POR: SYMARA TÂMARA (CADEIRA 3)
“Sou a mineira Guerreira/Filha e Ogum com Yansã”. Eis a expressão com a qual de autointitula Clara Nunes, a artista brasileira que buscou no sincretismo e na cultura afro-brasileira a essência para o desenvolvimento da sua arte. Mas a história não começa sob as bênçãos dos orixás, pelo menos não ainda. Clara Francisca Gonçalves nasceu em Paraopeba, região do município de Caetanópolis, interior do estado de Minas gerais, em 12 de agosto de 1942.
Filha caçula de uma família de oito irmãos, teve uma infância simples como a de qualquer criança interiorana. A veia artística herdara do pai violeiro e falecido nos primeiros anos de vida da pequena Clara, que desde os catorze anos trabalhava como tecelã numa fábrica de tecidos. Aos dezesseis, viu-se obrigada a fugir do interior mineiro em virtude de uma briga de um dos irmãos, gerada por causa dela, isto é, em defesa de sua honra.
Chega a Belo Horizonte e começa a trabalhar em outra fábrica de tecidos. A fábrica, que produzia eventos sociais para os funcionários, proporcionou oportunidade a Clara de mostrar seu talento. Começa a cantar com frequência em boates de belo Horizonte, vai para o rádio, era sua magnitude artística que já aflorava, e a todo vapor. Com a ajuda de seu então namorado, Aurino Araújo, irmão de Eduardo Araújo, que na época já era ícone da Jovem Guarda, segue então para o Rio de Janeiro. Seu relacionamento com Aurino durou cerca de dez anos e lhe rendeu a oportunidade de ingressar na carreira da música, uma vez que, através dele, pôde conhecer vários artistas, empresários, produtores e participar de diversos festivais de música.
Chegando ao Rio de Janeiro e depois de muito lutar por seu espaço, ela gravou alguns compactos, mas foi no ano de 1966 que ela gravou seu primeiro Long Play, intitulado “A voz adorável de Clara Nunes”, embora sendo comercialmente um fiasco para o show business, pois só havia vendido 3.100 cópias, o disco serviu para que produtores e ela entendessem que a ideia de a transformar em cantora de boleros e músicas românticas, de fato, não funcionaria para ela. Seria preciso algo mais, ela queria algo mais, mas onde buscar a sua verdadeira essência musical?
Foi nessa busca incessante que Clara grava “Você passa eu acho graça”, de autoria de Carlos Imperial e Ataufo Alves. Clara, que já era grande intérprete, independentemente do estilo, começava a sentir uma afinidade com o samba. Entra para a Portela, escola de samba carioca, e grava dois sambas-enredo “Misticismo da África ao Brasil” e “Festa para um rei negro”. A essa altura ela já dava mostras de que tinha uma forte tendência ao que se pode chamar de uma brasilidade musical, conhecia e abraçava a cultura brasileira como seu norte artístico, o que não era difícil para ela, que já seguia uma doutrina religiosa voltada para o espiritismo kardecista desde sua adolescência e havia frequentado centros de umbanda ao chegar no Rio de Janeiro, e uma das coisas que deveras a encantava eram os batuques dos atabaques dos ogãs. E sua espiritualidade está diretamente ligada ao seu fazer artístico. Surge aí a Clara Mestiça, ou melhor, afirmava-se como tal, com indumentária e repertório que remetiam a um novo conceito de música para ela: exaltar o legado deixado pelos povos afrodescendentes, até então pouco explorado e até de certa forma estigmatizado pela sociedade brasileira.
O orgulho étnico-místico de Clara se consolidava a partir de então em sua obra. Mas não era só. Suas raízes interioranas também se revelavam através de sua música, assim sabia muito bem se relacionar também com a música regionalista, gravando diversos clássicos de Luiz Gonzaga, Sivuca, entre outros compositores nordestinos, dando voz ao povo sofrido do Nordeste do Brasil. Clara ganhava a mídia, mais pelo seu carisma de bela e simpática mulher do que pelo enfrentamento ao sistema movido pela brutal ditadura militar. Ela não era disso, não se metia em questões políticas, sua preocupação era levar ao povo brasileiro seu canto, essa sim era sua redenção. E funcionava.
Apesar de sua comunicação com o samba, ela não se considerava sambista, era intérprete da música popular brasileira, e isto ela o fazia muito bem. Prender-se a rótulos não a explicaria como artista, até porque não havia perdido sua ingenuidade romântica de moça vinda do interior e todas as suas tradições e valores. Aí estava exatamente a essência do seu ser, humano e artístico.
