Entrevista

Conversa da semana com Herbênia Ferreira

Criado há 33 anos, o Hospital Regional Tarcísio Maia (HRTM) referência na região oeste no atendimento de urgência e emergência, convive com reclamações de superlotação. A presença de pacientes em seus corredores à espera de atendimento constituiu-se, ao longo do tempo, em imagem a depor contra a instituição. Por mais que todos sempre tenham direcionado críticas ao hospital, é para lá que todos vão em busca de atendimento médico. E não apenas de urgência e emergência. E é essa busca por atendimentos gerais que o HRTM vê sua capacidade exaurida. Gente demais para uma estrutura que não foi pensada para dar conta de todos os tipos de pacientes. Até mesmo pacientes que necessitam de procedimentos simples, a ser ofertado numa Unidade Básica de Saúde (BS) acorre ao HRTM. Atender a pacientes de outros Estados, como Ceará e Paraíba, também é fator que contribui para a superlotação. A nova gestão do hospital vem atuando para minimizar ou quem sabe até acabar com esses problemas. Na Conversa da Semana, a diretora do HRTM, assistente social Herbênia Ferreira, fala sobre fatores que provocam essa situação e o que tem sido feito para minimizá-la. Acompanhe:

Por Márcio Alexandre

PORTAL DO RN – A presença de pacientes nos corredores do hospital sempre foi questão recorrente no Hospital Regional Tarcísio Maia (HRTM). Por que isso acontece?

HERBÊNIA FERREIRA – O hospital sendo uma unidade de atendimento em urgência e emergência, único na cidade para atender Mossoró e região, ao longo de sua história, 33 anos desde sua fundação, nunca teve seu pronto socorro ampliado e reformado. Hoje o pronto socorro conta com 12 leitos para observação feminina e 16 leitos para observação masculina. Esse é um dado.
As enfermarias onde ficam os pacientes internados, em alguns momentos por estarem sem leitos de internamento, devido estarem lotadas, os pacientes que se encontram no pronto socorro aguardando um leito pra internamento, ficam dias aguardando, como já frisei, não temos hospital municipal em Mossoró para onde possamos internar pacientes de clínica médica. Então os pacientes vão chegando e tendo que aguardar no pronto socorro até que surja um leito para sair do pronto socorro e ficar internado na enfermaria. Essa situação é recorrente há décadas.

O paciente em grande parte por não ter tido o atendimento e acompanhamento na atenção primária termina agravando um quadro de diabetes e hipertensão, só pra citar exemplos, que após complicar seu estado de saúde precisa ser atendido na alta complexidade.

PRN – A falta de atendimento na rede básica também contribui para essa situação?

HF – Sim. Nesse aspecto, um dado a se destacar: é a linha de cuidados na atenção básica que não atende eficazmente e o paciente em grande parte por não ter tido o atendimento e acompanhamento na atenção primária termina agravando um quadro de diabetes e hipertensão, só pra citar exemplos, que após complicar seu estado de saúde precisa ser atendido na alta complexidade.

PRN – Que outra carência de atendimento da rede básica faz com que os pacientes tenham que recorrer ao Tarcísio Maia?

HF – O Hospital Regional Tarcísio Maia é uma unidade com perfil de atendimento em urgência e emergência, mas muitos casos que ainda hoje precisam ser internados tem que ficar no HRTM pois o município não dispõe de outra unidade que possa absorver esses pacientes.

PRN – A direção do hospital tem alguma estatística que aponte que parte dos pacientes que atende deveria ter sido encaminhado para um atendimento em uma unidade de saúde?

HF – Quando a Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sesap), na gestão de Cipriano Maia, veio avaliar as condições do hospital, juntamente conosco, foram levantados dados numéricos e estatísticos, mostrando que o HRTM atendia muitos casos que deveriam ser atendidos na atenção básica e média complexidade.

PRF – O que esses dados revelaram?

HF – Os números mostraram que de janeiro a julho deste ano, o HRTM realizou 15.729 atendimentos e que desse total, 10.047 foram atendimentos realizados a pessoas que deveriam ter sido atendidas na rede básica, ou seja nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou nas Unidades de Prontos Atendimento (UPA´s). Veja só: se o hospital tivesse realizado apenas os atendimentos que são de sua competência, o número de atendimentos teria sido de apenas 5.682. Esse é um número que revela a demanda para a qual o hospital está realmente preparado. Na prática, a presença de pacientes que não são de sua competência faz com que o hospital tenha uma demanda quase duas vezes superior a que ele deveria atender.

Hoje o HRTM atende apenas pacientes regulados pelas UPAs ou outras unidades hospitalares da região e que estejam dentro do perfil da urgência e emergência.

PRN – Que medidas tem sido tomadas para minimizar esses problemas de superlotação?

HF – Então, alguns processos de trabalho foram conduzidos para que o hospital assumisse apenas seu papel de atendimento a alta complexidade em urgência e emergência. Hoje o HRTM atende apenas pacientes regulados pelas UPAs ou outras unidades hospitalares da região e que estejam dentro do perfil da urgência e emergência.

PRN – Mesmo com essas medidas, ainda há quem aponte que o problema de pacientes nos corredores e recorrente. Essa informação procede?

HF – Não há mais pacientes nos corredores com a frequência que se tinha antes e por longos períodos de tempo. Há momentos que o pronto socorro ainda fica superlotado. Como falei, a quantidade de leitos existentes no pronto socorro nem sempre consegue dar vazão em casos de se chegar muitas urgências ao longo do dia ou da noite e assim como aconteceu nos últimos dias voltamos a ter pacientes nos corredores. Isso acontece principalmente devido à quantidade de acidentados e também pacientes graves de clínica médica, fazendo com que o pronto socorro volte a ter superlotação.

PRN – O hospital também tem trabalhado para que se diminua a hospitalização. O que isso traz de positivo?   

HF – Isso ocasiona uma maior rotatividade no uso dos leitos nas enfermarias. Com o suporte dos leitos de retaguarda do Hospital Rafael Fernandes, vamos direcionando alguns casos para lá. Além disso, com o médico desospitalizador, vai se trabalhando no sentido de agilizar o fluxo de pacientes afim de desafogar o pronto socorro.

PRN – Mais do que conseguir que haja um esvaziamento dos corredores, o grande desafio é tornar isso uma regra. Como fazer então?

HF – O maior desafio, realmente, é manter a sustentabilidade dessa realidade. Para isso, é necessário
que todos se envolvam em seus setores na rearticulação dos processos de trabalho, principalmente
procurando sempre agir em tempo hábil para a desospitalização do paciente. ajudando a regular o
fluxo e especialmente internalizando a ideia que o HRTM é hospital de urgência e emergência e em
sendo assim, não podemos continuar atendendo demanda de ambulatório que compete aos
municípios.

 

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