Sete dias por semana, havia um programa que não mudava. As noites nos cinemas eram “opções obrigatórias”, se permitem a contradição. O que mudava, aí sim, a cada dia (melhor: a cada noite) eram os filmes, cujos títulos se viam em local de destaque na frente dos cinemas. Se atraia público maior, um filme ficava por dois dias na programação. Os sucessos de crítica e/ou de público, eram exibidos no sábado e domingo. Os cartazes estavam lá, no Pax, Caiçara, Cid, Rivoli (cinemas do centro), Jandaia (Bom Jardim), Centenário (Alto da Conceição) e no Cine São José, de existência fugaz, ao lado da Igreja do santo padroeiro da família. Se existia alguma dúvida, podia-se perguntar a William Gurgel, sempre atualizado com o que “estava passando” nas telas mossoroenses, com informações adicionais sobre gênero, atores, etc.
Na atmosfera dos cinemas de rua, diferente do ambiente atual das casas de exibição, vivenciava-se nos anos 1960 um momento diferenciado da história da cinematografia mundial. Títulos, roteiros, atores, trilhas sonoras de então são lembrados até hoje pelo expectador comum, aquele menos versado em itens como direção, fotografia, luz, etc, dominados apenas por especialistas e aficionados com conhecimento sofisticado do universo da sétima arte.
La Dolce Vita, do hoje icônico diretor italiano Frederico Fellini, trazia o drama em meio ao glamour que tanto encantava plateias de então. A beleza de Marcello Mastroianni fazendo par com a estonteante sueca Anita Ekberg; Peter O’Toole, como Lawrence da Arábia, conduzia a plateia pelos desertos árabes por mais de três horas e meia (filmes de longa duração não eram raros), ficção com base na história real do oriente médio na primeira metade do século XX. Na película, outra lenda do cinema: Anthony Quinn; A Noviça Rebelde. Quem não lembra de Julie Andrews ao violão, sentada na grama, e o Do-Re-Mi com o terno auxílio das crianças; Guerra e Paz, obra clássica da literatura mundial transformada em cinema, outro épico de longa duração, 3 horas e 28 minutos sentados naquelas cadeiras do Pax. Tinha intervalo no meio da sessão para o expectador estirar as pernas e a coluna; Sete Homens e um Destino, faroeste em que Yul Brynner, conhecido pelo papel de Ramsés II em Os Dez Mandamentos, e Steve McQueen encabeçavam elenco de atores posteriormente famosos, como Charles Bronson e James Coburn.
Se alguém, na outra dimensão, encontrar Willame, não esqueça de perguntar qual o filme de hoje, no Pax (Caiçara, Cid….). Se ele responder com sua voz anasalada que é uma comédia, não perca. A vida anda necessitada de uma boa gargalhada. Daquelas que ele não regateava no meio de uma sessão, provocando outras gargalhadas. Era quase uma “dolce vita”.
