A vez é delas

O protagonismo das mulheres nas eleições em Mossoró

A presença, a participação e o favoritismo delas no próximo pleito reafirmam a vocação libertária da cidade

Uma médica, uma empresária, uma bacharela em Direito, uma advogada, uma cientista política e uma odontóloga. Rosalba, Bianca, Ceição, Isolda, Cláudia e Ângela. Seis nomes e uma certeza: nunca o universo feminino teve uma representação tão forte numa eleição majoritária na cidade.

Mossoró tem atualmente  9 pré-candidaturas à prefeitura municipal. Não se sabe ainda quantas prosperarão até o dia da eleição, em 15 de novembro próximo, mas uma coisa é quase certa: deverá sair da ala feminina quem vai comandar os destinos dos mossoroenses pelos próximos 4 anos.

Dos nomes postos, 3 figuram com reais chances de vitória: a atual prefeita, e favorita, Rosalba Ciarlini (PP); a deputada estadual Isolda Dantas (PT) e a ex-prefeita Cláudia Regina (DEM).

Hoje a situação é bastante favorável às mulheres, mas nem sempre foi assim. A histórica mitigação de direitos à ala feminina da sociedade reverberou com intensidade em todos os aspectos da vida das mulheres, que durante séculos foram impedidas até mesmo de votar.

Em Mossoró, como aconteceu em quase todos os lugares do mundo, essas imposições contribuíram para que as mulheres participassem pouco da vida política, sem  nenhuma chance para exercer seu direito político ativo. O primeiro registro de uma candidatura feminina à prefeitura da cidade, por exemplo, data de 1988. Desde então, essa participação tem crescido, resultando no cenário que temos atualmente.

O que acontece em tempos atuais em Mossoró, infelizmente, ainda é exceção. Embora as mulheres representem 52% do eleitorado do Brasil, a presença deles em cargos no Executivo e Legislativo no país, lamentavelmente, é pequena.

O Rio Grande do Norte tem os melhores números nesse aspecto. Além de ser a única unidade da federação a ser governado por uma mulher, a professora Fátima Bezerra – PT) é também o Estado brasileiro com o maior índice de municípios comandados por mulheres.

“A maior taxa brasileira, que corresponde a 47 de 167 localidades do Estado”, ressaltam as professoras Terezinha Albuquerque e Cyntha Brasileiro, do Departamento de Ciências Sociais e Políticas (DCSP) da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (FAFIC) da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).

Nessa reportagem especial, o Portal do RN analisa esse fenômeno e apresenta o perfil e o que pensam as 6 pré-candidatas sobre a participação da mulher na política.

Por meio de pesquisas, entrevistas com as pré-candidatas e consulta a especialistas, mostramos porque em solo mossoroense a presença feminina nas eleições majoritárias supera imperativo de lei e se constitui em uma grata opção aos eleitores. Em quantidade e em qualidade.

Duas décadas sem mulheres na disputa

A presença feminina na política não surgiu de favor. É resultado da luta de muitas que antecederam às valorosas mulheres que disputarão as eleições desse ano. Mais que isso, é reflexo de atos de liberdade protagonizados por outras mossoroenses, como bem lembra a prefeita Rosalba Ciarlini.

A abundância de candidaturas femininas na atualidade contrasta com o histórico de eleições para prefeito na cidade, majoritariamente disputadas por homens.

Segundo levantamento do blog do Carlos Santos, de 1968 a 1988, por exemplo, as eleições foram disputadas apenas por candidatos. Foram 5 eleições sem que se tivesse pelo menos uma mulher na disputa. A tradição só foi quebrada em 1988 com a candidatura da médica Rosalba Ciarlini. Ela concorreu e venceu o pleito, superando o também médico Laire Rosado.

Em 1992, mais uma vez, as eleições tiveram concorrentes à prefeitura apenas do sexo masculino.

Em 1996, Rosalba voltou à cena, disputando a prefeitura com Sandra Rosado e conseguindo sua segunda vitória. Nas três eleições seguintes, as mulheres voltaram a protagonizar a disputa: Rosalba e Fafá Rosado em 2000, Fafá Rosado e Larissa Rosado em 2004 e também em 2008; Cláudia Regina e Larissa Rosado em 2012.

As eleições suplementares de 2014, que tiveram Francisco José Júnior como vencedor, trouxe Larissa Rosado como sua principal oponente. E, por fim, em 2016, Rosalba disputou e venceu a sua quarta eleição, superando o empresário Tião Couto.

