Minha Opinião

Lavajatistas e Bolsonaristas: onde foi que eu errei?

No artigo anterior “Bolsonaro com o Centrão, tem impeachment não”, escrito antes da renúncia de Sérgio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública do governo Bolsonaro, argumentei que a aliança do presidente com a ala do Centrão daria ao mesmo uma vitória no Congresso em relação ao impeachment, haja vista a superioridade numérica dos parlamentares do bloco, o poder de influência que passariam a ter nos órgãos do Governo Federal e o trânsito livre no Congresso para barganhar com os demais parlamentares o custo do apoio ao presidente. As lideranças do Centrão têm força para negociar seus interesses e os do governo sem a intermediação de Rodrigo Maia (DEM).

O presente artigo segue a mesma linha de raciocínio do que antecedeu, porém, com uma nova roupagem, haja vista que, a demissão de Sérgio Moro deu uma nova conotação a crise que já vinha se agravando no governo desde a demissão de ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta.

Acompanhei as duas coletivas e confesso que não me surpreendeu as falas dos atores em questão. Ambas dariam excelentes enredos para três gêneros cinematográficos, o faroeste, a comédia e o policial. Como os conteúdos das falas vão se transformar em caso de polícia com direito a espetáculos nos tribunais, predominará o terceiro gênero, mas logo se perceberá que o roteiro se adapta facilmente para comédia, no estilo  O Mentiroso (1997), e nos restará apenas um sofá e uma boa pizza.

Diante do cenário que se aproxima, os apoiadores de Moro (Lavajatistas) deveriam se perguntar onde erraram, pois desde o inicio da Operação Lava Jato, o ex-juiz e ex-ministro é apontado como a referência de honestidade e imparcialidade na condução da operação que levou inúmeros executivos, empresários e políticos à cadeia, dentre eles o ex-presidente Lula. Naquela ocasião se ouvia muito dos apoiadores da Lava Jato que o governo do PT interferia ou tentava interferir nas investigações com intuito de proteger os filiados ao partido que estivessem sendo investigados, dentre eles o ex-presidente Lula e a ex-presidenta Dilma Rousseff.

Da mesma forma os apoiadores de Bolsonaro (Bolsonaristas) deveriam se perguntar onde erraram, haja vista que o presidente era o paladino na luta contra a corrupção e o “toma lá dá cá”, apontados como práticas corriqueiras nos governos anteriores, e que precisava acabar.

As coletivas derrubaram algumas “verdades” até então defendidas pelos dois grupos de apoiadores. Num primeiro momento podemos citar a relação do Poder Executivo com a PF, uma vez que o próprio ex-ministro afirmou que durante a Operação Lava Jato tanto a ex-presidenta Dilma quanto o ex-presidente Luiz (Lula) garantiram a autonomia da PF, algo que o governo que ele – Moro – fazia parte não garantia, e o próprio Bolsonaro afirmou em sua coletiva que “queria relatório diário de tudo que acontecia na PF, em especial nas última 24 horas para poder bem decidir o futuro desta nação”. Até agora não sei qual a relação entre as investigações da PF e o futuro da nação. Acredito que o “futuro” da nação foi apresentado na Carta Programa do então candidato e defendido durante toda a campanha. Portanto, não tem nada a ver relatório diário da PF com “futuro da nação”, a não ser que o presidente tenha se referido ao futuro de alguém com inquérito em andamento na PF e, para não citar nome usou como metáfora o “futuro da nação”.

Se foi verdade que Moro falou: “você pode trocar o Valeixo sim, mas em novembro, depois que o senhor me indicar para o Supremo Tribunal Federal”, como afirmou o Presidente em sua coletiva, imagino a cara dos apoiadores de ambos. Os de Moro se perguntando sobre a ética do ex-juiz, sua inabalável idoneidade usando a velha prática do “toma lá dá cá” e “rifando” o diretor da PF em benefício próprio. E os de Bolsonaro orgulhosos, haja vista, que o paladino não se deixou ser chantageado pelo ministro. Afinal de contas, houve o pedido?  O ex-ministro nega, o presidente confirma. Com quem está a verdade?

Ouvir do ex-ministro sobre o papel que desempenharia à frente do Ministério da Justiça e Segurança Pública me gerou algumas dúvidas, pois o mesmo assim se referiu quando aceitou o convite para ocupar o cargo: “entendi pelo meu passado de juiz e meu compromisso com o estado de direito […] também poderia ser um garantidor da lei, da imparcialidade e autonomia dessas instituições”. Como falar em imparcialidade se existem inúmeras denuncias divulgadas pelo site The Intercept sobre orientações que o mesmo teria dado aos promotores no caso que envolve o ex-presidente Lula? de que imparcialidade ele se referia? São mentirosas as denúncias apontadas pelo site?

