OPINIÃO

Vozes em Verso e Memória: Ecos que Permanecem

Por: TANIAMÁ VIEIRA DA SILVA BARRETO

Cadeira 12 da AFLAM


Minhas elucubrações me induzem a afirmar: A memória é matéria viva — pulsa nas entrelinhas, nos silêncios e nas vozes que se eternizam em verso. A poesia, como disse Carlos Drummond de Andrade, “finge que é dor a dor que deveras sente”, transformando lembranças em linguagem, em arte que cura e denuncia.

Em Conversa com Porta, de Conceição Evaristo, a palavra é corpo e memória. Suas “escrevivências” não são apenas relatos pessoais, mas atos de resistência que reafirmam identidades historicamente marginalizadas. A autora nos lembra que lembrar é também lutar — contra o esquecimento imposto, contra a invisibilidade que silencia.

Assim como Conceição Evaristo, o poeta Manoel de Barros reencanta o mundo a partir da memória das pequenas coisas. Em sua poética do “menino que carregava água na peneira”, o passado é reinventado com linguagem que flerta com o delírio, mas que traz uma verdade ancestral: só a poesia pode guardar o que a história apaga.

Mergulhado na lúdica da memória, da infância e da natureza, a obra “Poemas para não esquecer”, de Roseana Murray, também ecoa nesse universo temático. Cada verso é um fio de memória, costurando emoções que poderiam se perder, mas que encontram abrigo na escrita.

Mas, onde estão todos os ecos das nossas memórias? Os encontramos nos versos das memórias, inclusive de Adélia Prado, ao explorar a relação entre o tempo, as lembranças e as emoções, de Audre Lorde e/ou Maya Angelou ao demarcarem as lembranças e as emoções e a força das mulheres que amam, lutam e resistem às opressões sociais.

E como não citar o papel da oralidade na tradição afro-brasileira, onde memória e verso caminham juntos? O canto, a fala, o ritmo — todos são formas poéticas de registrar, transmitir e preservar histórias que não estão nos livros, mas que vivem nos corpos e nas vozes dos que narram.

Quando olhamos para essas obras, percebemos que a poesia é uma ferramenta de construção e reconstrução da memória. Ela, não apenas narra o que foi, mas dá nova vida ao vivido. Cada voz que canta em verso resgata um pedaço de um passado que insiste em não morrer.


Prof.a Enf.a Dra. TANIAMÁ VIEIRA DA SILVA BARRETO (Taniamá Barreto). Professora titular aposentada da UERN é autora de vários livros de poesias, crônicas e técnico-científicos. É sócia fundadora das seguintes academias: Academia de Letras e Artes de Martins (ALAM), ocupante da Cadeira 01 (atual presidente; Academia Feminina de Letras e Artes de Mossoró (AFLAM), ocupante da Cadeira 12 e Academia de Ciências Jurídicas e Sociais (ACJUS), ocupante da Cadeira 03. É Titular da Cadeira 08 da Academia Mossoroense de Letras (AMOL) e Patronímica da Cadeira 57 do Conselho Internacional de Letras e Artes (CONINTER). Integra o Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP), a Sociedade Brasileira de Estudo do Cangaço (SBEC), o Museu do Sertão, a Associação Literária e Artística de Mulheres Potiguares (ALAMP) e a Associação dos Escritores Mossoroenses (ASCRIM), além de Sócia Correspondente da Academia de Letras de Apodi (AAPOL).

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