OPINIÃO

OFICINAS MECÂNICAS

Se alguém se referia a “oficina” nem precisava esclarecer que falava de oficina mecânica, especificamente oficina de mecânica de automóveis. Em Mossoró, as “oficinas” ficavam quase todas em um quarteirão da Rua Cel. Gurgel, no Paraíba, bairro com menor área da cidade, imprensado entre o centro e os Pereiros, Alto da Conceição e Doze Anos, respectivamente ao sul e oeste. Os estabelecimentos eram conhecidos pelo nome dos donos: Dedé de Adélia, João Meira, entre os mais lembrados. A oficina do Cara Suja, especializada nos imprescindíveis “feixes de molas” dos arcaicos sistemas amortecedores dos automóveis de então. No Paraíba (ou na Paraíba, como era comum se dizer), por lógica, concentravam-se também as lojas de peças de reposição para veículos, distribuídas principalmente pela Felipe Camarão e José de Alencar. Não longe dali estavam uma pequena metalúrgica, “a oficina de Antonio Fagundes” que, entre muitas utilidades, podia fabricar uma peça já não encontrada no mercado, e outra empresa do ramo de recuperação de motores automotivos, a Retificadora de Virabrequins Santa Luzia. Esta última funciona até hoje com o nome de fantasia Montec.

Na cidade circulavam majoritariamente as marcas Ford, Chevrotet e os jeeps da Willys, que já tinham fábricas no Brasil, mas se encontravam também pelas ruas um Citroen, um Chrysler, um DKV-Vemag, os Dauphine e Gordini, da Renault, os jeeps Toyota, o caminhão FNM (fenemê) e os carros da recém-chegada Wolksvagen, mais precisamente o sedan, posteriormente popularizado de fusca, e a Kombi.

A arte da mecânica de automóveis gozava de compreensível admiração na cidade. Afinal, as máquinas, em particular as movidas por motores de explosão, eram a síntese do desenvolvimento tecnológico fundindo-se gradual e continuamente à rotina, à cultura e à vida das pessoas. Por outro lado, era mais uma possibilidade profissional diferenciada para jovens em cuja perspectiva de trabalho distinguiam-se as duras atividades da agricultura, da pesca artesanal, das salinas e construção civil, por exemplo. Não que não fosse, também, labor fisicamente exigente, com aspectos insalubres. Os óleos e graxas, a fuligem da combustão do carbono eram explícitas nas roupas dos mecânicos, emprestando-lhes um aspecto de camuflagem, em nada semelhante aos seus uniformes atuais, desenhados para exprimir conceito profissional e identidade organizacional. Ações embaixo de carros, sem elevadores, eram exercícios de contorcionismo. Elevar motores no muque, testes ao limite de cada um.

Hoje, a atividade exige muito mais intelectualmente que no passado. Em compensação, é muito mais segura em todos os aspectos. Felizmente.

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