Entrevista

Conversa da Semana Ludimilla Serafim

A Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA) está em ebulição por conta do processo eleitoral que se avizinha. Nesse período de pré-campanhas, pelos menos 5 nomes estão postos para participar da disputa. O Portal do RN inicia neste sábado, série de campanha com cada um dos pré-candidatos. Iniciamos com a professora Ludimilla Serafim. A única mulher na disputa para o cargo de reitor. Conheça as ideia, propostas, visões e percepções da docente nesta Conversa da Semana.

Por Márcio Alexandre

É comum que as mulheres se coloquem, no âmbito institucional, numa condição de subserviência.

PORTAL DO RN – Dos 17 postos de comando da administração central da Ufersa (Universidade Federal Rural do Semiárido), apenas dois são ocupados por mulheres, Pró-Reitoria de Pró-Reitoria-Adjunta de Assuntos Estudantis. O universo institucional acadêmico é machista ou há outras razões que expliquem tamanha disparidade?

LUDIMILLA SERAFIM –  Inicialmente agradeço o convite do Portal do RN para essa conversa, e ter a voz para mostrar nossas opiniões acerca de situações que concernem à UFERSA. O que temos a dizer acerca dos cargos? Hoje, esses dois cargos estão em níveis, no campo executivo da instituição, na administração central, exatamente como cargos comissionados. Agora, se nós pudéssemos falar em termos de cargos eletivos, o cargo eletivo abaixo desse escalão, e que tenha uma mulher eleita como titular, justamente sou eu, como diretora do Centro de Ciências Sociais Aplicadas e Humanas. Eu não gostaria nem de colocar como um universo machista. Eu acredito que é uma falta de acreditação na capacidade feminina. Acredito que isso não é só uma dimensão machista, se a gente colocar assim: ah é uma ideologia, uma questão de gênero, não. Isso é uma questão de acreditação. E também das mulheres que fazem parte da instituição, também se colocarem. Porque é comum que as mulheres se coloquem, no âmbito institucional, numa condição de subserviência. A exemplo disso nós temos no atual processo, no nível de pré-candidaturas, duas mulheres na condição de coadjuvante e só eu na condição de protagonista. Então depende muito da mulher também. Não é só a questão de você considerar a culpa e ancorar na dimensão da ideologia machista, não se trata também disso, se trata de uma construção das mulheres que fazem parte da instituição de se colocarem no campo de protagonistas na história. É muito comum, na maior parte dos cargos, isso se a gente for ver no campo institucional, é que as mulheres sejam convidadas a ser vice. Eu digo o seguinte: que um homem que considera a mulher somente na condição de ser vice, ele deveria refletir ou então chamar ouro homem porque para a condição que nós temos hoje, para o crescimento e para a ascensão das mulheres de modo geral, sua capacidade, pela sua sensibilidade, pelo seu grau de resiliência, é diferente de um homem. As nossas diferenças estão numa capacidade de resiliência e num campo de acreditação maior do que a gente imagina. Então é isso que vai fazer esse diferencial, por isso é mais importante que as mulheres construam a sua história ao invés de estarem ancoradas numa ideologia. É machista?. Eu particularmente não gosto de trabalhar nessa linha de ser machista. Eu quero acreditar que as mulheres precisam aprender a ser protagonista de sua história.

Porque uma campanha na história de qualquer pessoa, quer seja homem quer seja  mulher, é a vida dela.

PRN – A presença de homens é maior também no corpo docente? No curso que a senhora leciona, dos 23 docentes, 13 são do sexo masculino. Como convencer essa ala da importância de a universidade ter, pela primeira vez na sua história, uma mulher ocupando a Reitoria?

