Crônica

CACHORRO-QUENTE E TALHER

Quando Natal e Mossoró tinham o hábito recíproco de atribuírem-se algumas piadas, em geral inocentes, não agressivas, meros exercícios de bom humor, era comum ouvir-se na capital que na maior cidade do interior do Estado comia-se cachorro-quente de talher. Para não ficar só com uma natalense, em Mossoró se dizia que a televisão em Natal era como igreja evangélica: não tinha imagem (alusão à péssima imagem de TV recebida de emissoras de Recife, enquanto nós tínhamos a boa imagem da TV Ceará).

Na verdade, foi o Café ou Restaurante de Fransquinho, na Rua Cel. Saboia, já próximo à Pça. Vigário Antonio Joaquim, o lançador da moda e, até onde é mais conhecido, o único a segui-la. E não seria nada mal se outros a seguissem e até a tornassem uma marca regional. Afinal, quem iria estranhar se japoneses ou chineses utilizassem o hashi (“palitinhos”) com a invejável habilidade com que usam para várias comidas? Um estilo sempre pode ser criado e, nesse caso, seria até demonstração de personalidade. Afinal, diria Dom Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura, a seu escudeiro “que as modas não se inventaram todas ao mesmo tempo, nem vieram ao mundo de cambulhada”.

Comer com colher ou sugando o macarrão são hábitos, como outros, associados a diferentes regiões do mundo. Em muitos lugares usam-se garfo e faca para comidas que no país de origem são consumidas diretamente com as mãos.

O próprio modo de fazer o cachorro-quente não nos chegou da maneira como a conhecemos, com pão na forma característica, feito de massa macia. Os primeiros aqui eram feitos com pão francês, ou pão d’água, como é mais conhecido, com a carne moída fumegante. Eram vendidos geralmente na rua, nos carrinhos em pontos fixos, como o de Gregório, nos Paredões.

Se aceitamos que o caranguejo, cujo consumo, por tradição feito quebrando-se as partes e sugando a carne, seja servido em cumbucas e com colher, o cachorro-quente também poderia ser comido de modos diversos.  E, embora isso não tenha prevalecido como moda, nada nos impede, em casa, o uso desse apetrecho e de um prato (pois, tem também o prato) na hora de nos havermos com essa iguaria, que do outro jeito deixa-nos as mãos ensebadas e o caldo a escorrer pelo braço até o cotovelo. Embora alguns achem que seja esse o jeito mais prazeroso de comer, principalmente na rua ou à porta do estádio de futebol. Fosse como fosse, saborear um cachorro-quente no Café do Fransquinho, após o cinema, era muito gostoso. E se o filme era ruim, valia até sair antes do final.

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