Entrevista

Conversa da Semana com Pedro Chaves

O policial civil Pedro Paulo Chaves Mattos, o Pedro Chê, viu toda a sua vida mudar de rumo depois que decidiu coordenar  o Movimento Policiais Antifascimo no Rio Grande do Norte. Além de estar na lista dos servidores públicos monitorados pelo Governo Federal, ele teve que enfrentar um inquérito aberto pelo Ministério Público (MP/RN) para investigar as ações do grupo. Natural de Recife (PE) e radicado em Natal, onde atua na Polícia Civil há 8 anos, Pedro Chê, que também é membro do membro do Movimento Nacional de Favelas e Periferias, defende um novo olhar da e para a polícia como um todo. Saiba mais sobre o movimento e as ideias de Pedro Chê nessa Conversa da Semana:

Por Márcio Alexandre

PORTAL DO RN – O que é o movimento policiais antifascismo?

PEDRO CHAVES – Somos um movimento integrado por policiais que pedem por uma segurança pública diferente, mais eficiente, profissional, em que a polícia seja respeitada e não temida, que tenhamos uma polícia que compreende os direitos do cidadão e não atue diferente em virtude de onde a pessoa mora, cor da pele, condição sexual e etc. Onde também o policial seja visto como um cidadão, que possa exercer sua cidadania da mesma forma que nos é permitida.

PRN –O movimento gerou algumas reações do governo. Vocês esperavam isso?

PC – Se fosse um governo federal, mesmo que antipático às nossas ideias, mas tivesse o mínimo de zelo às instituições e aos direitos, pensaríamos diferente, mas com as falas e recursos que sabemos que o Governo Bolsonaro trabalha, não nos surpreendeu, na verdade a surpresa estava na incompetência deles ao deixar vazar algo do tipo, mas que eles monitoram ilegalmente opositores, sabíamos que essa era uma realidade muito provável.

PRN – O governo federal produziu um relatório com informações de servidores que estão combatendo o fascismo. Ao criar esse documento, o governo se assume fascista?

PC – Pelo menos em intenções se assume fascistas, assim como as pessoas que defendem esse tipo de prática, seja por ignorância, ou malícia. Isso o que aconteceu é contra a lei e ponto final. Quem defende isso, defende um Estado que atue fora da lei para perseguir pessoas sob o motivo de quem são, e não do que fizeram, isso não é outra coisa se não uso da máquina estatal para fins políticos, o que é comum em regimes fascistas.

Somos muito perseguidos, por que pedimos aos policiais que a lei seja a a sua bússola, e não o seu arbítrio.

PRN – Chamou a atenção que o Ministério Público tenha instituído um inquérito para investigar esse movimento. Tinha algo de irregular nas ações do movimento?

PC – Não, tanto que foi um pedido de investigações baseado em profundo preconceito e má vontade. Quem pediu isso não nos conhecia, não conhecia nossa história, não conhece nossas ações e atuou sob claro vício ideológico. Tem pessoas que acham direito perseguir quem pense diferente, e foi o que aconteceu aqui no Rio Grande do Norte. Mas, complementando, não há absolutamente nada para eles acharem, exercemos apenas a nossa condição de agentes políticos (igual a todos os cidadãos brasileiros), e nossa defesa, inclusive é pela legalidade, por isso inclusive somos muito perseguidos, por que pedimos aos policiais que a lei seja a a sua bússola, e não o seu arbítrio.

PRN – O grupo segue com atividades? Como está a situação?

PC – Segue a todo vapor! Não alteramos nada, continuamos buscando a discussão política, apresentando propostas para a seguranças pública e dando nossas opiniões, era o que fazíamos, é o que fazemos, será também no futuro.

PRN – A seu ver, há uma tentativa do governo brasileiro de silenciar aqueles que discordam do presidente?

PC – Claramente, a imprensa mesmo está sendo alvo disso, pessoas estão sendo ameaçadas por apoiadores do governo muitas vezes instigados por falas agressivas do próprio presidente. Há uso de instituições em ações sem justificativa para tentar pressionar pessoas a retrocederem. Esse não é um governo totalitário ou ditatorial, claro que não, mas é dirigido por pessoas que adorariam isso, e lutam por isso.

PRN – Qual o risco que corremos quando se percebe atos autoritários do governo e grande parcela da sociedade se mantém silente e as instituições e autoridades que deveram agir se mantém inertes?

