pelo presidente Bolsonaro, avalia o início da gestão da governadora Fátima Bezerra, aponta sua principal bandeira de luta na Assembleia Legislativa e diz não se sentir membro de família de políticos.
Por Márcio Alexandre
PORTAL DO RN – Deputado, gostaríamos que o senhor fizesse uma avaliação da classe política brasileira em geral e da potiguar, em especial.
ALLYSON BEZERRA – Nós vivemos um momento de profunda crise política, mas a saída para essa crise é pela própria política. Não há outra saída a não ser a política. Não há como fugir disso. Eu vejo que a classe política entendeu que não há mais como governar, sem administrar sem ouvir as ruas. Eu vejo isso. Eu percebo isso. Há uma insatisfação muito grande, mas eu já vejo que a classe política, tanto a nível nacional, no Congresso, como a nível local, nossa bancada, já entendeu que não há como fazer política da mesma forma que se fazia antigamente. Tem que escutar a voz das ruas. Tem que saber o que a urna disse de fato, mas tem que escutar a voz das ruas e das redes sociais. Eu vejo que a classe política hoje está muito atenta a isso.
Nenhuma força política me apoiou, mas tive o apoio da população, que é o mais importante.Nenhuma força política me apoiou, mas tive o apoio da população, que é o mais importante.
PRN – Você é oriundo de uma família de políticos, no entanto construiu sua então candidatura a deputado fora desse ambiente familiar. Por que essa opção diferente daquela que usualmente se esperaria?
AB – Na verdade, minha família mesmo, meu pai, minha mãe, meus avós e meus tios diretos, nunca foram políticos. Então se eles nunca foram políticos, não me vejo pertencendo a uma família de políticos nesse sentido. Agora, o tio da mãe (Manoel Bezerra de Maria), um vereador da cidade, ele apoiou o candidato que a prefeitura apoiou. Foi uma decisão pessoal dele. Eu, particularmente, não tive apoio de nenhum vereador, nenhum prefeito, nenhum suplente. Nenhuma força política me apoiou, mas tive o apoio da população, que é o mais importante. Eu quero sempre ter o apoio da população. Se um dia algum político apoiar nosso projeto, tudo bem.
PRN – A despeito de não ter tido o apoio de forças políticas, como você me citou, seu projeto de chegar à Assembleia Legislativa foi exitoso. A que você credita seu sucesso eleitoral, especialmente por ter sido a primeira vez que se submeteu ao teste das urnas?
AB – Eu credito a um desejo corrente em Mossoró e no Estado também – eu fui votado em 155 municípios – forte de mudar. O que é mudança? É a população eleger pessoas que não fazem parte do sistema. Eu não faço parte do sistema político-familiar que é passado de avô pra filho, pra neto, pra bisneto. Eu não faço parte desse sistema. Também não faço parte de um sistema financeiro. A minha campanha foi a mais barata para deputado estadual em toda a história, no Estado. Acho que isso, ao invés de prejudicar, me ajudou. Me deu forças. Eu conversei diretamente com as pessoas, pelas redes sociais e nas ruas, diariamente. Pouca gente via nosso trabalho, mas eu estava diariamente nas ruas, conversando com as pessoas, passando nas casas. Foi isso que deu êxito. As pessoas queriam algo diferente.
Eu não faço parte do sistema político-familiar que é passado de avô pra filho, pra neto, pra bisneto.
PRN – Pessoas que se colocam como alternativa política, como é o seu caso, acreditam fortemente que contribuirão para fazer a mudança, política, social, de apoio ao desenvolvimento. Esses seus primeiros dias na Assembleia fazem você acreditar que essas mudanças acontecerão?
AB – Acredito. Na Assembleia, até esse momento, apresentamos mais de 160 requerimentos, com pedido de solução para problemas das cidades. Já apresentamos mais de 20 projetos de lei naquela Casa. Já realizamos audiências públicas para tratarmos de questões importantes da nossa região. Faço parte da Comissão de Educação, faço parte da Comissão de Constituição e Justiça, então já conseguimos, mesmo nesse curto período, aprovar projetos importantes. Então eu acredito que nosso trabalho dentro da Casa tem sido importante nesse sentido. Nós temos conseguido ter uma atuação forte. Fizemos projetos para beneficiar as pessoas.
Para mim a educação não pode ter corte ou contingenciamento. Tem que ter investimento.
PRN – Como membro da Comissão de Educação da Assembleia, qual a sua opinião sobre a política de educação do governo federal, sobretudo para o ensino superior?
AB – Eu faço parte da universidade federal desde os 17 anos de idade, como estudante de graduação, de mestrado, como servidor público, presidente de sindicato dos servidores. Eu conheço a fundo com o é que funciona a universidade. Claro, sou totalmente contra esse contingenciamento do Governo Federal. E já tinha sido contrário a ele quando era também governo, em 2016, da presidenta Dilma, que contingenciou R$ 10 bilhões da educação. Eu também fui contra. Na época eu era presidente do sindicato dos servidores e agi totalmente contrário aquilo. Eu busco na coerência. Se eu fui contra no governo do PT eu também sou contra agora. Para mim a educação não pode ter corte ou contingenciamento. Tem que ter investimento.
