Entrevista

Conversa da Semana com Alcivan Gama

O início do período chuvoso traz consigo a preocupação com possíveis acidentes que o acúmulo de águas pode causar em determinadas áreas da cidade. É nessa época do ano que a Defesa Civil atua com mais intensidade para prevenir possíveis desastres. O coordenador da Defesa Civil em Mossoró, Alcivan Gama, fala, nessa Conversa da Semana, sobre como está o mapeamento de áreas de risco na cidade, a situação dos canais de captação de águas e o monitoramento das barragens. Alcivan aponta ainda sobre quais as atribuições da Defesa Civil e o que a população deve fazer para ajudar no trabalho de prevenção. Veja na íntegra:

Por Márcio Alexandre

O RN – O nome da Defesa Civil sempre parece com maior relevo nesses períodos de inverno. Por que isso acontece? As pessoas ainda não tem um entendimento amplo e claro do papel da Defesa Civil?

ALCIVAN GAMA – A Defesa Civil trabalha com a prevenção de desastres, quaisquer tipos de desastres. Na verdade, esses desastres podem ser quaisquer um daqueles listados no Código Brasileiro de Desastres (COBRADE). A população, na verdade, ela associa muito as Defesas Civis à questão da prevenção nos tempos de chuvas, mas a nossa Defesa Civil, principalmente do Nordeste, trabalha muito nos períodos de seca, porque a falta d´água também é um tipo de desastre.  Realmente, a população só conhece mais a Defesa Civil quando chegam esses períodos de chuva.

PRN – Aqui em Mossoró vocês tem atuado nessa área de convivência com a seca?

AG – Temos sim, inclusive no momento nós estamos com a Operação Carro-Pipa, que é coordenada pela Defesa Civil e pelo Exército Brasileiro. Nós temos 39 localidades que são atendidas por essa operação e que mesmo com o período de chuvas, a questão da seca ainda permanece porque essas localidades não tem um sistema de captação de água. Então a Defesa Civil precisa continuar coordenando essa distribuição de água mesmo no período de chuvas.

PRN – E com o início do período chuvoso, quais são as situações que, pela experiência de vocês, já preocupam?

AG – Antes mesmo do período das chuvas nós passamos a monitorar as áreas de risco, principalmente na região ribeirinhas, porque se chover forte em Mossoró e se chover forte na área dos municípios de Apodi e Felipe Guerra, atinge diretamente os moradores da região ribeirinha, que moram próximo ao rio. Então desde o início de janeiro, com as notícias de previsão da chegada do inverno, nós passamos a monitorar esses pontos. E o que nó fizemos? Detectamos a presença de acúmulo de lixo, entulho, e foi preciso fazer um trabalho, em conjunto com nossa Secretaria de Infraestrutura, para que esses pontos fossem limpos para minimizar a possibilidade de enchentes, de cheias, naquelas proximidades com a chegada das chuvas. Na verdade, nós monitoramos mais de 30 pontos na região ribeirinha e dentro da cidade nós já vamos monitorando mais de 50 pontos de alagamentos. A maioria nó já conseguimos a solução junto à Secretaria Municipal da Infraestrutura, mas com a chegada das chuvas outros pontos vão surgindo. Ontem e hoje (essa entrevista feita quarta-feira, 3/3), nós já visitamos mais de 10 pontos, solicitado pela população. Em alguns, detectamos situações bem graves, com água que entra pelas salas e sai pelos quintais. Nós fizemos esse monitoramento, à tarde vamos concluir toda essa documentação e vamos encaminhar para a Secretaria de Infraestrutura para que eles tentem solucionar o mais rápido possível esses problemas encontrados nessas ruas.

PRN – O rio Mossoró é praticamente seco, sobretudo esse braço que passa sob as pontes Castelo Branco e Jerônimo Rosado. Mesmo assim, há alguma situação de população ribeirinha que precisa de atenção mais específica?

AG – Sim, porque com a chegada das chuvas nó não temos conhecimento sobre como está o assoreamento do rio. Na verdade, ele está seco, mas nós não sabemos qual a profundidade desse rio, poque existe o acúmulo de sedimentos, então é preciso ter um cuidado. Nós temos uma régua no Centro da cidade, numa das pontes do Centro, em que nós estamos atentos ao nível dessa régua. Se o nível da água chegar a determinado ponto que está marcado lá, a gente já emite o sinal de alerta para todos os moradores da região ribeirinha. Mas mesmo assim, antecipando a esse fato, nó não temos conhecimento de como está o assoreamento do rio, a gente tem que monitorar diariamente esses moradores das proximidades do leito do rio.

Nós temos detectado muitas construções irregulares, principalmente na região ribeirinha, mas também na própria zona urbana da cidade, na periferia especialmente.

PRN – No monitoramento que vocês fazem na área ribeirinha, vocês tem verificado o aumento de construções em áreas muito próximas do leito do rio?

AG – Nós temos detectado muitas construções irregulares, principalmente na região ribeirinha, mas também na própria zona urbana da cidade, na periferia especialmente. Algumas dessas construções tem sido ponto primordial para a questão de, numa chuva grande, ela preocupar os moradores ao redor. Por exemplo: no passado, uma senhora construiu um muro na sua residência e esse muro impede justamente uma passagem de água. Com a construção desse muro, criou-se a barreira e a água ficou represada. Então a maioria das casas que rodeavam a casa dessa pessoa acabou sendo alagada. Foi necessária a presença da Defesa Civil e com um trabalho no local conseguimos resolver esse problema.