LS – Olhe não se trata nem de um convencimento, se trata de um processo de educação. Acredito que a sociedade, no campo da universidade, que eu coloco sociedade como espaço  universitário, que nós reunimos a mente de brilhantes pesquisadores, de brilhantes professores. São estudiosos no campo da universidade federal, nós sabemos que há um diferencial muito grande. Não que uma universidade pública estadual não tenha a sua visibilidade, não tenha a sua competência no nível intelectual. Mas na universidade federal a diferença se dá porque já entramos, em sua grande maioria, doutores. Então é isso que é diferente, em termos de pesquisa. Colocando a dimensão do meu curso, na questão de 13 homens e 10 mulheres, anda esses dados compõem uma perspectiva histórica. Nós podemos dizer que essa diferença numérica entre homens e mulheres ocupando espaço no mercado de trabalho, ainda faz pare de um curso histórico. Vou dar aqui o meu exemplo. Eu casei aos 16 anos, fui mãe aos 17 anos. Então eu construí uma carreira acadêmica, me graduei, me especializei, fiz mestrado, doutorado, passei e ingressei no serviço público, sendo mulher, esposa, mãe. Sou mãe hoje de um filho com 27 anos de idade, estou casada. Quando a gente junta tudo dá quase 30 anos. Então, não é fácil você equilibrar família e trabalho, mas essa é uma questão de determinação. Então para uma mulher sempre foi mais difícil porque ela precisa ter um foco e ela precisa ser determinada. Primeiro porque ela precisa vencer o que a gente chama de indecisão e fraqueza. Um homem pode errar. Uma mulher não pode errar. Uma mulher se diferencia de um homem porque uma mulher tem que falar e fazer. Um homem pode falar e ele pode dar qualquer desculpa. Ele pode se ancorar em qualquer coisa, mas a mulher tem que falar e fazer. A exemplo disso nós temos a dama de ferro. Ela é um grande exemplo pra nós porque Margareth Tatcher dizia que se você quer entregar alguma coisa para ser feita entregue a uma mulher, agora se você quer apenas falar… Os homens se ancoram muito nisso. Porque a gente sabe falar, é o poder da determinação, esse é o diferencial. Então no momento em que a gente se coloca para adentrar nesse espaço da universidade, primeiro: ele não é de ontem, ele não aconteceu de um de repente. Não foi isso, faz parte de uma construção de vida. Porque uma campanha na história de qualquer pessoa, quer seja homem quer seja  mulher, é a vida dela. Então, qual é a minha história? Por que minha história me levou a um caminho a ponto de eu, uma mulher, aos 44 anos, mossoroense, oriunda de uma família humilde, que estudou a vida inteira em escolas públicas (somente no Ensino Médio em escola particular, mas porque ganhou uma bolsa, conseguiu chegar num lugar desse e num lugar de destaque? Quer dizer, nós temos uma história, nós temos uma vida inteira pra mostrar para a comunidade acadêmica. Então a minha história de vida me faz entender que é preciso deixar muito claro que nós estamos abrindo espaço para outras mulheres, para jovens inclusive que estão entrando na universidade hoje, que estão grávidas, que acabaram ter filhos. Porque quando tem filhos, elas se perguntam: o que vai ser da minha vida? Vai acabar minha vida? Ninguém acaba uma vida porque foi mãe. Pelo contrário. O filho é uma bênção na vida da gente. Então eu considero que essa coisa de “eu tive filho, eu deixei”, não. Você teve filho, você pode continuar. Claro que não é mais fácil. É mais difícil. Então, trazer essa minha experiência de vida, e eu coloco experiência de vida, pessoa humana, porque antes de ser gestores nós somos humanos. E aponto minha experiência enquanto professora universitária, enquanto pesquisadora, enquanto ocupante de cargos na instituição. Os primeiros passos dentro da instituição foram cargos comissionados. De lá para cá, todos os meus cargos foram eletivos. Então nós sempre estivemos em posições porque eletivamente nos fomos escolhidos no campo democrático. Então são espaços construídos. Não são espaços de experiências forçadas, ou frutos de acordo, ou seja, uma mulher precisa construir seu espaço assim. Até porque é muito difícil uma mulher ocupar cargos e cargos comissionados ter espectro de crescimento.  Ela não tem prospecção porque ela não tem uma história para contar. E ter uma história para contar é também ter luta. As pessoas precisam entender as vitórias mas também precisam entender as lutas.

