CRÔNICA

NOSSAS BODEGAS

É possível ver nas bodegas mais do que delas se costuma dizer. Elas tinham, 30, 40 anos atrás, características que só eram possíveis naquela época. E as nossas tinham, talvez, algumas peculiaridades.

No centro da cidade e principalmente nos bairros havia bodegas e bodegueiros referenciais. Descrever cada uma e cada um exigiria pesquisa e espaço. Como os de qualquer lugar, eram estabelecimento de secos e molhados direcionados a um mercado de vizinhança. E, nas vendas, fracionavam ao máximo possível cada tipo de mercadoria, de modo a permitir o consumo mesmo de quem só contava com pequenos recursos. Mais que “venda no varejo”, era “venda no retalho”.

Em uma economia limitada e modesta do interior do Brasil à época referida, era centro de abastecimento do essencial, sem a indução ao consumo que viria com outros tipos de organizações comerciais, que criam necessidades novas através de sofisticadas técnicas de abordagem emocional.

Quem comprava na bodega não era consumidor ou cliente, era freguês, termo que aproxima e nivela vendedor e comprador numa relação alheia a códigos escritos, geralmente impregnada de uma confiança mais genuína.

Nossas bodegas (isso pode ser algo inédito) vendiam até perfumes no retalho. Por um cruzeiro, também chamado “um mil réis”, ou “destões”, o freguês, geralmente homens, dispunha de uma porção de “Extrato Dulce”, um perfume modesto que vinha em pequenos frascos de vidro verde, cilíndricos e com extremidade inferior arredondada. O bodegueiro média na tampa da embalagem e o comprador passava no rosto, mãos e peitoral da camisa, um ritual antes de encontrar a namorada, amada, amante, enfim. Das bodegas, é desnecessário falar de um tipo especial de freguês, os apreciadores da cachaça, que tomavam em copos de vidro e fundo grosso, enquanto jogavam conversa fora, inclusive sobre a vida alheia. Fazem parte do lado folclórico desses estabelecimentos.

Outra característica das bodegas mossoroenses, que eu quase aposto no ineditismo, era poder o freguês pedir meia libra de açúcar, de arroz, de manteiga ou de alguma outra coisa. A libra, unidade de massa usada na Inglaterra e outros países, equivale a aproximadamente 500 gramas. Logo, o pedido era prontamente atendido com a pesagem de 250g do produto solicitado. Em uma aula de física, no curso científico, um professor, forasteiro, foi irônico ao dizer que não vira em qualquer outro lugar a expressão meia libra. Nossa colega Celineide Siqueira respondeu prontamente com uma ironia maior sobre o desconhecimento do professor.

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