Entendo que a crise não foi ela (governadora Fátima Bezerra) quem provocou. A crise quem provocou foram os últimos governadores do Estado.
PRN – Mudando um pouco para questões locais. Qual a sua faixa de atuação na Assembleia? Você é situação, oposição ou integra o grupo que se convencionou chamar de independente?
AB – Nós fazemos parte de um bloco de independência dentro da Casa. Eu sou independente porque eu coloquei desde o início: a governadora acabou de assumir o Estado, o Estado está numa situação caótica, eu entendo isso. Entendo que a crise não foi ela (governadora Fátima Bezerra) quem provocou. A crise quem provocou foram os últimos governadores do Estado. Então, tenho responsabilidade nessa questão do governo, tenho responsabilidade com nosso mandato, então eu busco estar numa situação de independência. Aquilo que é importante para o Estado eu estou sempre votando a favor. Aquilo que eu entendo que não ´pe bom eu voto contra e mostro a motivação do meu voto pelas redes sociais.
Eu vejo a governadora com boa intenção de resolver os problemas, mas infelizmente as medidas que ela adotou não surtiram efeito até agora.
PRN – Como o senhor avalia essas primeiras medidas adotadas pela governadora Fátima Bezerra nesse início de governo na tentativa de buscar o equilíbrio fiscal e financeiro do Estado?
AB – Eu vejo a governadora com boa intenção de resolver os problemas, mas infelizmente as medidas que ela adotou não surtiram efeito até agora. Até momento, infelizmente o Estado não tem medidas por parte da governadora para resolver os problemas do Estado. Problemas ocasionados por outras gestões, como o déficit no fundo previdenciário, por exemplo.
O Estado do Rio Grande do Norte é maior que a ideologia da governadora, é maior que o partido da governadora.
PRN – Como é uma crise que necessita de apoio dos demais poderes, a seu ver que medidas a governadora deveria ter adotado que não o fez?
AB – Olha, a governadora tem que buscar de fato o governo federal. Não buscar quando ela for convocada, como já foi algumas vezes, não compareceu à maioria, e quando compareceu a algumas e saiu criticando o governo. Acredito que a governadora tem suas posições ideológicas diferentes das posições do presidente, a gente respeita isso – e tem que ser respeitado – mas o Estado do Rio Grande do Norte é maior que a ideologia da governadora, é maior que o partido da governadora. Então a governadora tem que ir ao Ministério da Saúde, até o ministério da Segurança Pública, ao Ministério do Desenvolvimento Regional. E ir de forma aberta. Cobrar, mas principalmente solicitar apoios para o Rio Grande do Norte.
PRN – Quais suas bandeiras de luta na Assembleia?
AB – Uma bandeira forte que tenho defendido é a saúde pública. Não sou médico, não sou dono de hospital, mas uma coisa eu sou: sempre fui usuário do SUS (Sistema Único de Saúde) e eu sei mais do que ninguém – como alguém que morou na zona rural, que mora na zona afastada da cidade – a realidade que a população passa com os problemas que tem na saúde. Então tenho buscado fazer essa defesa, fiscalizando os hospitais, participando de audiências públicas, cobrando. Exigindo e apresentando projetos. Apresentei um projeto de lei, por exemplo, que beneficia que as pessoas que tem suspeita de câncer. Hoje as pessoas com suspeita de câncer, ela espera meses e até ano para conseguir o diagnóstico. Um projeto nosso, que foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça, dá direito ao cidadão do Estado do Rio Grande do Norte que em até 30 dias ele possa fazer o exame e receba o diagnóstico. Pra mim, esse é um projeto que vai beneficiar diretamente quem não tem condições de pagar um exame e que por muitas vezes nem consegue iniciar o tratamento porque quando descobre o câncer que vai procurar tratamento não há mais jeito porque a doença já está avançada demais. Tenho buscado fazer meu trabalho na Assembleia muito voltado para a área da saúde. Lógico que nos mais de 20 projetos que nós apresentamos há projetos em todas as áreas, mas a área prioritária em que procuramos atuar com mais ênfase é na saúde.
Há na cidade de Mossoró um sentimento muito forte de mudança, de alternância, de querer sair da oligarquia que administra a cidade por décadas e décadas. Há esse sentimento muito forte. Da minha parte não há essa vontade de ser candidato.
PRN – Deputado, que condições o impediriam de ser candidato a prefeito de Mossoró?