PRN – O fato de a legislação da área, como o Código de Posturas, estar defasada tem contribuído para essa situação?

AG – Quanto à questão da legislação as secretarias responsáveis da prefeitura vem acompanhando essa situação, lógico, inclusive a pedido da Defesa Civil para que façam um trabalho de conscientização porque construção irregular põe em risco a vida, não somente de quem constrói, mas principalmente das pessoas que moram ao redor.

PRN – Entre as instituições que compõem a Defesa Civil está também o Corpo de Bombeiros. Como é que a população consegue diferenciar quando deve chamar a Defesa Civil e quando a situação necessita do trabalho apenas do Corpo de Bombeiros?

AG – É muito parecida a atuação do Corpo de Bombeiros com a da Defesa Civil. Só que a Defesa Civil trabalha principalmente com a prevenção de desastres. Então a população deve sinalizar para a Defesa Civil quando ela perceber principalmente uma situação em que haja uma possibilidade de um desastre. O Corpo de Bombeiros pode ir lá sim, mas a Defesa Civil vai buscar recursos, estudar o que está acontecendo e tentar prevenir para que esse desastre não aconteça.

PRN – O que mais preocupa vocês nesse trabalho de mapeamento das áreas?

AG – Um dos maiores problemas que nós identificamos nesse mapeamento que nós fizemos pela cidade de Mossoró é a questão do lixo jogado irregularmente na rua. Esse lixo jogado entope bueiro, entope canais, então todo aquele escoamento de água, ele fica prejudicado. Esse é então um dos principais pontos que nós focamos na conscientização da população: o descarte irregular de lixo, o descarte irregular de entulho, porque prejudica todo o sistema de captação de água da chuva da cidade.

PRN – Mossoró tem alguma área com erosão que represente risco de desabamento de terra?

AG – Nós, diferentes de outras cidades, de outros municípios do país, onde a Defesa Civil tem que atuar fazendo um mapeamento geral da cidade, principalmente Rio de Janeiro, onde os acidentes comuns são provocados pelos deslocamentos de massas, Mossoró não tem. Nosso maior problema é a elevação do nível do rio. Mas esse ano – assumimos a Defesa Civil em janeiro – fazendo um monitoramento pela cidade e pela zona rural, nós detectamos um processo erosivo na zona rural já bastante grave. Nós fomos chamados para ver um problema num determinado sítio, e chegando ao local nos deparamos com uns buracos próximos a uma residência e não dava para ver a profundidade deles, de tão profundo que eram, se tornavam escuros e não davam para ver nem com nossas lanternas. Tinha buraco de 10, 15 metros de profundidade. E não era só um buraco. O processo erosivo estava instalado. Numa diferença de 4 a 5 metros de distância nós nos deparamos com 3, 4 desses buracos. Tinha um com diâmetro de mais ou menos 4 a 5 metros. Os outros eram menores. Era uma situação bastante perigosa, inclusive nós fizemos um curso de mapeamento de áreas de risco geológico na cidade, e um dos pontos abordados foi justamente a possibilidade do surgimento desses processos erosivos. Esse curso foi ministrado pelo Serviço Geológico Nacional e nós encaminhamos essa situação também para eles darem uma estudada, e nos repassarem posteriormente quais as causas porque na verdade para saber a fundo o que causou aquele problema precisa de um estudo mais aprofundado. Diferente dos problemas que envolvem ciclos hidrológicos que sejam secas ou enchentes, esse foi o problema mais grave que nós encontramos na cidade de Mossoró.

Na realidade, o Canal do Teimosos nós encontramos bastante danificado.

PRN – Nós temos dois grandes canais de escoamento de águas de chuvas em Mossoró, que é o do Thermas e do Teimosos. Como está a situação deles e o que ocorreu com o canal do Teimosos?

AG – Na realidade, o Canal do Teimosos nós encontramos bastante danificado. Era uma situação de risco grave para aquela população e inclusive um dos pontos que nós encontramos perto desse canal tinha uma residência que já estava em processo de desabamento. Inclusive no ano passado a Defesa Civil já tinha atuado junto aos moradores dela para que eles saíssem daquele local porque estavam correndo risco. Esse ano, logo que assumimos, nós monitoramos esse ponto, vimos a gravidade desse problema e levamos a situação, com nível de urgência, para a Secretara de Infraestrutura e ela fez um trabalho de excelência naquele local, no Teimosos. Nós também monitoramos o Canal do Thermas, em toda a sua extensão, e em algumas partes desse canal a Infraestrutura já conseguiu atuar. Então, com esse serviço que já vem sendo feito, com essas limpezas dos canais com certeza se houver chuvas fortes, eu não digo que não aconteça problemas, mas esses problemas serão bem minimizados.

PRN – E em relação às pequenas barragens que existem na região de Mossoró, qual o diagnóstico? Há algo que preocupa?

AG – Não, por enquanto não, inclusive o nível da água ainda está abaixo dessas barragens. Nós estamos acompanhando, duas vezes por semana estamos indo a esses locais, fazendo as verificações para emitir o sinal de alerta em relação a essas barragens.

PRN – Espaço aberto para suas observações finais.

AG – O mais importante hoje em dia em relação á Defesa Civil é esclarecer à população para que nos ajude e uma das maiores ajudas, nesse período de chuvas, é de fazer o recolhimento do lixo de forma correta: coloque o lixo na rua, espera a coleta passar e não descarte irregularmente. Nem o lixo nem o entulho de construções porque isso vai prejudicar todos os moradores, toda a população.

Notícias semelhantes
Comentários
Loading...
Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support