Entrevista

Conversa da Semana com Severo Ricardo

O setor de eventos tem sido um dos mais prejudicados pela pandemia da covid. Deverá ser um dos últimos a voltar de forma definitiva a uma nova normalidade, o que obriga os integrantes do setor a se reinventar. Músico e compositor, Severo Ricardo é um dos artistas que tem buscado meios de se manter em atividade nos tempos atuais. Com a experiência de quem trabalhou na trilha sonora de espetáculos como Chuva de Bala e Auto da Liberdade, em Mossoró e no Filme longa metragem “Era uma vez Lalo”, vem criando alternativas para apresentar sua arte, pelo menos individualmente, enquanto o cenário pandêmico não permite tocar com toda a sua banda, Forró do Severo. Nessa Conversa da Semana, Severo fala sobre pandemia, música, interesse por forró, apoio governamental, entre outros assuntos. Acompanhe.

Por Márcio Alexandre

PORTAL DO RN – Severo, nos fale sobre a sua ideia de tocar nos hospitais onde tem pacientes em tratamento contra a covid.

SEVERO RICARDO – Foi no dia das mães do ano passado, eu já tinha esse projeto de forró e sempre tocava quando a galera pedia, e um amigo meu da Escola de Artes, Bornerges, pediu para eu fazer essa apresentação no condomínio dele. A gente estava no primeiro lockdown da covid, todo mundo em casa, ninguém podia sair, eu fiquei lá da área de lazer, com uma caixa de som enquanto as pessoas acompanhavam das janelas de suas casas. Isso teve muita repercussão, passou até no RN TV, e a galera começou a me chamar para fazer aniversários e outras comemorações à distância, com cada pessoa estando em seu local e eu tocando para homenagear, em show de 30 minutos, por exemplo. A partir disso foi amadurecendo a ideia de tocar para as pessoas internadas por causa da covid. Estudos mostram que quem ouve música tem uma capacidade maior de sair de uma depressão, de sair de uma doença; eu acredito que a covid mata muito mais na depressão que a pessoa fica. Tem outros problemas, claro, mas acredito que a depressão faz as pessoas desacreditar. Quando a pessoa tem um alento, uma música, alguma coisa para se firmar, ela consegue se sair melhor. Eu já fazia esse trabalho de musicoterapia. Todo Natal, antes da covid, a gente juntava um grupo de pessoas, geralmente todo o conservatório da Escola de Música, e saía por hospitais, Amantino Câmara (abrigo de idosos), São Camilo, que é um hospital bem precário, Hospital Regional Tarcísio Maia, tudo isso antes da pandemia. Até então, eu não tinha feito nada na pandemia, até mesmo por medo de se infectar, pois a covid tem um percentual de infecção muito grande. Aí surgiu o convite no dia das mães desse ano de a gente fazer nos leitos de UTI mesmo. Eu até pensei: será que vai dar certo mesmo? Até porque tenho meus pais em casa (com 65 anos e com 62 anos), do grupo de risco. A mulher me disse que seria algo rápido, de 15 a 30 minutos no máximo, e eu estaria protegido com todos os equipamentos de EPI. E foi o que aconteceu. A gente foi todo paramentado. Eu fui com todo o cuidado, e a gente conseguiu fazer, muita gente filmou. Muitas pessoas se emocionaram, eu inclusive. Me emocionei porque é muito triste. A primeira pessoa que eu vi lá foi uma amiga minha que trabalhava na escola em que eu estudei no Ensino Médio e eu fiquei bem emocionado. É tanto que eu nem cantei, só toquei. Era eu tocando e as lágrimas caindo, chorando mais do que a sanfona.

Acho que quando a pessoa ouve uma música, alguém tocando, ela sente mais vontade de viver.

PRN – Você já chegou a ter contato com alguém que estava internado no dia que você tocou lá, e já deixou o hospital?

SR – Não tive ainda porque foi muito recente. Foi domingo retrasado. Mas eu acredito totalmente na música como algo que pode ajudar na cura. A música não cura sozinha, mas ela tem uma contribuição muito grande. Acho que quando a pessoa ouve uma música, alguém tocando, ela sente mais vontade de viver, alguma coisa dentro dela diz que não é o ponto final.

PRN – O setor cultural foi um dos mais prejudicados pela pandemia. Como você avalia o apoio governamental ao setor nesse período?