Já no Rio de Janeiro, Clara, a convite de uma amiga, sobe o morro e visita um terreiro de candomblé, o fascínio foi inevitável, ao ser consultada por um pai de santo, este afirma que ela era “filha do Ogum com Yansã”. Ogum, orixá guerreiro, sendo no sincretismo representado pela figura também guerreira de São Jorge. Yansã, a senhora dos raios e trovões, dona de uma vaidade ligeiramente voluptuosa e com grande senso de justiça, é representada no sincretismo por Santa Bárbara. De fato, por crença ou mera coincidência, Clara tinha de seus ditos orixás de cabeça todas essas atribuições.
Sua vertente místico-musical fora explorada por sua assessoria, nada aparecia em vão, tudo era metodicamente trabalhado, nesse quesito teve em sua vida Adelzon Alves, que cuidou muito da parte empresarial e burocrática de sua carreira e com quem ainda manteve um romance. Era tudo o que ela precisava. Ele a ajudava a cada vez mais ter cuidado com tudo, inclusive com a escolha de repertório. Clara também dava voz ao lirismo dos poetas contemporâneos do Brasil, gravando clássicos de Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Caetano Veloso, João Nogueira e Chico Buarque, do qual viria a se tornar amiga.
Falando em poetas, no momento de namoro morno com Adelzon, Clara conhece Paulo César Pinheiro, ele, que fora o grande poeta de sua vida. Termina o romance com Adelzon e se rende à paixão por Paulo, e ele por ela. Casam-se tempos depois em cerimônia discreta. Ela já tinha uma carreira consolidada nacional e internacionalmente, levando ao mundo inteiro arte afro-brasileira.
Ele acrescenta uma dose de lirismo e requinte à obra dela com grandes composições que marcaram profundamente a MPB.
É chegado o fim da década de setenta, já era o ano de 1983 e Clara resolve se submeter a uma intervenção cirúrgica para remoção de varizes, que segundo ela, incomodavam muito. Ela desfrutava do sucesso do disco “Nação”, seu último disco gravado. Durante a cirurgia, Clara sofre uma reação alérgica à anestesia que lhe provoca uma anafilaxia (choque anafilático) levando-a a morte cerebral. Apesar das orações e preces por sua saúde vindas de todos os cantos do Brasil, após 28 dias exatamente no dia dois de abril de 1983, suas funções vitais se encerram, aos quarenta anos, com grande comoção do povo brasileiro.
Clara quebrou tabus e preconceitos, sua missão fora cumprida, é verdade. Desfez o rótulo de que mulher não vendia discos no Brasil. Levou o povo brasileiro à luz de sua própria identidade cultural, suas canções falavam de coisas simples, de pessoas simples, ao mesmo tempo em que se casava com a lírica e refinada expressão poética da pós-modernidade literária brasileira. Condensava tudo isso dentro de si e de sua arte como condensa a luz branca as sete cores do arco-íris, e como tal, em perfeita harmonia. A ponte Brasil-África encurtou-se depois dela. Era uma espiritualista nata, batia cabeça em terreiros de candomblé e umbanda, tomava passe em centro kardecista, tinha fé nos santos católicos, era absolutamente sincrética. A metáfora viva da grande e multicor nação brasileira.
[1] Discurso proferido como Elogio a Clara Nunes como patrona da cadeira de nº 3 ocupada por Symara Tâmara na Academia Feminina de Letras e Artes Mossoroense – AFLAM, em 19-11-2011, durante o recital “Clara Mestiça”, realizado no Memorial da Resistência, em Mossoró-RN, e publicado no livro Reflexões e fluxos sobre literatura (2022) pela autora.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FERNANDES, Vagner. Clara Nunes: guerreira da utopia. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.
Symara Tâmara (cadeira 03) – É poetisa, escritora, cantora, compositora, pesquisadora e professora. Graduada em Letras pela UERN, com Especialização e Mestrado em Letras também pela UERN. É sócia fundadora da AFLAM e membro da ALAMP. Em 2021 lançou “Tempo”, seu primeiro trabalho autoral de música, nas plataformas digitais. É autora dos livros O zênite da inspiração (poesia, 2000), Antônio Francisco: tradição e modernidade (pesquisa, 2015), Infinita tarde finda (poesia,2022) e Reflexões e fluxos sobre literatura (artigos, 2022).