O pioneirismo potiguar no reconhecimento ao direito das mulheres

A negação de direitos, inclusive políticos, à mulher, foi, durante muito tempo, uma mancha negra na história mundial. Essa situação perdurou por muito tempo em vários países, e também no Brasil.

No caso brasileiro, foi preciso uma árdua luta para a conquista do direito de votar e ser votada.

O Rio Grande tem um legado importante na escalada feita pelas mulheres pelo reconhecimento de sua participação na política.

Dois fatos são marcantes nesse aspecto: a eleição de Alzira Soriano de Souza como primeira prefeita eleita do Brasil (para a cidade de Lajes, em 1929) e a inscrição da mossoroense Celina Guimarães Viana como primeira eleitora do país, em 1928.

Como destaca Grossman e Nunes (2014), a participação da mulher na vida pública vem se dando de forma lenta no curso da história, “mas ganha relevo” e se constitui em processo de “efetivação de uma nova cidadania”.

A participação da mulher na política é corolário da luta feminista, como assevera a deputa estadual Isolda Dantas (PT) e desta derivam relevantes momentos históricos, como a emancipação da mulher e o empoderamento feminino ,sem os quais não há como se falar em igualdade de gênero.

Devotando-lhe o respeito que é necessário e de direito, a mulher tem condições de contribuir para o país, o Estado e cidade, transformando-os em espaços de qualidade para acolher todas as pessoas, afinal de contas, elas fazem a “escalada da montanha da vida removendo pedras e plantando flores” (Cora, Coralina).

ANGELA SCHNEIDER: presença importante

Angela Cassia Schneider nasceu em Corbélia, Paraná. Fixou residência em Mossoró em 2009, onde atuou na militância por um novo Brasil, de direita, conservadora e que atendesse os anseios da população com políticas públicas em total sintonia com o clamor das ruas, com fiscalização e zelo pelo erário. Por conta dessa dedicação, decidiu aceitar a missão de entrar na política, colocando seu nome à disposição da população nas próximas eleições, defendendo o projeto político do presidente Bolsonaro e na consolidação de criação de um partido verdadeiramente de direita, o Aliança pelo Brasil.

A mulher na política

A odontóloga Angela Schneider tem na Lava Jato e no presidente Bolsonaro as inspirações que a levaram a decidir por se colocar como pré-candidata à prefeitura.

“A minha participação política começou com o apoiamento ao Aliança Pelo Brasil, no qual ainda continuamos firmes e fortes nesse trabalho, com a finalidade de concretizar a formação do partido do Pr. Jair Bolsonaro”, lembra.

“É incontestável e de suma relevância a presença de mulheres ocupando cargos públicos de direção. Mossoró já tem um histórico muito lindo da participação da mulher na política com a Celina Guimarães Viana, sendo a primeira eleitora mulher no Brasil, nos dado honra e orgulho. E sabe-se na história local que ela não somente votou, mas era participativa e influenciadora nas eleições local. Eu como mulher sinto-me no dever de dar continuidade a uma linda história para essa cidade.  E lembrando que a mulher representa 52% do eleitorado brasileiro.

A minha participação política começou com o apoiamento ao Aliança Pelo Brasil, no qual ainda continuamos firmes e fortes nesse trabalho, com a finalidade de concretizar a formação do partido do Pr. Jair Bolsonaro. Não tinha interesse algum em candidatura, pois antes de tudo eu sou uma  eleitora que estava cansada da corrupção, dos políticos falsos e que mentem dizendo que estão do lado do povo, mas suas ações não condizem com a fala polida e rebuscada que eles usam.

Ao passo que me vi em uma situação de não me acovardar com essa cidade que me acolheu com um amor inestimável. Juntou então o desejo de retribuir esse amor com a indignação de ver a cidade atolada de problemas.  Mossoró tem um potencial não explorado politicamente que me assusta, e fico a me questionar o porquê dessa situação a tantos anos. Temos um povo valente, uma história de bravura, tempos áureos que precisamos dar continuidade. E o meu desejo intrínseco é fazer com que essa cidade prospere, por isso me ponho a disposição do povo mossoroense nessa empreitada. Com objetivos claros e alcançáveis, sem promessas mirabolantes, com o corpo técnico de secretários que entendem cada setor, pois não haverá troca política para esses cargos”.