AB – O meu foco é o meu mandato. Tenho consciência de que fui eleito pelo povo do meu estado para o mandato de deputado. Quero cumprir isso trabalhando, fiscalizando, propondo, legislando. Tenho buscado cumprir isso. Estou muito focado nisso. Há na cidade de Mossoró um sentimento muito forte de mudança, de alternância, de querer sair da oligarquia que administra a cidade por décadas e décadas. Há esse sentimento muito forte. Da minha parte não há essa vontade de ser candidato. O Solidariedade não tem candidato a prefeito, não tem candidato a vice-prefeito. O que há da minha parte é o interesse de quem de fato está pensando Mossoró se una. Não posso deixar que a vaidade e as divergências mínimas tomem de conta e não se viabilize um projeto de mudança. O mais importante é que se viabilize um projeto de mudança para Mossoró. Não tem, da minha vontade, nesse momento, ser o candidato. Sou deputado da cidade, deputado do Estado, estou para contribuir com minha cidade na Assembleia.
O Solidariedade está disposto a deixar qualquer vaidade de lado, qualquer divergência de lado por Mossoró.
PRN – Para se vencer uma oligarquia, como a que está no poder em Mossoró há décadas, é necessário que haja um projeto muito articulado de ideias, de comprometimento de pessoas, de coalizão partidária. Você tem conversado com a deputada Isolda Dantas (PT/RN) visando a articulação da oposição em Mossoró na construção desse projeto de mudança?
AB – Na verdade eu tenho um bom diálogo com a deputada Isolda, um bom diálogo com o PR, um bom diálogo com outros partidos aqui da cidade. Então eu acredito que esses partidos e esses personagens que atuam na cidade tem um papel fundamental. Se Mossoró continuar a ser administrada dessa forma atual, ultrapassada, não vai ser culpa do Solidariedade. O Solidariedade está disposto a deixar qualquer vaidade de lado, qualquer divergência de lado por Mossoró. E é isso que eu tenho buscado cumprir esse papel que de fato o povo nos cobra. O povo nos cobra isso: nos cobra uma posição. Então tenho buscado levar esse sentimento para esses partidos e para esses políticos aqui da cidade.
PRN – Que nomes hoje do Solidariedade em Mossoró você apontaria com boas perspectivas políticas para o futuro?
AB – Estamos montando uma chapa para vereadores. Na realidade estamos trabalhando para eleger quatro vereadores na Câmara Municipal de Mossoró. Um trabalho muito forte. Já temos hoje mais que a quantidade de pré-candidatos necessária para a formação de uma nominata, então a essa altura nós já temos mais do que o número necessário para se formar a nominata. Vamos com certeza formar uma nominata forte para eleger 4 vereadores. E é importante dizer: todos os nossos pré-candidatos tem grande condições de chegar à Câmara Municipal porque nós temos pré-candidatos de todas as regiões da cidade, de segmentos diferentes, isso torna a chapa muito competitiva.
PRN – Nesse curto período de mandato até agora, qual a principal luta travada pelo senhor?
AB – Eu queria dizer que nesses meses de mandato uma coisa que eu gostaria de evidenciar aqui foi nossa luta em prol do credenciamento de 10 leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital São Luiz. Eu sei também que outros colegas políticos, vereadores da cidade, já estão nessa luta há anos. Nós assumimos o mandato em fevereiro e eu busquei o hospital, conheci a estrutura do hospital e vi que ele reunia a todas as condições de credenciamento e infelizmente que há mais de dois anos que o processo estava parado, não andava. O que foi que eu fiz? Eu fui até o secretário de Saúde do Estado, mostrei para ele a necessidade desses 10 leitos de UTI, mostrei que tinha gente morrendo na fila da UTI, realizamos audiência pública na Assembleia cobrando, fiz pronunciamento, requerimento. Cumpri meu papel e busquei acompanhar ativamente o processo. Cheguei a participar de reuniões em que o processo foi retirado de pauta, cobrei que o processo fosse posto na pauta agora no último dia 15, inclusive levamos a diretoria do hospital para reunião em Natal no Governo do Estado, e esse processo foi aprovado.
Eu sei o que eu enfrento por ser deputado da cidade que chegou para representar o povo, sem interesses particulares.
PRN – Qual a mensagem você deixaria como deputado recém introduzido na dinâmica da política potiguar?
AB – Quero dizer ao povo de Mossoró, de nossa região, de nosso Estado, que vale a luta. Vale a luta sim. Eu sei o que eu enfrento por ter sido eleito fora do sistema financeiro, fora do sistema oligárquico. Eu sei o que eu enfrento por ser deputado da cidade que chegou para representar o povo, sem interesses particulares. Mas vale a luta. Vale a luta do nosso dia a dia se for para lutar pelo povo. Essa vitória do Hospital São Luiz representa uma das tantas outras vitórias que nós já temos no nosso mandato, mas também de muitas que nós ainda vamos ter. A minha luta é pelo povo de Mossoró e disso não abro mão em nenhum momento.
