Crônica

A FESTA ERA PARA TODOS

“Eu quero ir no forró de Zé de Ana, abraçar as conterranas e dançar o arrasta-pé”. Cantou assim o Trio Mossoró. O Forró de Zé de Ana ficava na Pedro Velho. Mas, havia outros pela cidade, geralmente na residência de quem promovia a festa. Lembrando apenas alguns, no Bom Jardim tinha o de Maria Beata e o de Raimundo Meia-Garrafa. Nas Barrocas o de Chico de Sabino e o Clube Barra Limpa de Chico Véio. Santo Antonio, Boa Vista e outros bairros tinham os seus. O evento era aberto a todos, mediante o pagamento da “cota”, taxa cobrada dos homens que iam para dançar, os “cavaleiros”, pois às “cavaleiras” (assim se chamavam ali uns e outras, em vez do convencional cavalheiros e damas) seria deselegante cobrar.

A parte musical ficava sempre a cargo do trio sanfona, zabumba e triângulo, às vezes, ajudados por um violão ou cavaquinho, sem o adjutório de qualquer aparelhagem eletrônica, que isso nem sequer se cogitava naqueles tempos.

O comum era que o fandango ocorresse no sábado à noite e domingo à tarde (raramente em outro dia da semana). Interessante é que quando realizados às tardes de domingo recebiam a curiosa denominação de “valsas”. Curiosa porque o que se dançava por lá eram principalmente baiões, xotes, sambas e frevos, embora em determinado momento nobre da festa os casais levitassem no salão embalados pela música vienense, que consagrou compositores como Strauss e mostrou a genialidade de Tchaicovsky, executada em uma surrada sanfona e compassos a cargo dos citados acompanhantes.

Interessante também era o sistema de cobrança que não era feito à entrada, mas em certo instante da festa, quando a “orquestra” parava de repente e o dono do negócio percorria o salão recolhendo a “cota”.

Esse momento era tão certo quanto quase certa era a hora da correria, na direção do nariz de cada um e saltando qualquer obstáculo quando por qualquer nenhum motivo começava uma briga no meio da sala. Na maioria das vezes, entre mortos e feridos escapavam todos, mas, infelizmente, nem sempre era assim. Na melhor das hipóteses, tudo logo recomeçava. Os “valentões” eram conhecidos e quando chegavam já deixavam certa expectativa no ambiente. Apesar das providências do dono casa que preventivamente recolhia facas e outros instrumentos potencialmente lesivos para devolução à saída. Ou para evitar que fossem confiscados com a chegada da polícia, que fazia ronda regular também preventiva, soldados de cassetete em punho e em fila indiana atrás do Cabo (depois Sargento) Lardislau. Momento tenso, mas todos respeitavam a “puliça”.

 

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