PRN – Aliás, dos 4 dos candidatos que estarão na disputa com a senhora, três ocupam cargos importantes na universidade. Pelo menos um deles deve contar com o apoio da atual gestão. É possível ter uma disputa equilibrada?

LS – Eu gostaria de nesse momento, e acho que agora a gente tem condição, de traçar um perfil, já que nós estamos a poucos dias da oficialização das candidaturas. Estamos na pré-campanha. Eu considero que estou numa fase de construção. Campanha é campanha. O que temos antes da campanha? A construção de uma proposta de gestão. É o que acontece, por exemplo, na política externa, como na pré-campanha para vereador. E cito o vereador porque ele está na base, ele visita mais, ele visita conselhos, ele está na pré-campanha, não é para ele estar pedindo votos, é para ele estar construindo o trabalho dele. Não é momento de pedir voto nem fazer campanha, é momento de construir. Hoje, qual é a nossa realidade? Primeiro de tudo que nós temos 12 anos de uma única gestão. É assim que eu entendo a Ufersa. Quando eu cheguei aqui nós tínhamos o primeiro reitor eleito. Aí depois ele sai, ele opta por sair, e em seguida apoia o atual reitor. Então nós temos 4 anos com mais 8 anos de um único apoio. Mas alguém pode colocar: mas não é um único apoio porque nos 4 primeiros anos do atual reitor ele sim teve o apoio do ex-reitor, mas a sucessão dele, nos 4 anos seguintes, segue com a mesma equipe. Então o que a comunidade interna e externa precisa entender  é que nós estamos há 12 anos com o mesmo povo, com a mesma gestão. Quer queira quer não, é uma única proposta. Foram segmentos que foram sendo construídos ao longo do tempo que perpassa outras dimensões, é assim que eu entendo. Então, hoje nós temos o primeiro reitor, e nós temos aí mais 3 candidatos distintos. Os outros 3 candidatos tem um perfil interessante. Um é o pró-reitor de Extensão, e veio ocupando cargos, nos últimos 12 anos, só mudando de lugar. O outro candidato, esse sim é dado como da gestão, é o pró-reitor de Graduação, e outro candidato que nós tivemos conhecimento, de maneira informal, porque nós estamos no campo da informalidade, não há nada oficial, é o pró-reitor de Pesquisa. Então, nós temos uma instituição, e eu até considero como interessante o cenário: Ensino, Pesquisa e Extensão, o tripé da universidade , cada um num caminho. Então é para refletir muito o momento porque nós temos uma opção: ou continuar ou mudar. Quero colocar de maneira bem objetiva: quaisquer um desses candidatos aí, que não me cabe nominar porque nós não temos nada oficializado, está dentro do mesmo projeto e perspectiva de gestão. Isso não é falácia, isso não é consideração de uma pré-candidata, é uma leitura de qualquer analisa, um cientista social, um analista político, e até a própria imprensa. Estou colocando isso porque muitas pessoas da imprensa vieram conversar comigo e trouxeram essa leitura para mim, e me perguntando se eu ia seguir o mesmo caminho. Vai ficar a mesma coisa? Foi a pergunta que me fizeram. Você vai se juntar com quem? Respondi: não vamos nos juntar com ninguém. Nós temos um projeto de gestão, esse é o nosso diferencial, porque nós temos uma construção eletiva, Nós não temos uma candidatura de gaveta, acordada nem com A nem com B. Nós temos um projeto de universidade. Nós estamos em busca da acreditação da comunidade acadêmica e também respeitamos qualquer decisão que a com unidade acadêmica venha a ter. A leitura que nós fazemos, uma leitura técnica, é essa. Nós somos exatamente a equipe, a proposição de gestão que pretende mudar. E vou mais adiante: vai mudar, vamos mudar sim. Nós estamos caminhando para fazer uma proposta que difere disso que nós temos hoje. E nós temos. O que é que vocês tem? Nós temos fé, determinação, coragem, força. Nós precisamos de força para enfrentar porque não é fácil para uma mulher ser protagonista no meio de um laço disso. Na verdade, vai num diapasão que perpassa muitos anos. Eu acredito que a nossa chegada lá vai trazer para Mossoró, eu digo para Mossoró, mas a Ufersa não está apenas em Mossoró. Ela está em, Angicos, Caraúbas e Pau dos Ferros. Mas será para o Rio Grande do Norte uma página na história, um divisor de águas.

