OPINIÃO

PÁSCOA: O QUE RENASCE EM SILÊNCIO

Por: TANIAMÁ BARRETO

 

A cidade amanhece como em tantos outros dias: passos apressados, portas entreabertas, o aroma do café recém-passado escapando pelas frestas da manhã. Tudo parece seguir seu curso habitual — e, ainda assim, há algo diferente. Algo sutil, quase invisível. É Páscoa.

Não se anuncia em alardes. Não exige atenção. A Páscoa acontece, sobretudo, no território do invisível — onde os olhos não alcançam, mas a alma pressente.

Ela não está apenas nos sinos que ressoam à distância, nem nas vitrines adornadas por promessas de doçura imediata. Está no intervalo entre um pensamento e outro, naquele instante raro em que o coração desacelera e nos permite escutar o que, ao longo dos dias, temos silenciado.

Páscoa é convite — nunca imposição.

Chega mansa, como quem pede licença para entrar, e se acomoda nos cantos mais esquecidos de nós. Ali, permanece em espera, como uma semente paciente, aguardando o tempo exato de germinar.

Porque renascer não é espetáculo.

Não há aplausos para o recomeço, nem testemunhas para os processos mais profundos da existência. Renascer é íntimo, silencioso, muitas vezes solitário. É quando, apesar do cansaço, escolhemos continuar. Quando o perdão brota, ainda que a memória resista. Quando recolhemos os fragmentos de um sonho e, mesmo com mãos trêmulas, decidimos reconstruí-lo.

Sobre a mesa, o chocolate se desfaz — doce, breve, transitório. Assim são muitas das alegrias que insistimos em tomar por eternas. Mas a verdadeira Páscoa não habita o que se dissolve.

Ela reside no que permanece.

Permanece no abraço que se alonga além do costume, na palavra dita com verdade, no gesto que refaz vínculos. Permanece na coragem de recomeçar — sempre.

Há, em cada ser humano, uma primavera guardada. Um espaço fértil que resiste às estiagens da vida. E talvez o maior milagre da Páscoa seja este: lembrar-nos de que, mesmo depois dos invernos mais rigorosos, ainda somos capazes de florescer.

A data passa — como todas passam. As vitrines se renovam, os símbolos se recolhem, a rotina retoma seu ritmo. Mas, para aqueles que acolhem o chamado silencioso, algo se transforma.

Fica a delicada — e poderosa — possibilidade de ser novo.

Mesmo quando tudo parece igual.


A escritora Prof.a Enf.a Dra. TANIAMÁ VIEIRA DA SILVA BARRETO (Taniamá Barreto) é professora aposentada da UERN e sócia fundadora das seguintes academias: AFLAM, ocupando a Cadeira 12; ALAM, ocupando a Cadeira 01; e ACJUS, ocupando da Cadeira 03. É Titular da Cadeira 08 da AMOL e Patronímica da Cadeira 57 do CONINTER. Integra o ICOP, a SBEC, o Museu do Sertão, a ALAMP e a ASCRIM, além de Sócia Correspondente da AAPOL.

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