BIANCA NEGREIROS: equilíbrio e justiça

Bianca Negreiros é empresária no setor de saúde suplementar com escritórios em Mossoró e Natal, sendo proprietária de uma das mais importantes empresas do Rio Grande do Norte, Ampla Planos de Saúde.

Bianca é esposa, mãe e avó, e é na família onde encontra sustentação para pautar seus mais diversos projetos no âmbito social.

Com uma carreira de sucesso, passou pelos mais diversos setores, sempre empreendendo e buscando conhecimento o que a tornou uma grande administradora no setor privado.

A mulher na política

Bianca reconhece o processo histórico em que se deu, pelas mulheres, a conquista do direito de participar da vida política de forma passiva (votando) e ativa (sendo votada).  Para ela, essa “a luta se dá pela necessidade de contribuirmos e de nos fazermos presentes na política, tornando-a mais equilibrada e justa”.

“A busca da participação efetiva da mulher nas mesas de decisões políticas desse país é um processo de longos anos que começa de forma concreta quando tivemos o primeiro voto feminino no Brasil de Celina Guimarães.

Hoje somos mais da metade da população, por isso almejamos mais mulheres nas Câmaras de Vereadores, no Senado em Brasilia. Assim teremos democracia mais justa e igualitária. Na última campanha em 2018, tivemos um sinal de avanço com um aumento de 51% na câmara dos deputados em Brasilia. Tivemos 77 deputadas eleitas, mas apenas 15% de representatividade. Temos 26 estados e o distrito federal e somente uma governadora, Fátima Bezerra, do RN, De 24 cadeiras estaduais, temos 3 deputadas. Isto é, 12%. Mesmo número dos parlamentares federais, e dos 8 deputados federais eleitos em 2018 somente 1 mulher.

Em Mossoró, neste ano, 56% do eleitorado é composto por mulheres. Se a participação do eleitorado correspondesse às vagas, deveríamos  eleger 11 vereadoras. Hoje temos apenas quatro mulheres na Câmara Municipal de Mossoró. Mas Mossoró tem 15% de mulheres no parlamento. Estimulo as mulheres e espero que possamos ampliar a participação na vereança em nossa cidade.

Na política o que mais importa é a prática. Juntar: intenção é mais ação.

Na Câmara de Vereadores, temos de ter mais mulheres para que possamos defender as pautas femininas, dialogar com a mulher mossoroense e desenvolver políticas públicas que contemplem todas as mulheres.

No Executivo, precisamos acabar com o estigma de que há sempre um homem comandando e trazendo ao entorno da prefeita uma estrutura política viciada e acostumada ao jogo nocivo da política. Por isso, tem de ser analisado: o partido, a postura os partido, os líderes do partido, como o partido se comporta, quem está no entorno dessa candidata, quem está apoiando nos bastidores. Assim,  conhecendo o que e quem está em volta dessa mulher ou o homem, pode-se  presumir como será quando chegar ao mandato. Ou seja, quando se tornar prefeita ou prefeito.

A constituição diz que “somos iguais perante a lei”.  Que assim seja. O princípio da igualdade constitucional vale também para a isonomia. Devem ser fiscalizados mulher e homem e, também, cobrados pelo que fazem no mandato. Sendo prefeito ou prefeita.

O importante é oxigenar essa política para que as práticas se renovem. A minha expectativa é a de que o povo demonstre a sua insatisfação nas urnas, que perceba dono do destino do nosso município e que faça a coisa certa. Não estamos em um sistema de capitanias hereditárias. Política não deve ser função passada de pai para filho. A perpetuação de nomes e grupos traz uma acomodação, e a competitividade gera o desejo e necessidade de ser melhor a cada dia. Fazer a coisa certa é dever de cada um.

CLÁUDIA REGINA: fortalecimento da democracia

Cláudia Regina Freire é advogada, atuando  como assessora jurídica da Secretaria Estadual de Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap/RN). Em sua trajetória política, destacam-se os cargos de vereadora, vice-prefeita e prefeita de Mossoró.

A mulher na política

Para a Cláudia Regina (DEM), “há esforço social e político pelo fortalecimento da democracia e isso só se consolidará com a presença efetiva das mulheres em cargos eletivos e posições de comando”, analisa.

“Não há que se falar em “heroísmo” feminino para encaminharam soluções para as diversas crises que estamos vivendo. Mas é inegável que o olhar feminino, focado na disposição para o diálogo a convivência com as diferenças, é indispensável para a construção e implementação de políticas públicas que respondam as demandas de agora.

