Crônica

O PASTORIL

Boa noite, meus Senhores todos. Boa noite, Senhoras, também. Somos pastoras, somos graciosas. E alegremente vamos a Belém

Meu São José, dai-me licença. Para o pastoril brincar. Viemos para adorar. Jesus nascem para nos salvar.

Os trechos acima eram de duas, das conhecidas músicas. Pastoril ou lapinha. Manifestação de religiosidade popular simples, relacionada às festas natalinas. De origem portuguesa, no Brasil integrou-se à cultura de todas as regiões. Cânticos de alegria e louvação entoados, junto com coreografia simples, por moças e meninas posicionadas em dois grupos ou cordões, identificados pelas cores encarnada e azul. Uma figura central, a Diana, representa ao mesmo tempo os dois cordões.

 

No Nordeste brasileiro o folguedo religioso foi modificado em um pastoril de características profanas, mas que preservou os cânticos inspirados na fé, de sua origem.  Essa nova forma incluiu a figura do “velho”, espécie de palhaço que anima a festa com piadas e trejeitos. Ela foi amplamente disseminada por pequenas e médias cidades. Com esse formato tornaram-se conhecidos muitos pastoris em Mossoró.

Possivelmente, algumas características desse pastoril eram criação local ou regional. Uma delas era a plataforma de cimento, espécie de palco onde se desenvolvia a apresentação. Outra, um momento aberto aos expectadores masculinos, que podiam subir ao palco e dançar “uma parte” com uma pastora, como eram conhecidas as moças. Para isso, pagava-se um valor que era determinado por um tipo de leilão. O interessado dava um lance e subia ao palco, mas podia descer no meio da música se alguém desse um lance maior para subir. O dançarino, provocado em seus brios, sob as luzes da ribalta e os olhares e torcida da plateia, tendia normalmente a cobrir a proposta atrevida e continuar até o fim da dança. O palhaço era o leiloeiro e não polparia o desistente dos gracejos que lhe deixariam ainda menos à vontade. Nesse contexto, tinha até a figura do “tapia”, personagem plantada para aumentar os lances. Aí, cabia ao dançarino sustentar bravamente a elevação da cota ou capitular, para o divertimento impiedoso da plateia. Acontecia de alguns manterem-se firmes e, ao fim, não terem o valor correspondente ao cotado. Mas, tudo se resolvia nos canais diplomáticos.

 

Das décadas 40 a 60 do século XX, lembramos e homenageamos pessoas que por anos mantiveram esse pastoril, nas figuras de João Pergentino, Raimundo Meia-Garrafa e sua mulher Maria, Osvaldo Vieira, Maria Beata e Rufino Lourenço. Caminhos de Paredões e Bom Jardim.

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