Não custa nada refletir

Minha Opinião

O que estou escrevendo é fruto de um diálogo com um morador de rua e das reflexões e conversas com minha filha. Ele – o morador de rua – me pediu para escrever uma carta para Papai Noel, e como, segundo ele, tenho um canal de diálogo melhor, decidi unir minhas angústias com às dele e escrever uma carta só.

Véspera de Natal e para manter a tradição em nome da “família, dos bons costumes e da ordem” estou enviando ao Papai Noel meus desejos, vontades, sonhos e desabafar minhas angústias e frustrações.

Quero começar pedindo alguns esclarecimentos sobre sua trajetória de luta em favor dos fracos, oprimidos e os de bom comportamento.

Não sei se você me responde ou o Sr. Nicolau, se for a mesma pessoa, ótimo, assim não precisarei enviar duas cartas, se não for, também não tem problema, acredito que onde moras tenha sinal da internet.

Primeiro gostaria que explicasse às crianças como começou sua relação com o Mercado, aqui me refiro ao culto ao consumismo em seu nome.  Nicolau soube disso? Se soube, como reagiu? Alguém intermediou a negociação para uso de sua imagem? Se intermediou, o senhor conferiu o contrato que assinou ou foi apenas com base na palavra de homem, afinal e contas “o fio de um bigode vale mais que qualquer papel assinado”? E se o intermediário não acreditasse nessa conversa de “fio de bigode como garantia”, teria sido capaz de cobrar propina do Mercado para fechar contrato com o senhor, ou se utilizar da rachadinha para investir numa fábrica de chocolate e se tornar seu fornecedor com o dinheiro que deveria ser seu? Quem lhe convenceu de que o uso de sua imagem pelo Mercado traria benefícios para as crianças pobres espalhadas pelo mundo?

Desculpe a intimidade, mas já são tantos anos que não irei chama-lo de Papai Noel ou Sr. Nicolau. Peço permissão para chamar apenas de Noel e Nicolau, acho que já somos íntimos, afinal de contas lá se vão mais de meio século de carta vai e carta vem, e com todo respeito, as que vieram nem sempre foram acompanhadas do que pedi. Mas tudo bem, nossa amizade é maior que qualquer presente, o que vale mesmo é mantermos o diálogo sempre nos finais de ano, quando comprovamos que fui abandonado e explorado de janeiro a novembro e em dezembro a luz divina do bom senso clareou os corações dos irmãos e irmãs da família, dos bons costumes e da ordem, mas também dos irmãos e irmãs das não famílias, dos maus costumes e da desordem. Neste momento todo(a)s se dão as mãos e olham para mim.

E aí ergo os olhos para o Céu – não sei porque, talvez acreditando em algo divino – e pergunto: Por que não me tratam assim o ano todo?

São tantas dúvidas Noel ou Nicolau que não sei se vale a pena levantar o questionamento, mas vamos lá. Por favor leia e me responda.

Não tenha pressa na resposta, terei de janeiro a novembro para ler. Em janeiro não estarei de férias nas praias ou resorts, em fevereiro não irei brincar o carnaval, estarei liso, em março, abril e maio, estarei como sempre nas ruas e praças pedindo, roubando, vigiando carros, me drogando – também sou filho do Homem -, matando e morrendo. Em junho, como bom nordestino e sertanejo, cairei no forró – também sou filho do Homem, preciso de comida, diversão e arte -, em julho e agostoestarei refletindo sobre a morte de dezenasde companheiros que viviam como eu, em situação de rua, assassinados pelo Estado opressor ou por colegas da mesma sina imposta pela sociedade consumista e individualista.

Em setembro estarei amando a pátria, afinal, adoro assistir o desfile de sete de setembro – não pago nada -, mas muitas vezes o Estado opressor não deixa sequer me aproximar da parada militar, usando como argumento que não é local para “bandido”, que eu só irei para assaltar.  Em outubro e novembro, cansado de pedir e ser oprimido, me tornarei invisível nas ruas e praças. As pessoas irão passar e fingirão que não existo, afinal, não sou problema deles.

Definhando sem comida, diversão e arte, me entregarei ainda mais às drogas, o crack me consumirá e me tornará um trapo humano, nem eu sei se chegarei vivo no final do mês e se terei razão para viver.

Aí, mais uma vez, erguerei o olhar para o Céu – continuarei sem saber porque, talvez continue acreditando em algo divino – e perguntarei: Porque ainda existo?Será para esperar dezembro e voltar a ser visto novamente pelos olhos de quem o ano inteiro me desprezou?

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