Crônica

CALENDÁRIOS DE PAREDE

Não se inova ao dizer que nada é entendido fora de seu contexto. Tal afirmação se aplica quando falamos do modo de ser de uma sociedade, do qual estamos temporalmente distantes e mais distante ele está da cultura planetária em rápida superação de si mesma, à qual nos habituamos.

O Brasil nos anos 1950, l960, ainda é um país de características rurais. Isso é mais perceptível em seus burgos pequenos e médios, categoria que inclui nossa cidade de Mossoró, embora, naquele momento, já uma cidade atenta às transformações mundiais posteriores à segunda grande guerra. No mundo de então, novidades tecnológicas ainda surgem devagar. Automóvel, telefone, rádio, vão sendo incorporados à vida aos poucos. O próprio tempo passa mais devagar. Em consequência, hábitos e expectativas são mais simples. Simplicidade, por exemplo, do ato familiar de afixar à parede da sala de visitas ou de jantar, ou à parede da cozinha, um calendário novo como parte de providências inerentes e obrigatórias ao início de um novo ano.

O comércio sabia da relevância do hábito, e incluía em sua estratégia de vendas agradar o cliente com um bonito calendário, folhinha ou cromo, como eram chamados, com imagens de santos, lindos campos, encantadoras crianças ou bichinhos fofos, comumente cachorros e, mais comum ainda, gatos. Padarias davam preferência a imagens de pães crocantes e uma folha de trigo de arremate. Eles, os calendários, passavam agora e fazer parte da decoração do ambiente, ao lado de fotos de família, outras fotos de santos, um quadro simples de pintor anônimo e o relógio de parede.

Alguns estabelecimentos não deixaram de ter suas folhinhas a cada ano. Lojas Paulista, Casa Santo Antonio, Paulirmãos, Casa dos Ferros, Casa Pinto, Sapataria Vitória, Drogaria Rio Grande, Armazém Potiguar, Padaria Comercial, Padaria Oriental, Raimundo Marques e Elias Morais (os dois últimos, armazéns de secos e molhados).

Os calendários da Editora Vozes caracterizavam-se pela imagem do Sagrado Coração de Jesus e pelas folhinhas, destacáveis a cada dia. Folhinhas que traziam na face, além do dia do ano, informações sobre fases da lua, santo do dia, e, no verso, biografia de santos, textos bíblicos, informações sobre saúde, agricultura, práticas úteis na vida doméstica etc.

Havia também aqueles menos consentâneos com a solenidade da sala de uma família tradicional e que forravam paredes de borracharias, oficinas mecânicas, salões de barbeiros e de sinuca. Uma conhecida marca de pneus tornou famosos os seus.

 

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