PC – Acho que essa situação já foi pior, em virtude de algumas alinhamentos, algumas pessoa estavam aceitando tudo o que o governo fazia, isso aos poucos vai sendo desmanchado pois o que era bravata, viu-se que poderia ser uma realidade e isso afetaria os interesses dessas pessoas, instituições e classes. Por isso hoje há uma reação do STF, se não se posicionassem, poderiam eles verem a si mesmo sendo expulsos, dissolvidos enquanto instituição. Mas não nos enganemos, o que eles buscam do governo é apenas um ajuste de convivência, tendo este ainda bastante liberdade para agir, inclusive de forma ilegal contra pessoas que entendem como opositores.

Isso fortaleceu e muito a percepção dessa necessidade, da importância de ter alguém que faça o enfrentamento direito ao fascismo, inclusive nas instituições.

PRN – Esse episódio lhe estimulou a concorrer a um cargo eletivo?

PC – Não, pois já era um projeto do movimento levarmos essa discussão para a Câmara Municipal, mas isso fortaleceu e muito a percepção dessa necessidade, da importância de ter alguém que faça o enfrentamento direito ao fascismo, inclusive nas instituições.

PRN – O que você propõe aos eleitores nessa sua caminhada para chegar à Câmara Municipal de Natal?

PC – Proponho buscarmos uma sociedade que trate de forma justa seus cidadãos, com uma polícia que respeite o seu povo, e não ache certo, ofender, agredir, matar em alguns casos. Temos também uma ligação eterna com as populações de baixa renda, o nosso trabalho é voltado para eles, são eles quem morrem na grande maioria, e nossa militância, é uma militância pela vida, por menos mortes, menos medo e menos violência. Temos então um compromisso com as questões populares das formas mais diversas, pois segurança pública está longe de ser resumida ao serviço policial, é também saúde, educação, lazer, emprego, renda, mobilidade e etc.

PRN – Caso seja eleito, você pretende continuar encampando ações antifascistas?

PC – Claro! Fugir disso seria negar nossa história, nosso trabalho, nosso valor. Temos uma fala especial, muita gente fala em fascismo, mas fala por cima, ou quando convém para ganhar simpatia, mas a gente conhece muito bem a face, e sabemos dos horrores e ao nos levantarmos, é um caminho que não dá para retroceder, até por que o fascismo, e pessoas fascistas, já sabem muito bem quem somos e o que significamos: pessoas que estão aqui para frear os interesses delas, que muitas vezes, inclusive, lucram com a morte, ou chantageiam pela vida.

PRN – Como fazer para que a sociedade abra os olhos para esse momento de destruição de direitos, de desrespeito às leis e à Constituição por parte principalmente de quem deveria defendê-las?

PC – Uma coisa que falta hoje na sociedade brasileira é amor, não o amor piegas, mas o amor a si mesmo como cidadão, o amor ao país, o amor ao outro que estão ao seu lado. Hoje queremos resolver nossos problemas através das armas do ódio, literalmente, e não está dando certo, já se sabia que não iria. A retirada de direitos é fruto de ódio, de desamor, desconsideração, é achar que um trabalhador assalariado com direitos afeta o bem estar de uma empresa, que uma pessoa que deveria estar aposentada deveria ter seu resto de vitalidade sugado em benefício de algo que nem conhecemos e que passamos longe, nosso ódio a nós mesmos, faz com quem nos entreguemos de bandeja às pessoas que lucram com isso, queremos o pior para o outro, mas isso retorna para nós e nos amarguramos e isso é um ciclo, pois voltamos a buscar o prejuízo do outro, o que vai retornar como prejuízo nosso, temos que abandonar isso e buscarmos o benefício do outro, pois ele também irá retornar para nós.

PRN – Deixe sua mensagem final.

PC – Nossa candidatura tem valor nacional, não por mim, Pedro Chê, mas pela nossa causa, será uma mensagem que Natal e outras cidades passarão caso candidatos do movimento de policiais antifascismo sejam eleitos: que se pare com tantas mortes, com tanta violência, e um pedido por uma polícia, inteligente, eficiente e profissional, que claro trará benefícios para os próprios policiais, mas tendo um foco central na periferia, em assistir essas pessoas da dignidade que há em ser tratado como cidadão, em todo e qualquer momento.

 

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