Artigo

Uma milícia para chamar de sua

Por Esdras Marchezan *

 

Mais que um repertório de palavrões e de ideias autoritárias e inconstitucionais, o vídeo da reunião de ministros do Presidente Jair Bolsonaro tornou ainda mais evidente um desejo que o acompanha desde a campanha eleitoral: o armamento indiscriminado de civis brasileiros. O argumento do Presidente para tal medida (“Por isso eu quero que o povo se arme, a garantia de que não vai aparecer um filho da puta e impor uma ditadura aqui.”) esconde, ironicamente, um desejo que é seu, mais do que de qualquer outra pessoa: uma milícia para chamar de sua.

Na criação de uma narrativa sobre a necessidade de dar ao povo condições de se defender (De quem?), Bolsonaro vende a tese do armamento deliberado da população como estratégia de defesa própria. Mostra que, pressionado pelos poderes constituídos e pela população em caso de cometimento de crime, não está disposto a respeitar os trâmites constitucionais estabelecidos. Contra isso, busca construir uma milícia popular armada para sair em sua defesa. Terreno fértil para uma guerra civil.

Exagero? Atente para os fatos.

Parcela do eleitorado de Bolsonaro é formada por policiais (civis e militares) ou defensores da violência e do armamentismo. Mais do que isso. A defesa da legalização de milícias no Brasil é uma pauta constante nas campanhas do bolsonarismo. Lembremos da ligação da família Bolsonaro com milicianos como o ex-policial do BOPE, Adriano da Nóbrega, e com o ex-PM Élcio Queiroz, e o PM reformado Ronnie Lessa, acusados de envolvimento na execução da vereadora, Marielle Franco, e do motorista Anderson Pedro Gomes.

Novo capítulo. Em abril deste ano, o Ministério Público Federal (MPF) abriu procedimento para investigar indícios de violação da Constituição pelo Presidente Jair Bolsonaro, através de interferência em atos de exclusividade do Exército. Os procuradores investigam uma ordem do Presidente ao Comando Logístico do Exército (COLOG), determinando a revogação de três portarias sobre monitoramento de armas e munições. As portarias estabeleciam o controle, rastreabilidade e identificação de armas e munições importadas e fabricadas pela indústria nacional. O caso pode resultar em ação de improbidade administrativa na Justiça Federal ou processo no Supremo Tribunal Federal (STF). Para o MPF, a revogação facilita o acesso do crime organizado a armas e munições desviadas. Bingo.

Cabe destacar também o apoio e incentivo do Presidente e seus filhos ao grupo de extrema-direita intitulado “300 do Brasil”. Com a defesa de pautas como “caça” aos comunistas e esquerdistas e ataques ao Congresso e STF, o grupo está acampado na Esplanada dos Ministérios e inclui em sua programação de atividades “treinamento com especialistas em revolução não-violenta e táticas de guerra de informação”. Entre os participantes do acampamento, há pessoas armadas. O grupo engrossa o coro dos que pedem “intervenção militar com Bolsonaro no poder” nas manifestações realizadas em Brasília. Mais claro que isso, impossível.

Fatos como esses deixam ainda mais evidente o plano autoritário traçado pelo bolsonarismo, disfarçado como estratégia de defesa do povo brasileiro. É de assustar que Congresso e ministros do STF assistam a tudo como cenas de uma novela democrática. Enquanto notas de repúdio são escritas, o ovo da serpente é chocado. Dia após dia. Quem fecha os olhos para tudo isso, assume o risco de abri-los tarde demais, ao som de balas de revólver e pistolas.

* Jornalista e professor da UERN

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