PRN – A senhora falou em mudança e quando alguém se motiva a disputar um cargo eletivo para gerir uma instituição, uma prefeitura, passa pela cabeça dela a seguinte questão: caso tenha sucesso a primeira coisa que pretendo mudar será isso. No caso da senhora, qual seria essa questão?

LS – Nós teríamos que começar pelo sistema normativo da instituição. Nós temos que organizar o que se chama normas infraconstitucionais, ou seja, nós temos um estatuto hoje, novo, estamos trabalhando com um regimento em construção e temos muitas normas que foram aprovadas e que estão sendo trabalhadas, mas de maneira, precária. Por que eu digo precária? Porque como é que a gene tem um estatuo e um regimento em votação tão díspare? Nós precisamos arrumar porque não se pode trabalhar no caos, para que a gente tenha equidade. Na administração pública nós não trabalhamos com igualdade, nós trabalhamos com equidade, é diferente. Outro ponto, quando você trabalha com equidade você atenta para o  que a Lei 8112 nos coloca também, que é a questão da impessoalidade. Quando você trabalha no sistema normativo considerado precário, cadente, você sabe que alguns momentos tende a ferir o princípio da impessoalidade. Um outro ponto importante que nós queremos, isso é um sonho para nós, e se Deus quiser nós vamos conseguir, nós queremos ser a primeira universidade do Brasil a trabalhar o protótipo do impostômetro. Nós queremos fazer um sistema de transparência em tempo real. Nós estamos trabalhando para isso. Não queremos dizer que chegando lá nós teremos esse protótipo pronto em dois ou três meses, porque para isso a gente vai precisar resolver esse problema normativo, e isso demora um tempinho, e nós vamos precisar resolver também o problema dos sistemas da instituição. Hoje nós temos o sistema do SigaA, mas a gente vai precisar organizar todas as ferramentas, colocar aquelas que estão desativadas ativamente, e esse é um trabalho que vai exigir um esforço maior, mas vamos querer trabalhar esse sistema de transparência quase em tempo real. E nós vamos conseguir porque esse é nosso sonho.

PRN – Por que é o seu sonho?

LS – Porque no momento em que você trabalha com transparência em tempo real, nós vamos trazer para a sociedade tranquilidade. A tranquilidade de que vamos garantir equidade, a tranquilidade de que vamos garantir a impessoalidade, a tranquilidade que vamos mostrar para a sociedade que nós temos valor, que a comunidade ufersiana trabalha porque aqui temos exímios pesquisadores, professores com dedicação exclusiva que fazem o seu trabalho. Temos alunos de excelência, técnicos de excelência. A maior parte de nossos técnicos-administrativos possui no mínimo a especialização. Então o número de pessoas qualificadas é muio grande. Grande parte dos nossos técnicos tem competência para ser professor. Temos um trabalho de excelência aqui e a gente precisa mostrar para a sociedade. A sociedade precisa conhecer porque é a Ufersa. Nós somos a única universidade federal rural do semiárido do país, mas nós temos um diferencial, porque estamos assentados num polo de desenvolvimento para as cadeias produtivas de muita importância. Nós temos uma riqueza mineral, então nós precisamos tratar disso. Por que? Porque a gente precisa mostrar para o mundo num momento em que a gente coloca a transparência e dizer para nosso país que nós somos uma universidade importante, nós somos uma universidade que produz. n[os somos uma universidade que vai impactar o desenvolvimento local, regional, do país. Nós tempos um polo de desenvolvimento aqui muito grande que pode interagir com o mundo de maneira muito rápida. Então nós queremos trazer isso para que as pessoas conheçam. Outro ponto que a gente quer considerar também é como as tratativas podem ser feitas. Queremos mostrar a universidade para mundo mas pelo caminho que a gente tem que chegar lá. Queremos dar vazão a essa relação maior com outros ministérios. Temos o Ministério de Relações Internacionais que nós temos que dialogar mais, porque nós temos um potencial muito grande para caminhar com a internacionalização. Então não há como você não fazer da Ufersa um diferencial. Nós estamos acreditando que a nossa capacidade de acreditar, de gerir, de estar determinada para aquilo que nós estamos fazendo, nós vamos chegar lá sim. Isso será um diferencial

