Crônica

PARQUES DE DIVERSÕES

Só em dezembro eles tinham acesso ao centro da cidade. Festa de Santa Luzia. Armados na Av. Dix-sept Rosado, os parques de diversões eram os mesmos que nos demais meses do ano encontravam nos terrenos baldios dos bairros o seu leito natural. Diversão popular, cafona antes do registro do termo nos dicionários, despretensioso.

Woody Allen imaginou um parque para ambientação de um drama no cinema. Mas, nossos parques de diversões estavam mais próximo do que cantou Gilberto Gil em 1967, alegria e tragédia de personagens shakespearianas em típico cenário de uma cidade comum brasileira.

Entre balanços, carrosséis, rodas-gigantes e barracas de pescaria e tiro ao alvo, seus espaços eram territórios livres para uma diversão que podia custar muito pouco, ou mesmo não custar nada. Os galanteadores contavam, a um preço módico, com a colaboração essencial do serviço de alto-falante, de som metálico e chiado: “para um alguém de blusa azul, outro alguém oferece essa música dizendo que deixe de ser orgulhosa e que está lhe esperando junto ao carrossel”. Era um “clichê”, mas, era também certeza de emoção para o encaminhador e a destinatária da mensagem. Valia declarar as iniciais dos nomes de ambos, correndo-se o risco de confusões com as letras, o que até já virou folclore. Para os demais ouvintes ficava a curiosidade e tentação de descobrir essas identidades.

Esses parques eram (ainda são) empresas pequenas onde o dono trabalha ao lado dos operários, seus empregados. Gente simples cuja função vai desde a preparação do terreno, montagem, desmontagem e manutenção dos equipamentos, venda de ingressos, vigilância e o que mais precisar. Dormem no próprio local, em barracas e mesmo nos vãos livres de tablados de madeira. Assim como no circo, sua vida é nômade e o local de trabalho é também a casa, a residência, durante todo tempo em que exercem a atividade. Os equipamentos desses parques também são simples. A roda gigante é geralmente o de maior estrutura e complexidade na montagem.

Se a vida não era fácil para esses pequenos parques, hoje alguns apenas resistem, lidando com a concorrência de outras formas de entretenimento antes inexistentes e com o conceito de parque de diversões, prevalente para as gerações atuais, que tem como referência mega estruturas sob domínio de grandes corporações do mundo dos espetáculos, nomes famosos, nacional e internacionalmente. Apesar de tudo, eles mantêm a tradição de levar alegria simples à gente simples. Que também resiste nos cafundós do Brasil.

 

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