RS – O auxílio que a gente tem é muito pouco, principalmente do governo porque também o governo não estava preparado. Além do mais, o setor artístico sempre foi visto como secundário. O setor das artes geralmente é o menos visto, o menos auxiliado. Teve o auxilio da Lei Aldir Blanc, que já foi uma grande contribuição, aprovado inclusive com o apoio de deputados do Rio Grande do Norte, a exemplo de Natália Bonavides (PT). Mas depois que a lei foi posta em prática, a gestão de algumas cidades não soube lidar com esse prêmio. Às vezes você ver que eles fazem um concurso, alguma coisa para ter uma certa competição, então colocar as pessoas para competir por alguma coisa, não sou de acordo. Era para distribuir tipo um auxílio emergencial. Era pra ter feito um estudo, um cadastro de pessoas e auxiliar com isso porque muita gente está dependendo disso para sobrevivência. Sou privilegiado porque ainda moro com meus pais. Então, eu cobraria mais dos gestores esse humanismo na hora de distribuir essa renda.

PRN – A prefeitura vai realizar o Mossoró Cidade Junina virtual. Qual a sua expectativa em relação ao evento para a classe artística?

SR – Eu vi o edital e é um edital amplo, que contempla muita gente, mas ainda assim é muito pouco porque é um evento que acontece uma vez por ano apenas. Então uma vez por ano você fazer uma política dessas em meio a tanta gente passando fome é complicado, mas é um avanço. É um avanço muito grande, vou concorrer e espero ser contemplado porque entre os membros da minha equipe tem gente passando dificuldades. Porque estão sem trabalhar por causa da pandemia.

PRN – Durante a pandemia, uma das alternativas encontradas pelos artistas foram as lives. Você chegou a fazer alguma? Teve algum retorno?

SR – Fiz algumas, mas não eu realizando porque realizar uma live é meio complicado porque mexe com toda uma logística, de conexão de internet, tem que ter uma internet boa, tem que ter alguém que auxilie no áudio, na luz, então fica-se sempre à mercê de algumas instituições que fazem. Participei no ano passado de uma live do Mossoró Cidade Junina, feita pela prefeitura de Mossoró, que fez toda a logística, contratou uma empresa. Fizemos uma contando com a solidariedade do povo mossoroense e o retorno não foi muito bom. Participamos de uma live em Natal, numa realização da Unimed, e essa já foi um pouco melhor porque tivemos um auxílio já garantido, porque quando é concorrendo em editais aí já tem o dinheiro certo. E faço lives no Instagram porque o Instagram é uma plataforma mais fácil de você interagir com o público. Eu participo no Instagram porque estou em casa e na hora que quero fazer uma live eu vou lá e faço, aí muita gente ajuda, deixo o pix lá, as pessoas contribuem. Estou fazendo pelo menos uma vez por semana, às vezes duas, geralmente às segundas e quintas-feiras. Quem tiver interesse de ajudar o artista pode ir lá, às segundas e quintas-feiras, a partir das 8h, a gente está lá. Procure por Severo Ricardo.

PRN – Você criou uma espécie de show delivery. Conte-nos como funciona?

SR –Essa proposta surgiu justamente por causa da pandemia. A gente tocava em barzinho, e geralmente essa era a maior renda que tínhamos, durante todo o ano fazíamos isso porque sempre tocamos nos finais de semana, e às vezes durante a semana mesmo. Com a pandemia, isso se acabou. Então, a partir daí, preparamos um formato de show pequeno, para aniversários, por exemplo, e passamos a tocar nesse segmento. O tempo que a gente toa a gente reduziu a no máximo uma hora de apresentação, e estou tocando. Geralmente cobro bem barato, porque é um valor apenas para mm. Então é a reinvenção. O músico, o artista, precisa se reinventar. Então a gente lançou essa proposta de formato mais curto para atender a uma demanda pandêmica.

PRN – O Governo do Estado flexibilizou o funcionamento de algumas atividades, como a realização de música ao vivo em bares e restaurantes. É um bom alento?

SR – É um alento sim. Eu não vejo como uma coisa ruim, porque tem gente que critica por essa reabertura. Acho que a crítica é boa quando ela vem acompanhada de uma sugestão. Se as pessoas criticassem e apresentassem sugestões seria mais proveitoso. Mas a gente está sem trabalhar há muito tempo e muita gente não tem o que fazer a não ser tocar. Então, é importante ter o distanciamento, respeitar todas as regras, não abusar – porque tem muita gente que abusa – e não tem sido exageros nem dessas festas, mas a gente tem visto um número muito grande de aglomerações. Então os músicos também estão precisando trabalhar. Vejo o retorno dos barzinhos com bons olhos porque a gente sempre trabalhou de acordo com as regras, conforme nos é imposto, sempre com distanciamento, com poucas pessoas no palco. Em todos os locais em que eu toquei havia respeito às regras sanitárias. Vejo com bons olhos essa reabertura. Ademais, as pessoas deveriam criticar, mas apresentar soluções. Crítica sem solução são palavras ao vento, não resolve muita coisa não.

Piseiro é um gênero de ritmos nordestinos. Isso eu comparo ao estouro do baião, com Luiz Gonzaga na década de 40. 

PRN – Apesar de novo, você fez uma escolha musical diferente da maioria das pessoas de sua idade. Por que a predileção por forró?

