Entrevista

Conversa da Semana com Getúlio Vale

O bioquímico Getúlio Vale é um entusiasta do trabalho. Há mais de 30 anos comandando a principal rede de laboratórios de análises clínicas de Mossoró e região, Getúlio fala da expansão do Cacim com o mesmo otimismo de quem está começando. Ele é o entrevistado deste sábado e fala, na Conversa da Semana, sobre o que se precisa para melhorar o desenvolvimento da economia dos municípios do interior do Estado, os problemas que a falta de mobilidade urbanas trazem para o comércio de Mossoró e revela porque nunca quis disputar mandato eletivo apesar de integrar uma família com atuação de destaque na política local. Veja

Por Márcio Alexandre 

Portal do RN – Nos fale sobre como está o processo de expansão da rede CACIM.

Getúlio Vale – Na realidade, a expansão está bem. Como sempre temos feito desde o início, tem sido feita com cuidado, com pé no chão, com a qualidade necessária. A gente sempre teve o cuidado de nossos postos em outras cidades e mesmo em Mossoró, não serem diferentes da sede. Sempre estamos inaugurando um posto ou dois. Esse ano estamos inaugurando o do Santo Antônio. Estamos chegando ao décimo quinto, que ficará no final da 6 de Janeiro com a Zeca Cirilino, no Santo Antônio/Barrocas. Estamos ainda em Baraúna, Areia Branca, Tibau, Icapuí e também nos seguintes bairros de Mossoró: Nova Mossoró, Sumaré, Abolição IV, Sumaré, Alto da Conceição, Centro (na Nossa Clínica, na Clínica Francisco Duarte), e Vingt Rosado.

PRN – Por que a escolha desses locais?

GV –  Então, a escolha desses pontos estratégicos, na nossa visão foi que como Mossoró está crescendo, e para evitar a locomoção de pessoas para o Centro para fazer exames, e nós vimos que, como o Alto de São Manoel está se povoando mais, como outros bairros também, então seria importante irmos ao encontro da população. Tem dado certo, com o mesmo carinho, o mesmo atendimento, a mesma qualidade, estamos chegando a esses pontos. Graças a Deus temos dado sorte, porque o pessoal até hoje gosta muito do nosso trabalho porque sempre procuramos fazer da melhor qualidade possível, com nossa equipe, nosso pessoal.

PRN – Qual o corpo funcional do CACIM atualmente?

GV –  Estamos com 108 funcionários, ou seja, 108 empregos diretos, o que dá mais de 500 empregos indiretos. Então, nesse trabalho, temos espalhados em todos os postos as pessoas certas nos lugares certos.

PRN – Quando presidiu a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) você já demonstrava preocupação com a questão da mobilidade urbana de Mossoró. Essa ideia de expandir a rede teve a intenção também de dar comodidade às pessoas que buscam os serviços do Cacim?

GV – Aqui nós tivemos a sorte de adquirirmos o terreno aí de frente e construirmos esse estacionamento. Pra você ter uma ideia, trafega por aqui 200 carros por dia. Onde esses veículos iriam estacionar? Onde ficaria essa fila de carros? Então tivemos essa sorte e fizemos o estacionamento para nossos clientes, gratuito. Vendo essa dificuldade de estacionamento, nós, como presidente da CDL, fizemos um trabalho junto à Secretaria de Mobilidade Urbana de fazermos a zona azul. Trabalhamos, fizemos o desenho, a estrutura, mas não foi possível implantá-la. A prefeita, sentindo essa necessidade, ela fez as paradas de 30 minutos. Você tem hoje vários locais no centro da cidade onde você liga o pisca-alerta e pode passar 30 minutos, tempo suficiente para comprar qualquer artigo nas lojas do Centro. Se não fosse isso estaria muito ruim porque nós não temos grandes locais com estacionamentos – temos alguns – mas para absorver a quantidade de veículos que se deslocam  para o Centro de Mossoró. Então, pensando nisso, como presidente da CDL, nos comunicamos com a prefeitura, que eles fizessem algo para que os comerciantes do Centro não perdessem suas vendas. Por que quer queira ou não, e hoje nós sabemos que os bairros estão supridos de lojas, supermercados, e se você quiser vir ao centro comprar qualquer coisa você tem que escolher o horário porque em certos momentos está muito difícil estacionar. Então foi pensando nisso que a minha gestão focou mais na mobilidade urbana e sentindo isso nós tiramos grande parte do fluxo aqui da sede da Pedro Velho e levamos para os bairros e estamos bem satisfeitos e acredito que a população também porque estão fazendo os exames perto de suas casas, não tem custo, não tem engarrafamento.

Eu acho que o que o poder público precisa é dar condições de mobilidade e infraestrutura e deixar que o resto o empresário faz.

