Crônica

BECO DAS FRUTAS

Foi um local característico do centro de Mossoró. Pela Pça. do Mercado, Pça. Otávio Lamartine, caminhando-se pela calçada a partir da Casa Santa Terezinha, de seu Malaquias, ou do Café de Seu Né, chegava-se ao Beco das Frutas. Logo à entrada, já se visualizava o ambiente caótico, folhas de bananeira atapetando aleatoriamente o piso da rua, cartão de visita de seus bares e cafés. Aí era penetrar nos seus vãos, caminhando agora por suas próprias calçadas, e sentir o cheiro de carboreto vindo dos armazéns, onde bananas amadureciam devagar com auxílio dessa química malcheirosa.

A Rua Francisco Peregrino, ao avançar para o norte, cruzando a Almino Afonso, encontrava nessa esquina o Bar Ipiranga, de Raimundo. Seguindo, confluía com a Mário Negócio por trás da serraria de Otávio (atual Padaria 2001), terminando em uma espécie de praça, por trás do então templo principal da Assembleia de Deus, próximo à Pça. 15 de Novembro.

A denominação “Beco das Frutas” restringia-se ao trecho entre o mercado e a Almino Afonso e mesmo aí havia algumas residências. A origem do apelido é óbvia: a concentração do comércio intermediário de frutas, distribuídas para varejistas sobretudo de dentro e arredores do mercado. A variedade dessas frutas limitava-se àquelas regionais ou, no máximo, trazidas do Pernambuco e Bahia. Laranja, abacaxi, manga, mamão, limão, melancia, jaca. e muita banana, embora também passassem por ali, em caixotes de madeira caracteristicamente forrados por uma espécie de isopor lilás, as “manzanas argentinas”, raridade para poucas mesas mossoroenses, fosse pelo preço, fosse pela falta do hábito. Apesar do monopólio das frutas na identificação, no “beco” também se comercializavam verduras, batatas, macaxeira, feijão verde e outros produtos da agricultura familiar.

Nos bares, em cujo fundo quase sempre havia uma roleta conhecida como “36”, jogo proibido e placidamente tolerado, encontravam-se os trabalhadores, poetas, gente do povo, podendo-se identificar personagens de memórias de Dorian Jorge Freire, de contos de Jaime Hipólito Dantas ou Tarcísio Gurgel ou de romances de Dostoievski.

As frutas se foram. Deixaram o legado do nome, os bares e o estilo caótico, agora de outros tipos de pequenos negócios.  Levaram consigo o perfil de comércio que se fazia no mercado central e seu entorno deixando saudades até do cheiro de carboreto, mas, principalmente, do tempo em que se caminhava com tranquilidade por aquelas calçadas e o maior risco, talvez o único de fato, era escorregar em alguma casca de banana.

 

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