Crônica

AMEAÇA DO ORÓS

O Açude Orós, no município cearense do mesmo nome, foi o primeiro dos reservatórios de grande porte construídos no Nordeste, perenizando o Jaguaribe, até então com o discutível título de maior rio seco do mundo.

A obra foi inaugurada em janeiro de 1961 pelo Presidente Juscelino Kubitschek. Mas, ao final da construção, em março de 1960, as águas de um volume incomum de chuvas nas cabeceiras do rio levaram parte de sua parede superior, o que causou grande alvoroço e temor nas cidades e comunidades à jusante da barragem, no médio e baixo Jaguaribe, inundadas e algumas isoladas por essas águas. O arrombamento completo faria desaparecer do mapa muitas dessas comunidades. O governo tratou de evacuar esses locais, aviões e helicópteros sobrevoavam a região soltando panfletos com avisos e orientações a respeito.

Boa parte da população de Aracati e um pouco de Jaguaruana mudou-se para Mossoró. Muitas casas mossoroenses hospedavam uma, duas, três pessoas, e até famílias inteiras dessas cidades, principalmente da primeira. Isso sem falar de gente que dormia mesmo pelas praças e calçadas, à falta ou antes de encontrar um abrigo. Rádios de Mossoró, melhor dizendo, a Difusora e Tapuyo, as únicas então, faziam campanhas de arrecadação de alimentos e, sobretudo, por casas que pudessem receber alguém.

As informações, inclusive das rádios, dependiam de pessoas que vinham de Aracati ou de mossoroenses que passaram a ir até lá. Como sempre, nesses casos, há os que ajudam e os que fazem do momento apenas motivo de curiosidade e muita gente passou a sair daqui em veículos particulares, por estradas de terra, pois não havia ainda rodovia asfaltada, e de lá voltavam com notícias da elevação do rio, extensão dos alagamentos da cidade, das tensões, confusões e vexames que as circunstâncias impunham.

Não faltava mesmo os que faziam dessas viagens o que se pode chamar de piqueniques etílicos e voltavam de lá com histórias ou estórias, como a de conhecido nosso que relatou um imaginário atendimento a uma parturiente em plena rua, aventura narrada a uma emissora de rádio e repetida tantas vezes quantas foram possíveis antes que o repórter conseguisse encerrar a entrevista, depois de sucessivos “muito obrigado”.Passado o susto as pessoas retornaram aos seus lugares. É possível (não sei) que algumas dessas famílias tenham fixado residência em Mossoró desde aqueles episódios. O fato é que nunca mais se ouviu falar do assunto, exceto quando Fagner cantou na letra de Orós: “Quase acabava meu mundo, quando o Orós impanzinou (…) se não é seca é enchente, como somos sofredor”.

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