Política é substantivo feminino, tem essência etimológica feminina. É preciso que todas nós, mulheres, estejamos inseridas nos universos políticos, comunitários, partidários, para no exercício dos nossos direitos, transformá-los em possibilidades de cidadania concreta e construirmos novas garantias. Com as mulheres na política a democracia se plenifica”.

ISOLDA DANTAS: importância do feminismo

Isolda Dantas é graduada em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e tem pós-graduação em gestão pública pela Universidade de Brasília (UnB). Foi secretária municipal de Cultura e vereadora em Mossoró (2016 a 2018). Deputada estadual pelo PT, Isolda Dantas é feminista e militante dos movimentos sociais. Atua na defesa dos direitos da classe trabalhadora, a luta das mulheres, LGBTs, negros e negras, cultura, direito à cidade, educação, agroecologia e economia solidária.

A mulher na política

A atual relevante participação das mulheres na política é resultado de lutas seculares do movimento feminista. É o que pensa a deputada estadual Isolda Dantas (PT). “Não é uma luta baseada apenas na luta pelo sufrágio. Essa foi a que ganhou mais visibilidade, mas junto com ela estava toda uma transformação da sociedade”, ressalta.

A parlamentar cita por exemplo a luta por melhores condições de trabalho. “São vários outros direitos que as mulheres foram conquistando. O direito ao voto foi uma das pautas que foram viabilizadas em diferentes momentos no mundo”, complementa.

“Quero dizer que a grande participação da mulheres hoje como candidatas nas eleições tem a ver com essencialmente com a luta do feminismo. E quero aqui destacar o pioneirismo do Partido dos Trabalhadores, O PT foi o primeiro partido que determinou a cota de 30% para as mulheres nas eleições partidárias. Isso significa colocar as mulheres nas instâncias de poder e que possivelmente se tornariam lideranças para disputar as eleições”, avalia.

Ainda segundo Isolda Dantas, essa proposta da cota de 30% foi seguida posteriormente pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) e depois incorporada pela legislação eleitoral.

A deputada destaca também que atualmente, 50% dos cargos nas instâncias do PT, municipal, estadual e nacional, são ocupados por mulheres.

“Então eu creditaria essa conquista das mulheres ao movimento feminista, e como prática disso sendo inaugurada pelo PT, no início da década de 90”, afirma.

Isolda também discorreu sobre sua expectativa para as próximas eleições. Minha expectativa para as eleições. O feminismo diz necessariamente não basta ser mulher, mas mulheres que tragam na sua trajetória política e na sua pauta questões que alterem a realidade e que promova a igualdade entre homens e mulheres.

“Minha expectativa é que tenha um número maior de mulheres que tenham isso, que vejam tanto o Executivo quanto o Legislativo como instrumento de contribuição de igualdade e não como instrumento de avanço do conservadorismo e de redução da liberdade das mulheres. Na condição de pré-candidata a prefeita de Mossoró, sou bastante otimista porque acredito na luta, acredito no coletivo e acredito que é possível ter uma cidade que possa cuidar de toda a sua gente”.

IRMÃ CEIÇÃO: participação fundamental para a democracia

Maria da Conceição Cesário de Sousa, também conhecida como Irmã Ceição, é uma mulher cristã, dona de casa, bacharela em direito e mãe. Natural de Mossoró, morou no bairro Bom Jardim na Rua Delfim Moreira e viveu parte da infância no sítio Lagoinha, zona rural da cidade, onde ajudava seus irmãos e avós na agricultura. Esposa e mãe de advogados, irmã Ceição gerencia com o seu marido o escritório de advocacia da família.

Já foi empregada doméstica, vendedora ambulante, professora e diretora de unidade de saúde.

Na legislatura 2008-2012, exerceu o cargo de vereadora na cidade de Mossoró.. Irmã Ceição também desenvolve trabalhos sociais na igreja e no bairro Vingt Rosado onde mora atualmente com a família há 25 anos.

A mulher na política

“Mossoró vive uma eleição ímpar. Várias mulheres disputam o pleito majoritário. É uma honra! A terra do sol, do sal e do petróleo já é conhecida pelos seus incríveis feitos como o primeiro voto feminino da América Latina, então é bem explicado este fato.

A participação das mulheres na política é importante e fundamental para a democracia. A mulher representa mais da metade da população brasileira. Temos conquistado mais e mais lugares na política e continuaremos assim, mulheres e homens, na construção de um mundo melhor para todos!

