OPINIÃO

FAZER CULTURA É FAZER HISTORIA

Por: TANIAMÁ VIEIRA DA SILVA BARRETO

Hoje acordei e visitei o meu baú das experiências de vida enquanto martinense natural, e de cidadania mossoroense e messeniense, procurando algo que denotasse o significado da cultura na minha cotidianidade.

Ao abrir o meu baú da história de vida logo encontrei fatos comprobatórios de que tenho defendido a concepção de que fazer cultura é muito mais do que preservar tradições ou repetir costumes: é construir pontes entre o passado, o presente e o futuro. Cada gesto artístico, cada expressão popular, cada manifestação coletiva carrega em si a força de uma identidade que resiste ao tempo. Quando alguém dança um coco de roda, pinta um mural urbano, escreve um cordel ou celebra uma festa junina, está não apenas vivendo o momento — está escrevendo uma página da história.

Minha história de vida na família (rurícula e urbana), no trabalho (ensino, pesquisa e extensão) e na comunidade (movimentos sociais) sempre argumento que a cultura é a memória viva de um povo. Ela guarda os traços de quem fomos, revela quem somos e aponta para quem podemos ser. É através da cultura que comunidades marginalizadas encontram voz, que saberes ancestrais são transmitidos, e que novas formas de pensar e sentir o mundo ganham espaço. Fazer cultura é, portanto, um ato político, um gesto de afirmação, uma maneira de dizer: “Estamos aqui, e nossa história importa.”

No sertão, no litoral, nas periferias urbanas ou nas aldeias indígenas, fazer cultura é resistir ao apagamento. É desafiar o silêncio imposto por séculos de exclusão e dar protagonismo às narrativas que foram esquecidas ou silenciadas. Cada vez que uma criança aprende uma cantiga tradicional, cada vez que um grupo se reúne para encenar um auto popular, a história se renova e se fortalece.

Fazer cultura é fazer história porque é através dela que os povos se reconhecem, se reinventam e se projetam. É um processo contínuo, dinâmico, que transforma o cotidiano em legado. E, acima de tudo, é uma forma de eternizar o que há de mais humano em nós: a capacidade de criar, compartilhar e lembrar.

A cada dia vivido me faz reconhecer que a cultura é o alicerce invisível que molda quem somos — como indivíduos e como coletividade. Ela é a linguagem que usamos para expressar sentimentos, os rituais que nos conectam às nossas raízes, os símbolos que nos representam e os valores que orientam nossas escolhas. Sem cultura, a identidade se torna frágil, dispersa, sem memória.

As memórias contidas no meu baú aponta para algumas formas de como a cultura constrói a identidade:

►Preserva a memória coletiva: Através de histórias, músicas, danças e tradições, a cultura mantém viva a trajetória de um povo. Isso ajuda cada geração a entender de onde veio e a valorizar suas origens.

►Fortalece o senso de pertencimento: Quando alguém se reconhece em uma prática cultural — seja uma festa popular, uma comida típica ou uma crença — sente que faz parte de algo maior. Isso gera orgulho e conexão.

►Dá voz à diversidade: A cultura revela as múltiplas formas de ser e viver. Ela permite que diferentes grupos sociais, étnicos e regionais expressem suas identidades únicas, combatendo estereótipos e promovendo respeito.

►Constrói narrativas próprias: Em vez de ser definido por outros, um povo que valoriza sua cultura constrói sua própria história, com autonomia e autenticidade.

►Resiste ao apagamento: Em contextos de opressão ou colonização, manter viva a cultura é um ato de resistência. É dizer: “nossa identidade não será apagada”.

Em resumo, percebo nas memórias guardadas no meu baú, que a cultura é como uma árvore do meu sertão: suas raízes são a história, o tronco é a identidade, e os galhos são as expressões que florescem com o tempo. Sem ela, não há sombra, nem frutos, nem memória.


► Prof.a Enf.a Dra. TANIAMÁ VIEIRA DA SILVA BARRETO (Taniamá Barreto). Professora titular aposentada da UERN é autora de vários livros de poesias, crônicas e técnico-científicos. É sócia fundadora das seguintes academias: Academia de Letras e Artes de Martins (ALAM), ocupante da Cadeira 01 (atual presidente; Academia Feminina de Letras e Artes de Mossoró (AFLAM), ocupante da Cadeira 12 e Academia de Ciências Jurídicas e Sociais (ACJUS), ocupante da Cadeira 03. É Titular da Cadeira 08 da Academia Mossoroense de Letras (AMOL) e Patronímica da Cadeira 57 do Conselho Internacional de Letras e Artes (CONINTER). Integra o Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP), a Sociedade Brasileira de Estudo do Cangaço (SBEC), o Museu do Sertão, a Associação Literária e Artística de Mulheres Potiguares (ALAMP) e a Associação dos Escritores Mossoroenses (ASCRIM), além de Sócia Correspondente da Academia de Letras de Apodi (AAPOL).

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