PRN – Como fundador e gestor de uma empresa genuinamente mossoroense, como você vê a política municipal de apoio às empresas da cidade?

GV – Eu acho que o que o poder público precisa é dar condições de mobilidade e infraestrutura e deixar que o resto o empresário faz. Não posso reclamar, porque não tenho nenhum empecilho a não ser esse problema da mobilidade urbana no centro da cidade, que demorou muito mas já está tendo essas vagas de 30 minutos, o que já melhorou bastante. Mas sobre o poder público a gente pede sempre: não atrapalhando já está bom demais. Quer dizer: nesse aspecto, não tenho grandes problemas, sempre fui bem atendido, mas também trabalhamos dentro das normas não temos nada que seja por favores, é tudo dentro da lei. Mudando para o âmbito estadual, acho que o governo tem que visualizar que o interior tem que ser beneficiado com indústria, para criar emprego, pra empregar mais gente, porque só o setor de serviço é muito pouco. O turismo é uma fonte de renda também, mas até hoje se fala no projeto da costa branca, que não sai do papel. Faz 20 e tantos anos que fazem reunião e não vejo nada concreto. Então acredito que o poder municipal, com a ajuda do poder público estadual e federal, tem uma perspectiva muito boa, tanto na área do turismo como na questão da volta dos poços maduros, que já tem empresas se instalando por aqui. O sal também, pegando melhor preço, acredito que Mossoró vai melhorar. Como sou muito otimista acredito que até o ano que vem nós vamos ter uma economia mais pujante em Mossoró. Em razão também das mudanças do governo federal, das reformas que estão sendo feitas. Tem que ter essas reformas porque tudo foi feito para 40, 50 anos atrás quando na nossa idade as pessoas já eram tidas como velhas e hoje nós estamos no pique aqui para trabalhar e desenvolver a nossa cidade e, consequentemente, o Estado e o país.

PRN – Quais os avanços que tivemos na Medicina, principalmente na Biomedicina, e como isso contribuiu para a melhoria da qualidade da saúde das pessoas?

GV – Olha, quer queira quer não, eu me lembro que há algum tempo atrás você ia fazer uma ressonância, você ia para outras cidades, Natal, Fortaleza e até João Pessoa. Hoje, Mossoró já está com uma equipe de médicos muito boa, são bons profissionais. Muitos médicos qualificados. Antigamente você pegava o clínico geral, que fazia tudo. Hoje temos o clínico geral, que é muito importante, mas temos os especialistas em cada área, o médico de garganta, retina, de próstata, e isso é muito importante porque a qualidade, o conhecimento desse profissional, especificamente, já é bem mais acurado de que quem não está nessas áreas específicas. Na nossa área, a tecnologia nos ajudou bastante. Exames que mandávamos para fora, estamos fazendo em Mossoró, exames que faziam furando uma criança, por exemplo, hoje fazemos pelo sopro. Automação em todos os setores. Lógico, se não tivermos um profissional por trás dessa tecnologia, também não funciona, mas a rapidez com que o resultado é liberado, é diferente. Então a tecnologia nessa área veio pra ajudar. Não a tecnologia para o whatsapp, por exemplo, que tirou o contato direto entre as pessoas. Falamos com quem está distante e deixando de falar com quem está mais próximo. Quer queira quer não, é por meio da tecnologia que vamos descobrindo novas doenças, novos tratamentos. Não é à toa que hoje você tem robô para fazer uma cirurgia, e isso é importante porque evita os danos de, antigamente, ter que abrir o tórax da pessoa pra fazer uma cirurgia. Hoje você faz através de um catéter, e isso é muito importante. Opera não só a cabeça, mas o coração, a fígado, rins.

 

Mas eu não tenho aquela paciência de não dizer a verdade.

PRN – Vamos falar um pouco de assunto. Você integra uma família com forte atuação política.  A despeito disso, nunca quis enfrentar o teste das urnas. Por que essa decisão tão firme?

