OPINIÃO

UMA CASA NORDESTINA

A cultura determina, entre outras coisas, o modo como vivem as pessoas. Cultura é algo complexo. Fatores físicos, sociais, econômicos, tecnológicos e outros fundem-se em valores pela consciência e dimensão espiritual humanas e esses valores contêm em si elementos para a própria transformação.  A estrutura e organização da casa é particular expressão do modo de vida de uma época. Uma residência do Nordeste Brasileiro, por exemplo, tem hoje uma configuração tão diversa da de 50 ou 60 anos atrás que gerações atuais podem não ter sequer ideia sobre como eram.

Mesmo uma casa convencional e não um apartamento em condomínio residencial, hoje é bem diferente. Panelas de barro ou de ferro remanescem geralmente como parte da decoração. Suas substitutas, fabricadas com outros materiais, têm vantagens práticas, até dispositivos elétricos ou automação. Diferentemente, as casas tinham alguidares também de barro e com várias serventias, entre elas a de torrar café em grãos, nos mesmos fogões de alvenaria e fornalha de ferro em que fumegavam as panelas no preparo das refeições. Um pequeno moinho de moer carnes fixado por ocasião do uso em uma bancada de madeira na cozinha ou na borda de uma mesa, moía também o milho da pamonha ou canjica e os grãos de café torrado no alguidar. De barro também era o pote que esfriava a água de beber e o filtro, alternativa mais saudável à água do pote. Geladeira era luxo impensável à família pobre ou classificada como classe média. Mas mesmo nas casas dessas famílias havia algum móvel de madeira: mesas, cadeiras ou simples tamborete. Toalhas de mesa e panos de prato eram pintados ou bordados à mão com desenhos ou nome de frutas e legumes ou, ainda, dos dias da semana. O filtro podia ter capa, de tecido com desenhos ou de crochê. Na ida à padaria havia uma sacola de tecido no qual era bordada a palavra “pães” e uma folha de trigo, isso muito antes da preocupação com as atuais sacolas de plástico.

Em qualquer casa havia uma máquina de costura. Na pior das hipóteses, a roupa da família era consertada ou reformada pela habilidade de alguém daquela família. O ferro de engomar era de ferro mesmo e a temperatura dependia da brasa incandescente em seu interior. Nem todo lar tinha um rádio e quando existia era aquele dependente da tomada de energia elétrica. O rádio transistorizado (funcionando com pilhas elétricas) ajudou a difundir o uso do aparelho. A casa nordestina tinha um quintal cheio de fruteiras, varal de roupas e quarador feito de pedras. Tinha na sala fotografias, inclusive aquelas coloridas a mão. Tinha os hábitos, muitos hábitos, como o do jantar logo após as cinco horas da tarde. E tinha a fé, expressa na oração.

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