Deus me livre de ser santa, boazinha ou coisa do gênero. Daquelas que não saem do quadrado para não machucar o outro. A própria palavra já separa: eu e o outro. Se o que digo magoa, estou apenas sendo sincera.
Deus me livre da falta de poesia feita por mulheres na literatura de cordel. Poesia que voa alto e alcança o céu.
Que Ele também me livre de depender de alguém ou de algo para viver. Sou livre, inteligente e capaz de fazer qualquer coisa, como a poesia bordada por mulheres cordelistas.
Sou daquelas que lutam sem medo ou vergonha e repetem mil vezes o mesmo gesto até chegar perto da perfeição — ainda que o perfeito sempre me pareça suspeito.
Sou do time que abre caminhos, que cria e inicia. E quando o tédio aparece, mudo de estrada.
Deus me livre da mente estagnada e da falta de beleza na palavra das mulheres que costuram versos.
Não sou de ninguém, mas sou de todos que me querem bem.
Que Ele me livre da falsidade e da empáfia, para que eu nunca perca a doçura de uma menina, nem feche os olhos para a injustiça.
E que Deus nunca me livre das palavras vivas nas bocas das mulheres que escrevem prosa e verso, com rima e métrica, desenhando suas histórias na literatura de cordel.
Fátima Feitosa nasceu na zona rural de Almino Afonso (RN). Pedagoga aposentada, psicanalista, espiritualista, filósofa e escritora. Autora de À Flor da Pele e Presa Dentro de Mim. Fundadora da Academia Campo-grandense de Letras e Artes (ACLAR) e integrante de instituições culturais.