PRN – O organograma da UFERSA aponta a existência de 7 pró-reitorias. É o número ideal? Elas conseguem dar conta de todas as demandas de toda a sociedade e não somente da comunidade acadêmica direta?

LS – Esse número dar conta, é um número bom. Nós não precisamos ampliar o número de pró-reitorias, o que nós precisamos é fazer um processo de governança que venha alinhar melhor os nossos sistemas que já existem. Porque nós já temos o sistema Sigaa de excelência, mas nós precisamos melhorar o processo de governança. E vou bem mais no que você quer perguntar. E por que é que nós temos tantos problemas no campo institucional? Por que nós não temos uma coisa chamada dimensionamento técnico de pessoal. Isso é muito importante. Há 4 anos, quando nós passamos pelo processo de candidatura para a Reitoria em 2016, nós levamos isso como proposta: nós vamos dimensionar a equipe técnica da instituição. Porque dimensionar não é só dizer quantas pessoas tem num determinado lugar, dimensionar é uma tarefa de fazer gerenciamento dos processos. Alguém pode dizer: ah, mas já existe o escritório de processos. Sim, existe, mas ninguém pode fazer isso fazendo outras coisas. A nossa ideia é designar uma comissão para fazer esse dimensionamento. Ele tem que acontecer até porque a realidade do país nos leva a pensar que nós temos que otimizar aquilo que nós temos. Então nós temos profissionais qualificados, altamente qualificados. Nós não podemos colocar a culpa dos problemas ou de qualquer inferência nos servidores técnicos. É um dimensionamento que vai envolver a questão da governança e a dimensão de quem está realizando. A questão é essa. Não podemos colocar a questão nas pessoas. As pessoas que estão lá nos seus lugares elas estão executando os seus serviços, então depende de quem orienta.

Existem universidades que mesmo com o contingenciamento  elas não tiveram essa visibilidade de problemas.

PRN – O ano de 2019 foi um dos mais difíceis para as universidades em termos financeiros e execução do orçamento em face das ameaças de corte nas verbas para as universidades federais. Qual a sua avaliação do atual governo em relação ao ensino superior público no Brasil, sobretudo para as IFES (instituições federais de ensino superior)?