GV – Eu já sofri muito com política. Eu tenho um irmão que foi vereador por mais de 20 anos. Uma cunhada que também foi e por último tem Genivan (Vale, irmão, ex-vereador). Nós viemos de uma família muito humilde. Mas muito honesta, muito direita, E a política, eu vejo muito dizer: o cabra tem que engolir sapo, o cabra tem que fazer isso, tem que fazer aquilo. Acho que meus irmão se saíram muito bem na política, deram seu recado. Mas eu não tenho aquela paciência de não dizer a verdade. Não tenho a paciência de dizer que faço e não faço. Eu não posso prometer e não cumprir. Eu tenho um princípio que aprendi com meu velho pai: palavra dada é palavra cumprida. E eu sei que por circunstâncias inerentes à política, ninguém pode fazer isso. Por exemplo: marcar com você às 14h e chegar às 16h e o político tem que acontecer isso por que acontecem ´n´ coisas. Eu sei que eu me estressaria demais. Então eu nunca enveredei por esse lado porque meu princípio de organização, de trabalho, de cumprir horários, ele é muito rígido e eu sei que não mudaria, então para não ter desgaste eu preferi apoiar meus irmãos. E digo muito a eles: foi linda a atuação deles. Joalba, depois de 20 anos na política você não viu nenhum escândalo dele. Fátima (esposa de Joalba), foi outra também. Genivan passou 8 anos muito bem, mas o povo não quis e eu acho que o povo está certo. Eu acredito que ele estava fazendo a coisa correta, não sei se era aquilo que o povo queria. Eu acredito que na política realmente tem que saber dizer um não, tem que fazer  modificações no seu comportamento, e eu não mudaria de jeito nenhum.

PRN – Você tem uma atuação muito focada na gestão de seus negócios e é um empreendedor de sucesso. Que conselhos você daria para quem está querendo empreender hoje?

GV – Eu aprendi ao longo da minha vida que você só sobre na vida com trabalho, trabalho, trabalho, qualidade, honestidade, simplicidade. E sempre saber que a escada não se sobe nem do meio nem do fim, se sobe do primeiro degrau. É botar o pé no primeiro degrau, olhar se ela está segura e só subir o o segundo quando souber que o primeiro ficou firme. O conselho que digo é que nunca desista. Nós passamos por muitos perrengues, aperreios. Então sempre pautado nesse trabalho de ir devagar e sempre que chegamos ao sucesso. Não só eu, mas meu irmão Juarez Vale, Genivan; nossa irmã, que tem o colégio. A todos nós – somos de uma família de 15 irmãos vivos – nosso pai nos ensinou: tenham cuidado no que fazem para que depois não tenham vergonha de olhar para trás. Sempre olhem para frente com parcimônia, cuidado, honestidade. Então acho que o sucesso de qualquer empreendedor é a vontade e gostar do que faz. Eu já tenho 40 anos de formado, mais de 30 de Cacim, mas eu acordo todo dia de manhã com  vontade de vir trabalhar. Eu não tenho preguiça, eu gosto do que faço. Você tem que escolher algo que você vai gostar de fazer. Eu só vou para casa para almoçar e dormir.

Quando chegamos em Mossoró nós passamos muitas dificuldades, e foram pessoas de bem que nos ajudaram, que nos deram a mão.

PRN – Com tanto tempo já dedicado ao trabalho, o que o motiva a estar pensando na expansão dos negócios, a estar sempre na ativa com tanto entusiasmo?

GV – Dentro do contexto do desemprego o que mais me alegra é poder ajudar uma outra família porque a gente abre um posto aqui e bota mais um ou dois funcionários, é a satisfação de ele estar trabalhando numa empresa que ele sabe que não é o seu patrão, mais um colaborador junto com ele. Eu tenho uma equipe que trabalha conosco que tenho certeza que gosta de vir trabalhar, então o que mais me impulsiona, quer queira quer não, ter que ter o retorno financeiro, mas a satisfação de você pode estar servindo a alguém de bem, com qualidade, com prazer, isso me empolga bastante e principalmente ajudar a alguém porque eu sei que fui ajudado. Quando chegamos em Mossoró nós passamos muitas dificuldades, e foram pessoas de bem que nos ajudaram, que nos deram a mão. Quando ajudo alguém eu fico satisfeito porque sei que aquela pessoa vai agradecer ajudando a outro, e a outro. Se todos nós nos preocupássemos um pouco com o próximo teríamos condições de ter um Brasil melhor. Sabemos que tem pessoas hoje que tem muita coisa mas não tem no coração aquele dom de distribuir um pouco. Ás vezes não é nem dar alguma coisa, mas participar da vida de alguém.

PRN – Fique à vontade para suas palavras finais.

GV – Só agradecer a vocês do Portal do RN. Dizer que é muito importante o trabalho, conheço vocês e que continuem fazendo esse trabalho. Já conheço há muitos anos. Sei que não fazem jornalismo por interesse ou por raiva, que divulgam a verdade, e sempre que é dita a verdade que não é para incomodar ninguém e que agradeço a oportunidade de estar levando para Mossoró e o Rio Grande do Norte nossa palavra do dia a dia, do nosso trabalho, do que penso da política. Só tenho a agradecer e dizer a todo Mossoró que nós estamos conscientes de que Mossoró vai melhorar, o Rio Grande do Norte vai melhorar, o Brasil vai melhorar. Só precisa: trabalho, trabalho e trabalho.

 

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