CRÔNICA

VAI CHOVER E NÃO TEM LENHA

Um acontecimento iminente associado a determinada condição atual em que há implícita relação de consequência desfavorável entre eles. É a moral, a mensagem para lembrar, chamar atenção para os efeitos indesejáveis dessa junção, contidas nessa máxima. A referência à falta de lenha às vésperas de um esperado período de chuvas. É lógico que a lenha molhada não pega fogo. Qualquer tentativa nesse sentido resulta em muita fumaça e nenhuma chama, o que praticamente desmente outro dito popular e mostra que, nem sempre, “onde há fumaça há fogo”.

Por sua essência cultural, expressões populares surgem e podem permanecer por força própria ou desaparecer junto com as circunstâncias históricas, costumes ou fatos que lhe deram origem e aos quais está ligado seu significado. É o caso da importância da lenha no cotidiano de nossas populações. Entre nós essa importância esteve, até o final da década de 1950, ou um pouco mais, relacionada ao seu indispensável uso nas cozinhas de todas as casas, no preparo dos alimentos, feito no indefectível fogão a lenha, agora romantizado como um dos símbolos daquela época. Apareceram os fogões que funcionam à base de gás e aqueles feitos de barro, com as características trempes de ferro e chaminés que diminuíam (não evitavam) a fumaça dentro de casa, desapareceram. E junto com eles, praticamente, sentenças como a que advertia para a necessidade de armazenar lenha seca antes do início do inverno. O fogão a gás foi precedido em momento imediato pelo que utilizava o carvão vegetal, o que já era um certo avanço, mas dava na mesma, pois dependia primariamente da lenha e consequente destruição da caatinga, condição que já então podia ser vista como insustentável no futuro.

Mas, essa substituição não se faria tão rápida e facilmente. Além da questão cultural (até hoje há quem garanta que a comida feita no fogão a lenha tinha um gostinho melhor) havia a questão econômica. Ter um fogão a gás era um luxo, saibam os que hoje sequer percebem a parafernália de eletrônicos incorporados ao uso corriqueiro nas residências. E mesmo com a invenção dos “financiamentos com prazos a perder de vista”, que catapultaram também o problema da inflação (carestia, para os íntimos), poucas famílias podiam ostentar essa modernidade, só depois entendida como verdadeira necessidade.

Necessidade e vantagem, logo percebidas pelos criadores da propaganda da Ceará Gás Butano, que invocava o testemunho dos primeiros usuários do fogão com seu popular slogan à época, “Pergunte a quem tem um”.

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