As acusações do ex-ministro foram todas rebatidas pelo presidente, que afirmou no início de sua coletiva ter dito para alguns parlamentares na manhã do dia 24 de abril que “hoje vocês conhecerão àquela pessoa que tem um compromisso consigo próprio, com seu ego e não com o Brasil”. Devo concordar que o presidente tem razão em sua fala sobre compromisso com o Brasil. Se, nem mesmo o presidente tem compromisso com o Brasil e com os brasileiros, como esperar tal compromisso de Sérgio Moro?

Esperar o que de um presidente que em plena coletiva apresenta como um dos grandes feitos em termos de economia de sua gestão até o momento foi ter desligado o aquecedor da piscina olímpica do Alvorada e modificado o cardápio. Parece piada, mas ele falou. Se realmente ele procedeu assim, não sei, nunca estive no Alvorada para nadar ou fazer refeição.

Voltando à PF, o presidente afirmou que “numa videoconferência, o senhor Valeixo se dirigiu a todos os seus 27 superintendentes e disse que desde janeiro vinha falando com o senhor Sérgio Moro que ia deixar a Polícia Federal”. Levanto a seguinte questão: se a saída do senhor Valeixo já estava nos planos dele desde janeiro, significa que não sofreu pressão? Errado. Ele pode ter dito aos superintendentes, conforme observou Bolsonaro, porém, não significa que tenha sido por vontade própria, mas fruto das pressões que vinha sofrendo, conforme declarou o ex-ministro: “a partir do segundo semestre de 2019 passou a existir uma insistência do presidente Bolsonaro para a troca do diretor geral da PF sem causa justa. Ficando claro que estava havendo uma interferência política na Polícia Federal”. É compreensível que num momento de desabafo o diretor tivesse afirmado para sua equipe que desejava sair. Porém, seria importante que o mesmo viesse a público e confirmasse se sofreu pressão ou não.

Uma coisa é certa, o presidente quer “um diretor que possa interagir com ele” e que lhe passe relatórios diários da PF. Não quer interferir, pois ele mesmo disse:  “meu compromisso é com a verdade, não são verdadeiras as insinuações de que eu desejaria saber sobre investigações em andamento”, “o senhor Sérgio Moro sabe que jamais lhe procurei para interferir nas investigações que estavam sendo realizadas”. No entanto quer um diretor que possa interagir com ele e lhe repasse relatórios diários sobre as atividades da Polícia Federal.

Se a preocupação do presidente é saber quais as atividades desenvolvidas pela Polícia Federal, é muito simples, estão previstas no parágrafo primeiro do artigo 144 da CF, e são várias, sugiro uma leitura, o texto é curto. O presidente tem condições de ler diariamente os relatórios da PF? Como Chefe de Estado não tem outras demandas mais importantes que não seja ler os relatórios da PF, desligar o aquecedor da piscina e fiscalizar o cardápio do Palácio? Sugiro apenas uma, unir o país contra a pandemia do coronavírus em sintonia com governadores e prefeitos seguindo as orientações da OMS. É muito cansativo para o presidente passar o dia folheando relatórios da PF, correndo para desligar o aquecedor da piscina e ainda ter que vigiar a cozinha do Palácio. Está de brincadeira com o país, e ainda diz que é o outro que não tem compromisso com o Brasil.

Voltando a pergunta inicial sobre onde teriam errado os lavajatistas e bolsonaristas, afirmo com convicção que vocês não erraram, pois apoiam exatamente o que os dois defendem. Moro e Bolsonaro são iguais, o compromisso de ambos sempre foi consigo próprios e com o projeto de destruição dos direitos da classe trabalhadora, privatização dos serviços públicos, como o SUS, de quem tanto o brasileiro precisa neste momento, sucateamento das universidades públicas, celeiro das pesquisas do nosso país, com os banqueiros e com o capital estrangeiro sob a benção do Tio Sam.

Bolsonaro é cria de Moro, afinal o ex-juiz e ex-ministro foi o maior cabo eleitoral do capitão. O cabo pariu o capitão quando transformou a Operação Lava Jato num instrumento com viés político na busca incessante pelo poder, aliando-se aos setores mais conservadores da política nacional e internacional.

A vitória de Bolsonaro foi a vitória de Moro. Sem Moro, Bolsonaro não seria nada, já estaria no ostracismo.

Por isso Lavajatistas e Bolsonaristas não se preocupem, não precisam ficar nas redes sociais se digladiando, acusando um ao outro. Fiquem em casa, obedeçam ao isolamento, sigam as instruções da OMS e esperem por 2022, quem sabe os dois dividirão o mesmo palanque ou, na pior das hipóteses em palanques opostos, mas com certeza defendendo as mesmas propostas. Enquanto aguardam o desenrolar das investigações sugiro que assistam ao filme O Mentiroso (1997) saboreando uma boa pizza, afinal de contas, o Presidente foi enfático no encerramento de sua coletiva se dirigindo a Moro, “me desculpe senhor ministro, o senhor não vai me chamar de mentiroso”.

Dependendo do roteirista da comédia, quem sabe no final poderemos saber quem é o mentiroso.

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