Minha opinião

A conexão internacional está se dando mais pelo capital do que pela solidariedade humana

Observando as últimas notícias sobre o avanço das pesquisas em torno da vacina contra a Covid-19 esperava … uma preocupação maior com as regiões mais afetadas e os segmentos da sociedade que se encaixam nos grupos de riscos.

A notícia da aquisição, por parte dos EUA, de alguns milhões de doses da vacina produzida pela indústria farmacêutica confirma o nível de solidariedade que nos deparamos diante de uma pandemia, ou seja, primeiro eu, o resto que…!

Num momento em que a crise que assola o mundo afetando países grandes e pequenos, ricos e pobres, tem sempre aquele(a)s que são protegido(a)s pela sombra, afinal, o sol nasce para todo(a)s, porém, nem todo(a)s tem dinheiro para adquirir um guarda-sol.

Países pobres, trabalhadore(a)s, comunidades tradicionais, pessoas em situação de rua, para ficar apenas nestes exemplos, continuam e continuarão sendo os mais afetados pela pandemia. Apesar disso serão os EUA, um país rico e com maior estrutura que receberão os primeiros lotes de vacinas.

A aquisição antecipada da vacina pelos EUA comprova a força do capital sustentado no discurso da urgente necessidade de recuperação da economia em detrimento de uma maior preocupação com os mais necessitados, a exemplo dos países em situação de pobreza.

O discurso da recuperação da economia imposto pelo capital amplia o desafio da classe trabalhadora e de suas representações. As condições de trabalho cada vez mais precárias, as sucessivas retiradas de direitos trabalhistas, o aumento do desemprego, os ataques à organização dos trabalhadores, são exemplos das políticas implementadas pelos governos aliados ao setor empresarial, que tiveram continuidade ou até se intensificaram durante a pandemia da Covid-19.

Esse quadro me fez lembrar a fala de um colega professor da UEPB sobre a necessidade da construção de um sindicalismo solidário que transcenda os limites das categorias, como alternativa para a resistência da classe trabalhadora. Mas qual seria a chamada para um sindicalismo solidário que transcenda os limites de cada categoria e de cada país? Será que a famosa frase do Manifesto Comunista, “Trabalhadores de todos os países, uni-vos!”, ainda pode ser aplicada?

Enquanto os trabalhadores e suas representações estão em busca de uma organização em torno dessa chamada tem prevalecido o fortalecimento e a solidariedade do setor empresarial. Teremos que conviver ainda por muito tempo com a realidade do “Capital unido, jamais será vencido!”

A solidariedade e união presente no setor empresarial parecem estar sendo mais eficazes que a existente entre a classe trabalhadora, principalmente em nosso país. Se essa união é difícil num mesmo país, imagine o desafio lançado pelo Manifesto Comunista.

Não sou pessimista, muito menos negacionista no tocante a capacidade de união do(a)s trabalhadore(a)s aqui e alhures, porém, os últimos anos tem sido de frequentes derrotas para os sindicatos e seu(a)s representado(a)s, sobretudo no Brasil, a exemplo da retirada dos direitos trabalhistas, sepultamento da CLT, sucessivas mudanças na Previdência etc. Aqui abro um parêntese para lembrar que as alterações na Previdência não foram frutos apenas de governos de ultradireita, neofascistas e neoliberais. Os governos ditos progressistas e populares também cavaram a sepultura do(a)s trabalhado(a)s.

A situação se agrava, pois além do enfrentamento à pandemia, o(a)s trabalhado(a)s ainda tem que enfrentar agendas conservadoras e neoliberais na Europa, EUA, América Latina etc. Sem poder de fogo e tendo ainda como adversário a imprensa comercial alinhada à política econômica dos referidos governos, resta aos movimentos sociais, sindical e setores mais progressistas da politica o uso das redes sociais como mecanismo de agregar as categorias numa corrente de luta e solidariedade, o que, mesmo que a tecnologia seja eficiente e abrangente, ainda parece algo distante das lideranças e da burocracia sindical.

A tecnologia que provocou uma explosão de manifestantes em 2013 pode responder a necessidade de repensar o momento por qual passa a atomização da classe trabalhadora. Já em relação aos empresários, o uso das tecnologias já é uma realidade que vem dando bons frutos, muito dinheiro e ampliação da exploração da mão de obra precarizada, que os mesmos insistem em chamar acintosamente de “empreendedores”.

Quanto às classes trabalhadoras, parece que o uso das tecnologias ainda é uma promessa. Enquanto isso, a ideia de um sindicalismo solidário e que transcenda os limites das categorias, dos povos e das nações ainda constitui um desafio a ser superado.

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