A PRESSA

VANDA JACINTO [1]

Ela sempre estava correndo contra o tempo. Naquela manhã andava mais ligeira do que nunca. Acotovelava-se com as pessoas, que assim como ela, também faziam uso da calçada. Bem que podia ter mão única nas calçadas, cada qual no seu sentido. Uma indo outra voltando, assim seria mais fácil. Enquanto buscava uma solução para o problema de engarrafamento nas calçadas, de repente ouviu o seu nome ser pronunciado por alguém.

Sem diminuir o ritmo, olhou rapidamente para trás correndo o risco de trombar com os transeuntes a sua frente.

Não tinha como afastar do pensamento a preocupação com os ponteiros do relógio que continuariam, é claro, o seu percurso sobre o mostrador fazendo o seu pulso pulsar mais forte.

Repassou na mente o prejuízo que causaria aquela parada forçada, mas não tinha como não fazê-la. Era uma vizinha sua cobrando-lhe explicações pela sua ausência na festa da Padroeira da Capela do bairro. Lógico que educadamente começou por lamentar o fato de ela não ter ido um dia sequer nas palestras e comentou sobre os últimos acontecimentos, incluindo no pacote, a novidade de terem sidos agraciados com a presença de um novo pároco à frente dos trabalhos da Capela.

Meio sem graça, conseguiu ainda trocar algumas palavras, enfatizando a correria do dia a dia, motivo pelo qual não pôde ir ao evento, no entanto, sabia de antemão que nada justificaria a sua desatenção. Parabenizou-a pelo carinho e esforços dispensados na consecução e sucesso da festa, prometendo mais uma vez de se fazer presente e ser mais frequente nas atividades da igreja. Despediu-se reforçando a promessa mesmo sabedora do não cumprimento.

Seguindo a passos rápidos, novamente retomou o seu caminho. E, na intenção de recuperar o tempo “perdido”, apenas olhou ao seu redor para se situar no espaço físico, tempo suficiente para observar que as pessoas ao seu redor também pareciam apressadas – ou atrasadas – para chegar a algum lugar.

Cada um deles fechado em seu universo, às vezes até falando ou gesticulando sozinho, esbarrando ou tocando sem querer nas outras pessoas, parecendo não enxergar mais ninguém ao seu lado. Aliás, reconheceu, inclusive, que tinha o hábito de travar diálogos consigo mesma. Que loucura!

Convenceu-se, afinal de contas, que não estava sozinha nesse mundo apressado. Por falar em pressa, já estava atrasada para dar conta dos afazeres a que tinha se proposto realizar naquele abençoado dia.

Ainda com a pressa dos comuns, olhou automaticamente para o relógio e percebeu que nem estava tão atrasada assim. Sorriu sozinha ao se pegar pensando que podia ter conversado um pouquinho mais com a sua amiga, mas já não era possível, pois tinham tomado rumos diferentes.

Desacelerou os passos e começou a prestar mais atenção nas ofertas propagadas por alguém, enfim percebeu que não doía andar mais devagar olhando e ouvindo o que se passava ao seu redor.

Surpresa ficou, quando chegando ao seu destino, deparou-se com uma fila imensa. Desanimada, olhou na extensão da mesma e constatou que a clientela estava diversificada, no entanto, todos estavam tranquilos aguardando a vez de ser atendido. Não tinha como exigir o seu direito de furar a fila, não tinha para que ter pressa nesse momento, não adiantava correr, o jeito era esperar com paciência.

Abriu a bolsa e dela tirou um celular. Após notificar em casa que demoraria um pouquinho a mais do que o tempo de costume, resolveu olhar os e-mails. Logo após foi “curiar” as últimas postagens num site de relacionamentos, quando deu por si, já estava na sua vez…

Esse é o cenário da vida no mundo moderno, e esse é o perfil das pessoas que nele vivem.

Correndo de um lado para o outro, pensam que dão conta de tudo, mas quando menos esperam estão estressados e a um passo da depressão.

Ter pressa sem motivos aparentes pode ser um alerta. Fique esperto!

O mundo está repleto de pessoas e coisas maravilhosas para serem admiradas. Não tenha pressa, não passe batido, desacelere a sua vida, curta mais cada momento, pois ele é único!


[1] A Professora aposentada, Escritora e Poetisa Vanda Maria Jacinto é natural da cidade de Auriflama/SP e Cidadã Mossoroense. Reside em Mossoró desde 1983 e no RN, desde 1980. É Primeira Ocupante da cadeira 15 da Academia Feminina de Letras e Arte Mossoroense – AFLAM, que tem como patrona Nísia Floresta, sendo também Acadêmica da ASCRIM, ACJUS, AMOL e AIUC.
Faz parte das Confrarias: Café & Poesia e Sem Eira nem Beira e do ICOP.            Cronista do Jornal de Fato. Autora dos livros: Rabiscando os caminhos da prosa, Portal do Tempo e O amor no tempo e no espaço, além da participação como coautora de várias coletâneas.
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