Como nome de profissão poderia soar estranho. E pegador de balde não era mesmo profissão, mas uma forma de ganhar, não a vida, que por mais simples que fosse não estaria ganha com tão pouco, mas ganhar alguma coisa, estratégia possível de sobrevivência de pessoas invariavelmente analfabetas e sem alguma qualificação profissional ao menos razoável. Eles (também invariavelmente eram homens, jovens ou nem tanto) logo se achegavam ao lado das pessoas que faziam a feira, oferecendo-se para carregar aqueles baldes que elas seguravam pelas alças providenciais, ícones daqueles tempos em que as famílias abasteciam suas dispensas no Mercado Central e arredores. Poderia até ser traçada uma comparação com os “flanelinhas” atuais. sem a agressividade que em alguns casos caracteriza o modo operatório desses últimos. Naquele tempo não havia tantos carros na cidade. Faltavam carros para tantas vagas de estacionamento. Já os com baldes para carregar eram muitos.
As compras incluíam carnes, frutas, verduras e todos demais suprimentos de consumo habitual básico das famílias, chamados genericamente de secos e molhados. Guardadas as devidas proporções, era como as incursões de rotina atual nos supermercados, sem “as comodidades” oferecidas por estes. Os assessores, por assim dizer, acompanhavam o “patrão/patroa” por todo “passeio” de compras, carregando os baldes que aos poucos iam ficando mais pesados, dependendo do hábito e poder de compra de cada um. Ao final, levavam todo aquele “peso” até às residências, a pé, cliente e prestador lado a lado, possivelmente comentando sobre como a vida estava cara. Grande parte das famílias usuárias do serviço morava mesmo perto daquele centro. Não havia tabela ou qualquer tipo de definição de remuneração do trabalho dos pegadores de balde. Regra geral, não havia sequer acerto prévio. O pagamento tinha caráter de gorjeta e o cliente era livre para buscar alguma referência para embasar o valor a ser pago: o peso, a distância percorrida e a própria necessidade daquele que prestava o serviço.
Os carregadores fariam igualmente de bom grado seu trabalho, caso tivessem que carregar as bolsas de palha de carnaúba que também eram comuns como embalagens naquelas compras matinais dos mossoroenses. Mas o chic eram os baldes, mais representativos daqueles que podiam pagar pelo serviço. Sim! o balde, por aqui, já foi até certo ponto símbolo de poder de consumo. Não era assim uma bolsa Louis Vitton, mas tinha a vantagem de não precisar ser falsificado. Dava para comprar um, de alumínio ou de ágata, ali mesmo, próximo, no Armazém Potiguar, de João Fernandes, na esquina da Rua Bezerra Mendes com Meira e Sá.