SR – Hoje, a internet nos mostra todas as opções. Antigamente, a gente tinha poucos veículos de comunicação e ficava muito à mercê daquilo que a mídia nos trazia e a mídia dá sempre essa massificação ao que é pop. Com a internet, hoje, os grandes grupos ficaram mais restritos e deu abertura para que outros pequenos grupos que geralmente não são do eixo Sul-Sudeste, trazer um pouco da sua verdade também. Um exemplo disso é o forró, que tá explodido hoje num gênero chamado piseiro, que é oriundo do forró. É um gênero nordestino e que hoje contempla 4 músicas no cenário mundial. Das 200 músicas mais escutadas hoje no mundo, 3 são oriundas desse novo gênero, que surgiu com a internet. Piseiro é um gênero de ritmos nordestinos. Isso eu comparo ao estouro do baião, com Luiz Gonzaga na década de 40.  Foi um gênero novo que dominou todos o mercado fonográfico do Brasil da década de 40 até a década de 50. Esse foi o primeiro estouro do forró. O segundo estouro foi com o final  também do Gonzagão, que foi o forró universitário, que foi o movimento de nordestinos que moravam no Sudeste e conseguiram fazer um público muito grande no Sudeste e deram uma segunda explosão do forró. O forró universitário esteve muito frequente até mesmo com trios aqui, como o Trio Mossoró, que pouca gente conhece, mas que fez muito sucesso e que gravou músicas como “Carcará”, que primeiro foi gravada pelo Trio Mossoró e depois por Maria Bethânia. O próprio Carlos André (do Trio Mossoró) foi um grande produtor – ele ainda continua produzindo – é um grande compositor. Os três membros do Trio Mossoró estão vivos: Carlos André, Carlos Mossoró e a Ermelinda. São pessoas que fazem parte do cenário nacional e pouca gente aqui conhece. Eles tiveram que sair porque é sempre assim: o santo de casa nunca faz milagre. Tem que sair para as pessoas darem valor. O terceiro estouro foi o forró eletrônico, que teve grande amplitude com a Somzom Sat, do grupo Emanoel Gurgel. O forró eletrônico que a gente tem hoje, a exemplo de Wesley Safadão, Calcinha Preta e Xand Avião, ele nasceu da introdução da rede de satélite, da Somzom Sat. Então acredito que hoje o forró deu o quarto estouro com o piseiro. Vejo hoje o piseiro como a quarta geração do forró. O forró é uma vertente que nunca sai de moda, assim como o samba, que tem momentos de ostracismo, mas que sempre ressurge. É como se fosse uma fênix. Então me interesso muito por forró porque eu escutei sempre numa cidade chamada Olho D´Água do Borges, que tem um São João muito característico, muito tradicional, até mais que Mossoró. Acredito que o São João de Mossoró começa a não ter essa tradicionalidade a partir da década de 90. Na minha cidade eu não lembro de nenhum ano que não teve São João, salvo ano passado por causa da pandemia. Mas sempre teve São João, sempre teve sanfoneiro tocando, daí que no meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso, de Música) que eu suponho que o São João da minha cidade contribuiu bastante para que jovens passassem a se interessar por forró e começassem a tocar sanfona. É tanto que minha cidade, Olho D´Água do Borges, é conhecida como uma terra de sanfoneiros. Lá a gente tem Dorgival Dantas, que representa o Brasil levantando a bandeira do forró e da sanfona; Giannini (Alencar) e outros que levaram o forró a sério e tem a sanfona no sangue.

PRN – Quais as suas expetativas para os próximos dias?

SR – Que a gente tenha acesso a vacina e que possa não voltar ao normal, mas voltar a um novo normal. Ter a consciência de que a gente pode pegar o vírus, e pode ficar numa UTI, mas que a gente possa tocar a vida. A gente tem que aprender a surfar a onda. Veio a primeira onda e a gente ficou olhando ela devastar tudo. Veio a segunda e a gente já olha com mais cuidado e a terceira a gente tem que vir surfando nela. Tem que aprender a surfar, e aprender a trabalhar, aprender a conviver com esse vírus, que é triste, mas a gente vai passar por ele.

PRN – Espaço para suas observações finais.

SR – Gostaria de agradecer pelo espaço. A gente fica muito feliz com o trabalho reconhecido. E que as pessoas ouçam a gente porque os músicos são, muitas vezes, ignorados. Até nos barzinhos que a gente toca, a gente tem a função só de tocar, as pessoas pensam que a gente é um CD. Mas o músico tem muito a falar, tanto que são poucos os que tem receio ou um pouco de vergonha de falar, mas as pessoas tem que ouvir os músicos, a classe artística. Saber o que eles necessitam. É uma classe que não tem uma organização, mas que precisa falar, porque é uma classe que tem um papel fundamental na sociedade.

 

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