Vivemos na nossa cidade um cenário que perdura há mais de três décadas. Trata-se de um modelo desgastado e que não atende mais o anseio da população. Os mossoroenses pedem mudança. Vi e vivi isso intensamente nos últimos anos. O povo não aguenta mais essa mesma forma de gestão. Precisamos de uma verdadeira transformação na prefeitura e essa transformação virá pelo povo e para o povo! Por isso, coloquei o meu nome à disposição dos mossoroenses. A nossa pré-candidatura foi baseada nisso”.

ROSALBA CIARLINI: por igualdade de oportunidades

A atual prefeita de Mossoró, médica Rosalba Ciarlini (PP) vai para a próxima eleição com a experiência de 4 vitórias em disputas municipais anteriores. A pediatra ostenta no currículo, o grande feito de ter sido a primeira senadora eleita do Rio Grande do Norte, além de ter sido governadora do Estado.

A mulher na política

“As mulheres têm conquistado espaços importantes em vários segmentos da sociedade, se destacando na política. Em Mossoró temos exemplos históricos. Os grandes movimentos libertários foram protagonizados por mulheres, a exemplo do Motim das Mulheres, primeiro voto feminino. Mulheres como Ana Floriano, Celina Guimarães contam a história de luta e resistência da nossa cidade. Essa participação tem sido fundamental na ocupação de cargos eletivos, mas precisamos de mais. Temos um dado que mostra que 15% desses cargos têm a presença feminina. Precisamos avançar ainda mais e pensar em políticas públicas que efetivem esses direitos, buscando a ocupação de espaços com responsabilidade e projetos.

A democracia pressupõe a igualdade de oportunidades, de acessos. Por isso as mulheres precisam ocupar cargos na política e em diversos outros segmentos. Na nossa cidade temos a prefeita, vice-prefeita e presidente da Câmara Municipal, que são mulheres em funções importantes. Também tenho orgulho de ter sido a primeira mulher a assumir uma cadeira no Senado Federal pelo RN”.

Transformando a palavra política para o feminino

Cyntia Carolina Beserra Brasileiro
Terezinha Cabral de Albuquerque Neta Barros

Ao tratar da temática “Mulheres na Política”, consideramos falar de um contexto particular, que é o Brasil. Um país que tem uma democracia recente e que se coloca em constante desafio no que concerne à representação política. Esta, aparece para nós como um conceito em sua essência contestado, em muitos momentos fica relegada ao período eleitoral, como se nós, cidadãos, pensássemos a nossa cidadania somente neste recorte temporal. A verdade é que a democracia no país se sustenta no pêndulo que contrabalanceia pautas que garantam vozes aos mais diversos grupos, ao passo que se assentam em práticas contumazes de desigualdades.

Como acreditar que é possível representação feminina quando os nossos dados caminham para uma sub-representação ao avaliarmos a relação homem/mulher em assentos de cadeiras no legislativo?

O panorama atual, de acordo com os dados da Inter-Parliamentary Union (IPU, 2020) e da ONU Mujeres (2020), aponta que dentre os países Latino Americanos, o Brasil tem em sua Câmara Baixa o percentual de 14,62% de deputadas assumindo cargos, o que representa o quantitativo de 75 mulheres no universo de 513 assentos disponíveis. A sub-representação também se apresenta na Câmara Alta, revelando que apenas 13,6%, dos cargos são assumidos por mulheres, o que coloca o país bem abaixo do percentual médio de 20% de representação de mulheres no parlamento.

Não olhemos para os dados de maneira apressada. Mulheres no Brasil votaram em contextos de lutas diante de tantas proibições e, agora pleiteiam cargos em contexto de contravenções. Basta rastrear os resultados das últimas eleições municipais em que mulheres tem candidaturas zeradas ou com apenas um voto, forte indício de candidatura laranjas.

Isso porque no Brasil, as cotas para mulheres disputarem cargos são denominadas voluntárias e vigoram no país segundo o artigo 10, parágrafo 3º da Lei 9504/97 (BRASIL, 1997) da seguinte maneira: mínimo de 30% e máximo de 70% o preenchimento de vagas para candidaturas de cada sexo. No concernente aos cargos do Executivo municipal, elas representam apenas 12% da representação feminina.