LS – Olha, você colocou 3 coisas importantes aí que a gente precisa esclarecer. Contingenciamento sempre teve. Quem trabalha na administração pública sabe que sempre teve. Por que então que o contingenciamento existe? Para, inclusive, evitar que os gestores tenham problemas futuros. Ou seja, as demandas vão chegando, chegando, chegando, e você não pode fazer as coisas de qualquer maneira. Porque a universidade ela não tem um caixa, ela tem rubrica e ninguém trabalha com espécie, com cifras. Nós trabalhamos com rubricas. Então essas rubricas precisam ser dimensionadas. Existe um orçamento, aprovado em lei, ele chega na instituição com uma cifra numericamente designada a partir de rubricas, e dentro dessas rubricas existe a chamada resiliência, que é a capacidade de gestão de cada universidade. Então é nessa capacidade de gestão que vem o olho do cuidado, por isso o contingenciamento chega. Isso é um problema. Lidar com isso. Ora, lidar com isso todas as universidades já sabem lidar. Acredito que o que aconteceu foi que houve um novo, as universidades realmente viveram uma situação atípica, porque chegou um processo de reforma dentro daquilo que é a única arma que nós temos para mudar a realidade de muitas famílias, que é a educação. Isso realmente causou medo, a palavra certa é essa, causou medo. Causou pânico, e isso até demorou a resolver o problema. Acredito que foi aí onde a Andifes se fragilizou. Porque a Andifes, no âmbito das universidades federais, poderia ter trabalhado primeiro a dimensão diplomática. O grito não resolveu. A verdade é essa. Então foi o grito pelo grito. Até que em um determinado momento nós vamos ver um diferencial de universidade: no país nem todas as universidades tem a realidade da Ufersa. Existem universidades que mesmo com o contingenciamento  elas não tiveram essa visibilidade de problemas. Por que é que eu estou colocando isso?  Porque as cifras orçamentárias no campo do planejamento no campo institucional é o que faz a diferença. Então depende de cada universidade.

Entendemos que realmente houve sufocamento no processo educacional. Esse sufocamento trouxe para nós uma profunda reflexão e a reflexão que impactou na nossa qualidade.

PRN – E o que houve no caso da Ufersa?

LS – No nosso caso, especificamente no que concerne à dimensão de planejamento, aplicação de recursos, houve um aviltamento. Houve assim uma força maior para se discutir as obras que estavam em andamento, e também de obras que não foram feitas. O que foi que aconteceu desde a expansão para cá? A expansão da Ufersa trouxe um crescimento considerável, isso é inevitável. Crescimento ano geográfico tanto interno no que concerne à questão de estrutura, a dimensão de estrutura é outra, mas a gente em que considerar que o curso número 1, que é Agronomia, ele também tinha uma estrutura de excelência, que foi sufocado ao longo do tempo. Isso é um ponto que a gente em que considerar. E a gene não pode deixar de maneira nenhuma que a área das agrárias venha nesse campo de sufocamento porque nenhuma área pode se sobrepor a oura. Todas as áreas tem os seus valores. Então o que aconteceu? Na instituição de modo geral, não é que umas áreas tenham preterido ouras. O sistema de governança é que optou por algumas prioridades, ou seja, algumas áreas já tinham estrutura, e tiveram essas estruturas melhoradas. Em outras área não tinha estrutura nenhuma e nem sequer foram melhoradas. Então para a gente trabalhar com dificuldade em 2019 nós temos que colocar isso também. Nós temos que colocar que o contingenciamento sempre aconteceu, a realidade das universidades não é a mesma, agora nós entendemos que realmente houve sufocamento no processo educacional. Esse sufocamento trouxe para nós uma profunda reflexão e a reflexão que impactou na nossa qualidade. É como se a culpa dos problemas fosse nossa, de quem faz ensino pesquisa e extensão. Não. Os pesquisadores, os professores, os extensionistas, eles fazem o seu trabalho, o problema das universidades não está na qualidade de bossas pesquisas, de um modo geral, nem no trabalho extensionista, que a gente faz com aquilo que a gente e até com o que não tem, mas está na forma de governança e nos princípios administrativos de quem está à frente. Esse é o problema. É por isso que o Ministério do Planejamento ele inclusive chegou a realinhar e a pensar. E outra coisa: o impacto foi muito grande é porque nós tivemos uma dicotomia na visão de formação de áreas. Porque para tratar com educação na universidade você tem que entender a dimensão de realidade. E onde cada realidade daquela impacta em cada lugar. Isso não é partido, isso não é ideologia, é o processo educacional e como ele acontece em cada lugar.

