Crônica

AGUARDE CARTA

Embora tenha sido, por muito tempo, monopólio estatal, era comum a circulação de cartas, em envelopes característicos, pelas mãos de motoristas ou pessoas que trabalhavam em algum transporte, em linhas entre cidades médias e pequenas, principalmente estas últimas.

Não era considerado um serviço, na rigorosa acepção do termo, tanto que não havia uma taxa ou tabela de preços, por volume, peso, distância entre as cidades etc, como se faz nos Correios ou empresas privadas que exploram a atividade. Era um misto de favor e trabalho informal. Simplesmente, as pessoas pediam para o motorista entregar a carta, ou mesmo um pacote, na outra ponta do percurso, aproveitando que ele já ia mesmo para lá. Então, de acordo com a medida de cada um, dava-se uma gorjeta ao portador.

Era, também, uma relação de confiança. Pois, além de não se documentar entrega ou recebimento, era preciso que o motorista conhecesse o destinatário e vice-versa, o que não era difícil naquelas cidades, vilas, sítios e povoados onde quase todos se conheciam e, se alguém era um pouco mais jovem, bastava perguntar de qual família era ele ou ela e estava feita a identificação, para todos os efeitos.

Nos anos 1950 e por muitos que se seguiram, o rádio fez também esse papel de correio de mão única, por meio dos “avisos” falados, de muita utilidade, quando alguém podia comunicar um recado para outra pessoa residente em área de alcance do som da emissora. Nesses casos, cobrava-se uma pequena taxa. As mensagens eram, geralmente, de conteúdo utilitário, mas, às vezes, as pessoas utilizavam o serviço apenas para dar notícias a parentes e conhecidos, sem, entretanto, descuidar de escrever as cartas tradicionais. Então, o próprio “aviso” servia para prevenir ou preparar a expectativa do outro para um próximo “contato”, através do papel, no qual se alongaria na descrição das novidades, e das saudades em que as distâncias transformam antigas relações. Era quando o recado pela via do rádio terminava com a quase clássica expressão: “Aguarde carta”.

O problema das cartas enviadas “pelo motorista” era quando as cidades de destino não eram pequenas como as de origem, mas as pessoas não percebiam. Walter Wanderlei conta-nos no seu livro Gente da Gente (Editora Pongeti, Rio de Janeiro, 1973) que José Correia, em 1937, com uma empresa de transporte entre Mossoró e Fortaleza, recebia cartas para entregar na capital cearense. Como a cidade era muito grande, adotou solução pragmática: deixava as cartas sobre um banco, com uma pedra em cima, na Praça do Ferreira. Em Fortaleza já estavam. Que cada um procurasse a sua.

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