Crônica

AUDITÓRIO DA RÁDIO TAPUYO

O rádio em seu período áureo era simplesmente uma caixa que falava. Como apenas se ouvia, a figura de quem falava ficava inteiramente disponível para a imaginação do ouvinte. Aqueles que, mais que ouvintes, admiravam o rádio, buscavam oportunidade de visitar um estúdio, curiosos em conhecer a caixa mágica por dentro.

Uma forma de colocar essas pessoas do lado de dentro desse ambiente eram os programas de auditório. As emissoras cultivavam essa forma de contato direto com aqueles que eram sua fiel audiência. O que também era estratégia para lançar os seus artistas, principalmente da música, mas também do rádio-teatro, do humor e de outros tipos de arte-diversão.

Em Mossoró a Rádio Difusora foi quem mais promoveu esse tipo de atração e disso falaremos oportunamente. Hoje, lembramos uma ideia interessante desenvolvida nessa área pela Rádio Tapuyo, no seu auditório da Pça. Rafael Fernandes, esquina com a Rua Santos Dumont.

Diariamente, nos chamados dias úteis da semana, a Tapuyo oferecia ao público a oportunidade de participação direta na geração da programação, através do ambiente do auditório. O público, simples e respeitoso, faixa etária em média um pouco elevada, prevalência masculina. A atração, os cantadores repentistas Manoel Calisto e Nestor Bandeira. Apresentados por Canindé Alves, um dos ícones da locução no rádio local, outras vezes por Jorge Ivan Cascudo Rodrigues, o programa se completava com o show dos irmãos Lopes, Oséas, Hermelinda e João Batista, cantando ao acompanhamento de sanfona, triângulo e zabumba as músicas famosas de Luiz Gonzaga cuja voz era imitada por Oséas. O acesso era livre ao público. A porta de entrada, na lateral do prédio, dando para a velha ponte que unia o centro da cidade a sua banda leste, ficava aberta, assim como seus janelões de extremidades superiores arqueadas.

Não temos o registro de quando esse programa foi interrompido. Cantadores repentistas já não encantavam as gerações seguintes e só agora são reconhecidos na admiração dos que amam a poesia pura ou pelos que os veem como algo “cult”, não importa. A dupla de poetas virou lembrança. Os Irmãos Lopes viraram Trio Mossoró e fizeram carreiras nacionalmente. O prédio que até hoje guarda semelhança em sua arquitetura externa, talvez guarde também a memória do enlevo daquela plateia, tão necessitada de um alento para o espírito, no meio da manhã de um dia que, como todos os demais, seria de dura luta pela sobrevivência.

 

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