De fato, existe toda uma mobilização para a participação destas, no entanto é imponderável afirmar que nossas dificuldades não se circunscrevem somente a esfera institucional, mas sobretudo estrutural. As mulheres que conseguem chegar aos cargos, trazem algumas marcas ao aprofundarmo-nos: o capital familiar é uma delas, parte delas são “filhas” ou “cônjuges”. Outro aspecto, um pouco menos recorrente, é a sua escalada política em militâncias, lideranças comunitárias, clubes e associações. Em sua maioria, as que conquistam cargos são revestidas de estereótipos referências masculinas: racionalidade, mão de ferro, frieza; ou enfatizam qualidades super valorizadas no “ser” mulher, tais como: cuidado, zelo, ouvinte. Traduzindo também parte das suas inserções no meio político, uma vez que anteriores aos cargos, elas estão ligadas a profissões ou atuações tipicamente femininas. (NOVELLINO; TOLEDO, 2018).

Não nos enganemos! As mulheres sabem disso!

Estudos já apontam que as gestões municipais são marcadas por atuações tenazes de suas gestoras, pois, existe esta preocupação de melhor representar seus círculos eleitorais e para isso atuam na melhor oferta de serviços públicos. (BROLLO, TROIANO, 2012). As gestão de mulheres estão sendo analisadas como mais eficazes e, não desinteressadamente, isso tem contribuído em suas atuações quando conseguem se eleger, enfatizando nas suas agendas discussões como a atenção básica na saúde, educação, projetos sociais, infraestrutura, etc. pautas que falam diretamente aos eleitores, uma vez que na maioria dos casos elas estão candidatas em regiões mais pobres do país, o Nordeste aparece como uma presença feminina aglutinadora nos cargos de prefeitas (43%), seguida da região Sudeste (22%).

Neste sentido é muito oportuno falar da importância de uma participação política feminina e desconfiar dos dados que nos aparece tão apressados fora de seus contextos. As eleições 2020 convergem para uma nova dinâmica, já que pelo menos as disputas para os cargos de vereadoras serão diferentes considerando a Emenda Constitucional de Outubro de 2017 que revela em seu §1 do artigo 17 o fim das coligações em eleições proporcionais. Com as alterações, espera-se que cada partido indique seus candidatos e que deva encaminhar a lista de candidatas respeitando o percentual mínimo de 30% e o máximo de candidaturas para cada sexo.

Somos nós mulheres responsáveis pela maioria dos votos (52%) quando pensamos o eleitorado no Brasil e urgem discussões cada vez mais sistemáticas para que estejamos ocupando espaços de fala, de proposituras e assentos em espaços de tomadas de decisão. Políticas de promoção de incentivo à participação das mulheres tem se ampliado não só mediante a lei, mas através de veículos de comunicação e, também no engajamento das mulheres em movimentos e grupos que alimentam as discussões políticas.

O Rio Grande do Norte do primeiro voto feminino da América Latina, da primeira prefeita do país, da primeira Deputada Estadual diplomada no Brasil e da militante Nísia Floresta possui um protagonismo político feminino ainda hoje, quando se compara a outros Estados brasileiros, no que diz respeito não só em possuir a única governadora, Fátima Bezerra (PT) mas por ter 28% dos seus municípios chefiados por mulheres, a maior taxa brasileira, que corresponde a 47 de 167 localidades do estado.

Dentre estas localidades, gostaríamos de destacar a cidade de Mossoró, que possui uma a herança política importante, mesmo atrelada a uma imagem/sobrenome de um campo político de poder local tradicional. Não podemos minimizar o legado criado, por gerar um espaço de transformações que permitem atualmente a cidade contar com seis pré-candidatas a prefeitas com diferentes perfis, trajetórias e identidades políticas. Este cenário eleitoral, além de criar um espaço competitivo para o pleito, oportunizam as mulheres romperem estigmas, assim como ganharem mais espaços de fala e protagonismo.

Ainda não sabemos se os nomes já sinalizados pela mídia, vão de fato consolidar. Acreditamos que os já conhecidos politicamente pelos mossoroenses como Rosalba Ciarlini (PP), Isolda Dantas (PT) e Cláudia Regina (DEM) serão grandes protagonistas para as eleições em 2020. Mas às certezas que temos é que as mulheres sabem! Sabem gerir, sabem escolher, sabem fazer política. E quanto mais caminhamos no sentido de inseri-las nos espaços de poder, mais equânime e real se tornam a representação. Até porque política é palavra feminina.

Veja a análise das docentes, acima, em pdf  com as referências bibliográficas.

 

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