PRN – As eleições universitárias são, na verdade, uma consulta popular para a montagem das listas tríplices. A prerrogativa de escolha é do presidente que, sabemos, não tem respeitado, no mais das vezes, a decisão soberana dos eleitores. Vale a pena encarar a disputa, mesmo sem a garantia de apesar de ficar em primeiro, correr o risco de ser preterida?

LS – Sim. É importante mais uma vez colocar, e eu digo mais uma vez porque essa é uma pergunta que constantemente me tem sido feita, que nós brasileiros temos, eu sou especialista em Direito Ambiental, e eu gosto de usar essa terminologia, somos colecionadores de leis ambientais. Então nós somos um país colecionador de leis, mas a população não é educada para ler. A condição de nomeação, a cargo do presidente da República, ela já existe há algum tempo. Então essa é uma prerrogativa legal que lhe cabe. Inclusive os termos os quais nós assinamos com o resultado que é encaminhado ao gabinete da Casa Civil para chegar até o presidente, já dá essa condição. Nós estamos  nas mãos ali do presidente da República para ali dentro daquela lista ele escolher. Eu não considero isso uma ameaça porque em 2016 nós já tínhamos esse entendimento. Quem ganhou em 2016 já tinha que ter esse entendimento. Agora o que foi que veio à tona? Havia uma prática e aí o que a gente tem que considerar como prática? Por que não era regra de o resultado da comunidade acadêmica ele ser acatado. Hoje não. Nós tivemos um conjunto de situações que mostraram que essa regra foi operacionalizada e que na prática aquilo que vinha acontecendo nós não temos mais. Na verdade esses são os ermos práticos. São termos práticos e alguém pode dizer: mas fere a democracia. Mas é um princípio legal. A gente aí vai ter que entrar numa tese jurídica para defender o que é a tese e o que é o problema. Qual é objeto que nós estamos discutindo. É isso que a gente tem que ser claro e não ficar colocando ou dimensionando estereótipos que não são verdade. Quem faz isso está faltando com a verdade. Muito importante em relação a isso é o seguinte: independente de qualquer coisa a comunidade acadêmica em que entender que hoje a medida provisória, se ela permanece, para nós aqui na Ufersa, em especial, a medida provisória trouxe para este momento, considerado de pré-campanha, e eu não posso considerar como campanha, mas como momento de construção, mas houve um avultamento de alguns problemas aqui. Chegou-se a noticiar inclusive na imprensa que o Conselho Universitário (CONSUNI) preparava um golpe, aí nós lamentamos. Lamentamos porque como estava nas mãos do CONSUNI, ora se já era preocupante estar nas mãos da Presidência da República, partir de um resultado democrático, então a comunidade acadêmica viveu esse momento aqui. Viveu um momento de estar preocupada em participar de um processo seletivo e chegar no conselho universitário e o resultado de toda uma construção não ser aprovado. Quem deveria votar realmente? Era o Consuni? Ou a comunidade acadêmica? Essa é uma pergunta que eu inclusive cheguei a fazer. Então a eleição, já que acontece no Consuni, então ela deve acontecer só lá. Nós vamos ter então poucas cabeças decidindo um número que ultrapassa 12 mil pessoas. A eleição da Ufersa é considerável, ela é maior do que a eleição de muitos municípios de nosso Estado em termos de votantes. Então não é de qualquer processo que nós estamos falando. Primeiro porque é de uma universidade e segundo pelo número de mentes brilhantes que estão dispostas a escolher uma pessoa.

PRN – A senhora coloca sua pré-candidatura como processo de construção. E dentro dessa lógica, quais as credenciais que a senhora apresenta como pré-candidata?

