CRÔNICA

A HORA DA USINA E DA FITEMA

A COMEMSA (Cia Melhoramentos de Mossoró S/A) era a empresa de energia elétrica em Mossoró. Energia produzida por uma usina termelétrica. A FITEMA (Fiação Tecelagem Mossoró S/A) fabricava tecidos simples para sacos de embalar cereais. Ambas na região central da cidade, próximo ao rio, de um lado e de outro, a primeira na Jerônimo Rosado e a outra no início da Pte. Dutra, logo após a ponte.  Como era comum na indústria, essas empresas usavam uma sirene para marcar início e fim dos turnos de trabalho.

A cidade era essa região central e uns poucos bairros em seu entorno: a leste, o Alto de São Manoel; do sul ao sudoeste, Pereiros, Alto da Conceição, Doze Anos, Boa Vista, Lagoa do Mato e uma área um pouco mais adiante conhecida por Rabo da Gata; do oeste ao norte, Santo Antônio (com uma parte ainda chamada Baixinha e um trecho denominado Cordões), Bom Jardim, Paredões e Barrocas. Nenhum desses ficava tão longe que não desse para escutar o “apito da usina” e o “apito da Fitema”.

Por esses mecanismos culturais espontâneos, não direcionados, o apito dessas sirenes transforma-se em referência para todas as atividades cotidianas da cidade. Uma semelhança com fenômeno anterior, de orientação temporal pelo badalar do sino das igrejas. Das refeições ao deslocamento para o trabalho e escola, e o próprio expediente em muitos estabelecimentos, tudo passa a reger-se por eles, principalmente o da sirene da Comemsa. Esses apitos assumem, então, uma função para além de seu objetivo interno à empresa e tornam-se, sem que fosse intenção original, utilidade pública.

Função prática, diferente daquela poética percebida por Noel Rosa, de lembrar a musa operária, no samba-canção “Três Apitos”, ouvido nas rádios do país e, claro, nas de Mossoró.

É provável que muita gente faleceu achando que eram o “apito da usina” e o “apito da Fitema” determinantes da hora oficial da cidade, quiçá do Brasil, e não o contrário. O fato é que o nome dessas empresas ficou, por essa via, “colado” à mente da nossa população, antecedendo ao que no futuro seria objeto de preocupação do marketing: associar o nome das marcas ou das empresas à memória imediata das pessoas, o almejado “top of mind”.

Ah, eles marcavam também a passagem do ano. À meia noite de 31 de dezembro, os fogos (bem mais simples) vinham depois. Na hora exata era o apito da usina que iniciava esse ritual. Expressando o sentido dual da melancolia e da alegria, ele indicava que um ano velho se fora, bom ou mau agora era lembrança, e começava um ano novo, sempre uma esperança.

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