LS – Vou colocar por partes. No que concerne à questão da administração e do planejamento institucional, nós estamos trabalhando para construir, e isso para nós é prioridade, a organização desse sistema normativo e institucional e a transparência em tempo real. Nós temos muitos problemas, mas se a gene não corrigir esses a gente não consegue corrigir os outros. No que concerne à gestão de pessoas, nós temos muita clareza, nós temos uma história juntos, com os servidores técnicos e os professores de um modo geral. Estou aqui no meu quinto mandato eletivo. Fui duas vezes eleita chefe de departamento, duas vezes eleita primeiro lugar geral no Consuni quando nessa eleição nós tínhamos uma eleição quase de reitor na universidade, e hoje eleita como primeira diretora do Centro de Ciências Sociais. Nós temos um trabalho junto aos docentes. Para os docentes e para os técnicos nós queremos mostrar um trabalho voltado para primeiro: a valorização humana, e a valorização sobretudo daquilo que a gente pode fazer ou não. Se perguntar: qual é o princípio da sua gestão? Garantias. Nós queremos garantir aquilo que nós podemos fazer. Nós estamos pautando nossas propostas, pensando nossos técnicos e nossos estudantes, naquilo que a gente pode fazer.  Vou dar um exemplo prático. Mas professora, o orçamento está encurtando, é uma preocupação muito grande. A folha de pagamento pode não ser paga. Será que ela não pode ser paga mesmo. Para isso, a gene vai ter que analisar realmente. Nós não podemos dizer isso agora. Isso é um ponto. Outro pronto: problemas no campo administrativo de um modo geral. A descentralização já existe, mas existe com algumas deficiências. Queremos mudar a maneira como alguns contratos são realizados dentro da universidade para garantir aos campi da universidade a sua autonomia, até porque a responsabilidade de quem está à frente deve ser acreditada e considerada, nós queremos garantir a autonomia universitária e para fazer isso com segurança nós temos que ter transparência para que as pessoas que venham para a gestão elas venham querer fazer porque elas tem tranquilidade naquilo que estão realizando, elas sabem o que estão fazendo. Queremos promover uma educação gratuita, pública e de qualidade. Pública ela já é porque somos todos servidores públicos, mas e a qualidade? Dadas as condições. O princípio da qualidade é a condição que tem que ser dada. E é essa condição que perpassa todas essas dimensões. Para nossos estudantes estamos analisando como melhor operacionalizar o orçamento porque nós precisamos garantir para os estudantes a permanência. Hoje nós temos um número relevante – é só verificar os dados institucionais do Departamento de Registro Escolar – a quantidade de vagas que nós temos em aberto na instituição. E qual foi a causa? Se o problema maior é a permanência, e já existe política de permanência,m então temos que melhorá-la. Podemos fazer melhor, podemos aprimorar. Ah, mas o problema são as condições antes de chegar na universidade, então nós vamos fazer um trabalho voltado para a comunidade para que os jovens tenham acesso à universidade. Ah, mas o jovem já está na universidade. E ele precisa melhorar porque o professor que está lá na Engenharia não pode volar para fazer aquilo que é ensino básico. Então a gente vai fazer a preparação do antes e o trabalho do depois. Esse é um trabalho que exige dedicação, que exige esforço. É por isso que quero colocar novamente que nesses 12 anos nós não tivemos um projeto de universidade, nós tivemos um projeto de pessoas e quando você tem um projeto de pessoas, de ancorar pessoas, você não consegue pensar problemas na universidade como tem que ser. Isso faz a grande diferença.

PRN -Sua mensagem final aos nossos leitores.

LS – A mensagem que eu quero deixar é a seguinte: eu sou uma mulher, que quero ser reitora da universidade, e nós estamos estamos construindo uma história, nós somos protagonistas de uma história e estamos determinadas a fazer essa história acontecer. Esse é o nosso diferencial. E como uma mulher mãe, esposa, gestora, nós queremos mostrar para a sociedade e para o mundo que é possível. Vale o jargão: mulheres de todo o mundo uni-nos. Mulheres de todo o mundo cuidado com quem vocês se unem. E quero dizer à comunidade ufersiana que nós estamos tratando da nossa construção com zelo, com amor e pensando, com o crivo da responsabilidade, que vamos chegar lá. Acredito que Deus como nosso condutor até aqui ele vai nos guiar até chegar lá.

 

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